Fábulas Mundanas

Fábulas Mundanas e Outros Contos de Cantar, Um Corpo Estranho

Fábulas Mundanas e Outros Contos de Cantar, de Um Corpo Estranho, é um disco repleto de textutas sumptuosas, tão surpreendente quanto familiar e, no final de contas, lindíssimo.

Se há algo a dizer sobre a capacidade do duo Um Corpo Estranho para escrever contos, é a sua enorme capacidade narrativa. E esta vocação narrativa não surge do nada. A relação de João Mota e Pedro Franco com o cinema e o teatro já se manifestava em trabalhos como O Ferroviário, nascido da música criada ao vivo para acompanhar The Railroader, de Buster Keaton, e na colaboração com Saturnia em O Místico Orfeão Sónico.

Nesses trabalhos, a ROMA INVERSA já identificara a proximidade a Morricone e aos Dead Combo, o cruzamento entre psicadelismo, progressivo e canção portuguesa, e a capacidade de construir viagens musicais com coerência interna. Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar prolonga essa disponibilidade para contar histórias através da música, mas devolve a voz e a palavra ao centro de uma obra que se move entre a observação do quotidiano e a imaginação.

Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar, novo álbum de Um Corpo Estranho, pertence a uma categoria de discos de uma banda que, tendo já encontrado a sua linguage, continuam a descobrir até onde a podem levar. João Mota e Pedro Franco cruzam rock, progressivo, canção de autor, música de inspiração cinematográfica e diferentes expressões da portugalidade sem se deixarem aprisionar por nenhuma delas. A amplitude estética é considerável, mas não dispersa a identidade do duo. Pelo contrário, é na capacidade de reunir universos aparentemente distantes que a música encontra a sua coerência.

As (Doze) Fábulas

A primeira das Fábulas Mundanas é “Uma a uma”, cuja voz parece ouvir-se através de um megafone. Não é apenas uma opção tímbrica: convoca-nos para uma marcha colectiva, anunciada pela própria letra — «A cantiga é conhecida, uma a uma, vida a vida». A marcha avança lentamente, quase fatigada, mas mantém uma intransigência espartana, inscrita no andamento rítmico.

A distorção abrasiva remete para a banda sonora de Once Upon a Time in the West, de Ennio Morricone, convocando uma paisagem árida, de tensão suspensa e determinação obstinada. A abertura não oferece conforto nem uma entrada particularmente hospitaleira. Estabelece, antes, uma cadência comum, como se a experiência individual tivesse de encontrar o seu lugar numa marcha que já começou.

“Grifo”, primeiro single de Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar, prolonga a inquietação por outros meios. A aproximação aos Queens of the Stone Age é particularmente fascinante na forma como a guitarra recusa as soluções convencionais do rock e procura uma ambiguidade harmónica, dissonante e serpenteante. A chamada “Escala de Josh Homme” constitui uma referência útil para compreender essa linguagem: a combinação de terceiras menores e maiores, com a quinta diminuta, pode produzir uma tensão escura e excêntrica, oscilando entre o maior e o menor.

Não se trata esta observação de identificar uma fórmula universal ou de reduzir a canção a uma genealogia de influências, mas de reconhecer uma afinidade estética concreta. A guitarra parece mover-se por terreno instável, familiar o suficiente para nos atrair, estranho o bastante para nunca nos deixar inteiramente seguros. A mudança de cenário em “O Amor É Quase Nada” é quase abrupta. Entramos no domínio dos Dead Combo, num western letárgico que se mistura com a morna.

A languidez e a contenção substituem a abrasividade, mas não desaparece a tensão: transforma-se numa melancolia suspensa, em que cada gesto parece obedecer a um tempo próprio. A passagem entre os dois temas demonstra bem como Um Corpo Estranho pode percorrer territórios muito diferentes sem recorrer a uma identidade musical feita de fórmulas repetidas. A coerência reside menos na semelhança entre as canções do que na sensibilidade que lhes determina o espaço, o movimento e a expressividade.

Essa amplitude volta a manifestar-se na sequência formada por “Carta Em Papel Carmesim” e “Não me peças para ser um homem bom”. A primeira é uma balada ao piano, singela e quase adágica, que funciona como preâmbulo para uma das grandes canções do disco. “Não me peças para ser um homem bom” transporta Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar para outro patamar: é um lamento amoroso cuja dimensão progressiva emerge sobretudo na harmonização coral, de carácter onírico.

A presença de Adolfo Luxúria Canibal e Cátia Oliveira acrescenta outras vozes a esta construção, sem que a canção perca o seu centro emocional. Num mundo ideal, seria presença obrigatória nas listas de melhores do ano e rodaria exaustivamente nas rádios portuguesas. Não por qualquer obrigação de reconhecimento da música nacional, mas porque é uma canção extraordinária (num álbum igualmente superlativo), capaz de conciliar a intimidade da balada com uma arquitectura vocal que se expande muito para além dela.

