Etta James

Etta James, The Dreamer

Durante mais de meio século, Etta James definiu o papel de cantora de rhythm & blues por excelência. Este lançamento monumental não só marcou o seu primeiro álbum em cinco anos, como foi o seu último álbum de estúdio, editado dois meses depois da sua morte.

Etta James transcende todas as categorias e estilos musicais numa carreira discográfica que se estendeu por mais de cinco décadas e foi encerrada com “The Dreamer”, editado através da Verve Forecast. Manda a etiqueta e o bom senso falar bem das pessoas postumamente. Ou talvez, mais romanticamente, que nesse momento, colocadas diante da sua insignificância, muitas coisas sejam relativizadas.

Refere-se isto para não invalidar que afirmar que este álbum foi o canto do cisne de Etta James tem um peso meritório por si só e não é uma afirmação meramente respeitosa. “The Dreamer”, o 29.º e álbum final de estúdio gravado por Etta James, foi editado a 8 de Novembro de 2011, pouco mais de dois meses após a diva R&B ter sucumbido na sua batalha com uma leucemia.

De qualquer forma, é impossível não pensar no avançado estado de detrimento de saúde do qual a diva sofria quando gravou este disco e como, mesmo assim, conseguiu uma prestação com uma força irresistível. Só consigo recordar-me de Freddie Mercury e de como os grandes, ao invés de vergarem sobre o peso do destino, o enfrentam estoicamente e conquistam a imortalidade.

Deixando de lado a prosa ontológica, o álbum tem um corpo de produção que parece veludo. Com o instrumental a mostrar força, sem agredir, como reverência à elegância da voz de Etta James. Jazz, soul, R & B ou até o hard rock (com uma versão fenomenal de “Welcome To The Jungle”), todas essas estéticas, neste álbum, são reduzidas à expressão da própria cantora de que «todas as canções são um blues».

Além disso, “The Dreamer” apresenta as interpretações únicas e cheias de alma que Etta James faz de “Cigarettes & Coffee” de Otis Redding, “Dreamer” de Bobby Bland e “In the Evening” de Ray Charles.

Ao lado da voz de Etta James surge em destaque o trabalho vibrante dos guitarristas Leo Nocentelli e Big Terry de Rouen, com um swing e versatilidade incomuns, além dum sentido de antiguidade renovada, como é tão ilustrativo um tema como “Boondocks” (original de Little Big Town). De facto, esse parece ser o mote deste disco de despedida: mais que jogar na segurança reconfortante de standards, houve o entusiasmo de arriscar até ao fim. Diria que essa é a única forma de sair de palco com um sorriso autêntico.

Assim, como eulogia final fica uma ideia que será unânime e amplamente repetida – não é o melhor disco da diva, mas é uma despedida muito digna para o fecho de cortina.

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