Os portugueses GAEREA regressam ao universo do seu quinto álbum com quatro versões de “Shallow”, incluindo uma reinterpretação electrónica de Paranormal Attack, uma leitura acústica com a violoncelista Jo Quail e uma versão para piano de Juan L. Otaiza. O lançamento (quase uma instalação) aprofunda a abertura estética e emocional que marcou Loss, editado em Março pela Century Media.
Os GAEREA lançaram Shallow, um novo EP que parte de uma das composições mais experimentais de Loss, o álbum editado a 20 de Março pela Century Media Records. Em vez de acrescentarem simplesmente mais uma canção à discografia, os músicos portuenses decidiram explorar as possibilidades de uma composição através de quatro abordagens distintas: a versão original, uma reinterpretação electrónica assinada por Paranormal Attack, uma leitura acústica com a participação da violoncelista britânica Jo Quail e uma versão para piano com Juan L. Otaiza. O resultado é um lançamento que funciona simultaneamente como prolongamento do álbum e como exercício de abertura a outros universos musicais.
A escolha de “Shallow” não é arbitrária. A própria banda descreve a composição como um ponto de encontro entre depressão e lucidez, uma espécie de dança interminável em que a esperança de um dia melhor convive com a tendência para mergulhar cada vez mais fundo na autodepreciação.
É uma imagem particularmente reveladora do universo emocional de Loss, um disco em que Alpha, vocalista e principal responsável pela escrita, decidiu expor experiências pessoais que até então permaneciam mais resguardadas na identidade colectiva dos GAEREA. A canção foi construída em torno de uma tensão entre vulnerabilidade e resistência, e a banda identifica-a como uma das suas composições mais experimentais, precisamente pela amplitude dos arranjos vocais e orquestrais.
O EP permite observar essa tensão através de quatro perspectivas. A versão original mantém a arquitectura da composição e a identidade sonora dos GAEREA, mas as restantes interpretações deslocam o seu centro de gravidade. Paranormal Attack, projecto português associado à música electrónica e ao psy-trance, transforma “Shallow” numa experiência de natureza rítmica e electrónica. A colaboração não procura simplesmente acrescentar uma camada de produção à gravação original: altera a forma como a música se movimenta e como o seu conteúdo emocional pode ser recebido. A densidade atmosférica dos GAEREA encontra aqui um contexto inesperado, no qual a pulsação electrónica substitui parte da tensão construída pela instrumentação metal.
A participação de Jo Quail conduz a composição para um território bastante diferente. A violoncelista e compositora britânica, conhecida pelo seu trabalho entre a música contemporânea, a experimentação e diferentes linguagens associadas ao metal, contribui para uma versão acústica em que o violoncelo assume um papel central. A redução da instrumentação não significa necessariamente uma diminuição da intensidade.
Pelo contrário, a exposição da componente melódica e a presença orgânica do instrumento permitem aproximar a canção da sua dimensão mais íntima. Juan L. Otaiza, pianista e compositor venezuelano radicado em Portugal, oferece uma terceira leitura, desta vez centrada no piano. A sua versão prolonga a dimensão contemplativa da composição, retirando-lhe parte da energia física e deixando mais espaço para a progressão harmónica e para a expressividade melódica.
Há uma razão para este exercício de colaboração merecer particular atenção na trajectória dos GAEREA. A banda reconhece que, durante os seus primeiros dez anos de actividade, foi bastante protectora em relação à própria música, evitando permitir que outros músicos entrassem no seu universo criativo. A decisão de abrir “Shallow” a três interpretações externas representa, por isso, mais do que uma curiosidade editorial. É também um sinal de confiança numa identidade artística que já não precisa de preservar a sua integridade através do isolamento. Os GAEREA parecem interessados em descobrir o que acontece quando uma composição deixa de pertencer exclusivamente à linguagem que a originou.
Loss: A Perda Como Matéria de Criação
Para compreender a importância deste lançamento, importa regressar a Loss. Quinto álbum de estúdio dos GAEREA e primeiro para a Century Media Records, o disco assinalou uma transformação significativa numa banda que, desde o EP homónimo de 2016, tinha construído uma reputação internacional a partir de uma abordagem particularmente intensa ao black metal.