A dimensão progressiva torna-se mais assumida em “Fio a Pavio”, onde emerge outra referência importante para compreender a amplitude do álbum: os Radiohead. Mais do que acrescentar um nome à cartografia musical do duo, esta aproximação ajuda a situar a abertura a estruturas e atmosferas que escapam à previsibilidade da canção convencional. É uma dimensão que, no contexto de Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar, não aparece como uma excursão isolada ao prog, mas como parte de uma linguagem que tanto acolhe a dissonância como a delicadeza, tanto a repetição hipnótica como a expansão harmónica.

E em “Quem saberá?”, essa dimensão progressiva volta a encontrar a portugalidade de José Mário Branco, de Zeca Afonso e até de José Cid. A associação não é contraditória: a tradição da canção portuguesa, o progressivo e a ambição de construir narrativas musicais mais amplas podem partilhar uma mesma vontade de ultrapassar os limites mais previsíveis da forma. Um Corpo Estranho não trata a portugalidade como um repertório fechado de sinais folclóricos. Há uma tradição que se reconhece, mas também uma abertura permanente à transformação, ao encontro e à contaminação estética.

Essa sensibilidade ganha uma expressão particularmente feliz no instrumental “Fábula de um dia simples”. É difícil colocar em palavras aquilo que uma música sem palavras consegue sugerir, mas talvez se possa imaginar Alberto Caeiro musicado por Sérgio Godinho. O gentil heterónimo pessoano manifesta-se de forma ainda mais clara na candura de “Por amor até deixava de fumar”, canção que parece encontrar na simplicidade uma forma de conhecimento. Não se trata de procurar uma correspondência literal entre literatura e música, mas de reconhecer uma qualidade contemplativa, uma maneira de olhar para o mundo sem o sobrecarregar de explicações. A singeleza, aqui, não é falta de ambição: é uma escolha estética.

Nesta escuta de cada uma das Fábulas Mundanas, “Cronos” recorda-nos, por seu lado, que uma parte substancial da portugalidade nasce do ímpeto atlântico e do intercâmbio com as culturas da costa africana. A identidade portuguesa não se esgota na geografia continental nem numa imagem idealizada de tradição. Foi também moldada por séculos de encontros, deslocações e trocas, nem sempre voluntárias ou justas, que deixaram marcas profundas na cultura. A Grande Mãe também pariu muito de Portugal ao longo de tanto tempo. É uma dimensão histórica e cultural que alarga a leitura do álbum e impede que a sua relação com a música portuguesa se confunda com qualquer espécie de pureza identitária, muito pelo contrário: chega dessa merda (pun intended).

Quem um Conto Acrescenta um Ponto

O percurso termina com “Não temos medo de rir” e “Como um corpo só”, dois temas que encerram o disco de modo reverencial. Em “Como um corpo só”, a ligação conceptual à abertura torna-se evidente através do mantra «A nossa condição é de união». Vivemos juntos, sorrimos juntos, temos medo juntos, resistimos juntos. É quase uma liturgia. Se “Uma a Uma” nos colocava numa marcha colectiva, o encerramento parece revelar com maior clareza aquilo que a marcha procurava: não a uniformidade, mas a consciência de uma condição partilhada. O riso não anula o medo, tal como a união não dissolve as contradições do mundo. Ambos fazem parte da experiência comum, daquilo que nos permite continuar a caminhar.

A instrumentação das Fábulas Mundanas ajuda a compreender a diversidade de paisagens que o disco percorre. Pedro Franco assume autoharpa, guitarras, baixo, banjo, harmónio, lap steel, percussões, programações e sintetizadores, além da captação, edição e participação na mistura. João Mota assegura a voz e os coros, enquanto Diogo Arranja acrescenta bateria a cinco temas e Paulo Cavaco introduz o piano em três. A produção é partilhada pelos dois músicos, com mistura de Pedro Franco e Sérgio Mendes e masterização deste último. O resultado não deve ser lido como uma demonstração de versatilidade instrumental por si só, mas como a construção de um vocabulário suficientemente amplo para que cada canção encontre a sua própria forma.

No fim, Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar não precisa de resolver as contradições que observa, nem de oferecer uma moral definitiva para as suas fábulas. O que propõe é uma maneira de olhar para o presente através de canções que transitam entre o íntimo e o colectivo, a contemplação e a resistência, a tradição e a reinvenção. A união que encerra o disco não apaga a diversidade que o percorre; dá-lhe sentido. E é nessa capacidade de reunir mundos diferentes sem perder a própria voz que Um Corpo Estranho confirma a singularidade do seu percurso.

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