O horror cósmico e a precisão cirúrgica de Entropy. O EP de estreia de Oblivion Voyage, projecto liderado pela guitarrista Phoenix van der Weyden, cruza death metal técnico, arte de Zdzisław Beksiński e literatura lovecraftiana.
Depois de um ano de 2025 pautado por uma progressão calculada — assinalada pela entrega sucessiva dos singles “Dagon”, “The Watchers” e “Material Prisons” —, os Oblivion Voyage concretizam finalmente a sua primeira grande afirmação de estúdio. Liderado a partir de Coimbra pela guitarrista e compositora brasileira Phoenix van der Weyden, o projeto de death metal técnico e progressivo lançou de forma independente, no passado dia 20 de Agosto, o seu EP de estreia intitulado Entropy.
Composto por três temas inéditos — “Cursed to Reincarnate”, “Nephilim” e “Mountains of Madness” —, o registo solidifica a transição da visão autoral de van der Weyden para um colectivo de alta precisão em estúdio. Embora o projecto mantenha a sua matriz como uma criação central da guitarrista, a gravação contou com uma lista de convidados de peso: o vocalista norte-americano David Diefenderfer, o baixista ucraniano Aleksander Dolgy e o baterista argentino Facundo Blast. É precisamente na dinâmica de estúdio com Facundo Blast que reside um dos pilares do registo: as três composições foram captadas e trabalhadas no Sweep Blast Studios, a fortaleza sonora operada pelo próprio baterista, garantindo uma produção cirúrgica, cristalina e sem margem para perda de impacto.
No plano estético, a escolha da capa revela a ambição concetual do projeto ao recorrer à arte do lendário pintor surrealista polaco Zdzisław Beksiński. A imagética soturna e distópica de Beksiński serve de espelho visual perfeito para a forte carga temática lovecraftiana que atravessa o EP. A influência do universo de H.P. Lovecraft é inequívoca, sobressaindo de forma directa em temas como “Mountains of Madness” — uma vénia explícita à obra At the Mountains of Madness —, onde a arquitectura sónica mimetiza a desolação, o horror cósmico e a pequenez humana perante o desconhecido.
Musicalmente, o título Entropy antecipa o conceito da degradação e do caos, mas a execução sónica opera na direcção oposta ao descontrolo. Se a bagagem a solo de van der Weyden — vincada em trabalhos como Defying Destiny (2018) — apontava para a escola de virtuosismo e velocidade da Shrapnel Records e de nomes como Eddie Van Halen, em Entropy esse domínio técnico surge inteiramente subjugado à arquitectura da canção. Os solos detonam com a elegância de uma guitarrista de topo, mas funcionam como picos de tensão dentro de estruturas rítmicas densas e articuladas e ao mesmo tempo radicais.
Existe no pulsar do EP uma dualidade evidente. Por um lado, a banda reclama a linhagem nobre do death metal técnico e progressivo, convocando ecos dos Death. Ouçam as harmonizações e os pinch harmonics de “Cursed To Reincarnate” e vão descobrir, logo aí, a omnipresença de Chuck Schuldiner desde o vigor e intensidade de Leprosy ao rigor e poder melódico de The Sound Of Perseverance. Também o vanguardismo de Cynic, a hiper-velocidade de Necrophagist ou a erupção rítmica dos canadianos Martyr. Por outro lado, a espinha dorsal rítmica sustentada pela bateria de Facundo Blast e pelo baixo de Dolgy injecta um balanço visceral herdeiro do thrash metal clássico e do death metal de matriz europeia.
Não é assim tão incomum que uma banda apresente um enorme potencial que acaba minado por incapacidade na composição e produção, tornando as músicas delimitadas pelas suas premissas iniciais. Phoenix van der Weyden deixa bem claro que esse não será um problema para os Oblivion Voyage. Cada uma das malhas revela melodia marcante, harmonia envolvente, ritmo consistente e uma estrutura clara que conta uma história. Estas são as características mais essenciais na composição e aqui são aplicadas ao velho death metal, sem cair na previsibilidade.
Simplificando, é tudo vertiginoso e, ao mesmo tempo, radicalmente pesado. Até porque a prestação vocal de David Diefenderfer confere o contraponto de agressividade necessário para evitar que a complexidade instrumental desumanize o resultado final. O alcance das suas linhas vocais articula-se com a precisão dos riffs, mantendo o registo num estado constante de propulsão e urgência ao longo dos seus cerca de onze minutos de duração. A produção é absolutamente pristina. Sem necessidade de sobrecarregar o corpo sonoro de gain, para ocultar deficiências de execução, o som respira com uma dinâmica notável.
Edição independente já disponível nas plataformas digitais, Entropy cumpre a função de demonstrador de forças. Ao optar por apresentar três temas novos em vez de reciclar os lançamentos anteriores, os Oblivion Voyage demonstram uma capacidade de escrita fluida e contínua. Para o circuito da música extrema — nacional e internacional —, este EP posiciona o projecto sediado em Coimbra como um dos nomes mais sérios no âmbito da música técnica e progressiva, antecipando que o salto para o formato longa-duração e a entrada no catálogo de uma editora especializada serão apenas uma questão de tempo.