Unsettling Whispers (2018), Limbo (2020), Mirage (2022) e Coma (2024) documentam um percurso de expansão progressiva, mas Loss representa uma mudança mais profunda: não apenas uma evolução na linguagem instrumental, mas uma alteração na relação entre a música e a experiência pessoal que lhe dá origem.
A transformação é especialmente perceptível em “LBRNTH”, uma composição que se aproxima da pop, e em “Stardust”, tema de encerramento com cerca de oito minutos que reúne harmonias vocais, piano, orquestrações e uma passagem de inspiração R&B. Esta última é particularmente importante para compreender o título do álbum. Alpha revelou que a canção foi escrita em memória de um amigo próximo, que perdeu quando ambos eram adolescentes. A experiência marcou profundamente a sua personalidade e continuou a acompanhá-lo durante anos, transformando-se numa fonte de culpa, ausência e reflexão. Loss nasce, em grande medida, da tentativa de dar forma musical a esse peso emocional.
Não se trata, portanto, de uma mudança estética desligada da identidade anterior dos GAEREA. A agressividade continua presente, mas deixou de ser a única linguagem disponível para traduzir o que a banda pretende comunicar. A brutalidade pode coexistir com a melodia, a electrónica, a contenção e a exposição emocional. O que antes era sobretudo uma experiência de confronto sonoro tornou-se também um espaço de introspecção.




Numa entrevista à Rock Sound, Alpha explicou que o processo de composição demorou cerca de um ano, muito mais do que nos discos anteriores, precisamente porque exigiu uma disponibilidade diferente para confrontar experiências pessoais e encontrar novas formas de as transformar em canções.
Esta abertura não significa que Loss tenha abandonado a tensão característica dos GAEREA. Pelo contrário, a banda parece ter percebido que a intensidade não depende exclusivamente da velocidade, da dissonância ou da violência instrumental. Pode igualmente nascer de uma voz exposta, de uma progressão harmónica inesperada ou de uma composição que recusa a resolução fácil. A própria “Shallow” ocupa esse espaço ambíguo: a esperança não elimina a autodestruição, tal como a clareza não significa necessariamente libertação. É essa contradição que as quatro versões agora reunidas procuram explorar por caminhos diferentes.
Uma Década de GAEREA
A edição de Shallow acontece num momento importante para a banda portuense. Dez anos depois do primeiro EP, os GAEREA encontram-se numa fase de consolidação internacional, com uma presença crescente em festivais e digressões fora de Portugal. A assinatura pela Century Media representa uma nova etapa nesse percurso, mas Loss demonstrou que a expansão não implicaria necessariamente uma normalização da linguagem musical. Pelo contrário, o álbum tornou ainda mais evidente a vontade de experimentar, mesmo quando isso significa contrariar as expectativas de parte do público que acompanhou os primeiros discos.
O lançamento do EP surge também antes da digressão norte-americana que levará os GAEREA aos Estados Unidos e ao Canadá, entre 13 de Novembro e 13 de Dezembro, na companhia de Imminence e Dying Wish. A agenda internacional continua, assim, a crescer em paralelo com uma exploração criativa que não se limita à composição de novos temas.
O interesse de Shallow reside precisamente nessa possibilidade de olhar para uma canção como matéria aberta. A versão original, o remix de Paranormal Attack, o arranjo acústico de Jo Quail e a interpretação ao piano de Juan L. Otaiza não são apenas variantes destinadas a prolongar a vida comercial de um single. Constituem quatro maneiras de abordar a mesma tensão emocional, revelando aspectos diferentes de uma composição que já nasceu de uma vontade de ultrapassar fronteiras.
Depois de Loss, seria redutor esperar que os GAEREA regressassem simplesmente à fórmula que os tornou conhecidos. A banda parece ter encontrado uma liberdade criativa que lhe permite assumir influências anteriormente afastadas, expor experiências pessoais e convidar outros músicos a reinterpretar o seu trabalho. Shallow confirma que essa abertura não foi um episódio isolado do álbum de Março. É uma direcção que os GAEREA estão dispostos a continuar a explorar.
