Genocide

Genocide, O Hard Club à Beira da Ruptura

Noite histórica para o metal extremo em Portugal, com a aclamação do 25.º aniversário de “Breaking Point”, dos Genocide e a estreia dos Disharmonic Orchestra nas nossas fronteiras. Num ambiente efervescente, os veteranos grupos foram bem secundados pelos Skinning e pelos Biolence.

Foi ainda no primeiro trimestre de 2024, sem que nada o fizesse prever (aliás, tudo apontava para o contrário), que os Genocide anunciaram o seu regresso aos palcos para o que, até ao momento, parece ser sido uma ocasião única para rever ao vivo e a cores uma das mais lendárias e aplaudidas bandas saídas do underground luso durante a década de 90. No dia passado dia 5 de Outubro de 2024, o quinteto portuense actou no Hard Club, no Porto, num evento cujo cartaz contou também com a presença dos Skining, Biolence e, como avançado pela LOUD! em momento oportuno, das lendas austríacas do metal extremo experimental Disharmonic Orchestra.

Foi uma noite de vigoroso espírito de uma comunidade que, na Invicta, parece viver com as energias mais focadas em suportar a sua cena – isto sem pretender denegrir muito pessoal que, tal como nós, ali se deslocou oriundo da capital e de outros pontos geográficos (inclusive muitos desses a que chamamos nuestros hermanos).

Resultado: a Sala 2 do Hard Club encheu progressivamente, desde as primeiras notas dos Skining, até estar quase ao barrote quando os Disharmonic Orchestra iniciaram o seu concerto. Pela altura que os Genocide começaram a sua actuação, estávamos num barril de pólvora.

Como quase sempre sucede nas salas instaladas no histórico edifício do Mercado Ferreira Borges, o ambiente sonoro esteve à altura do evento. Desde logo na brutalidade com que foi traduzido o death metal dos vimaranenses Skinning. Uma banda que não víamos há muito e que se apresentou, aos nossos olhos, com o line-up renovado pela presença da baixista Susana Brochado. A articulação das suas linhas Steve DiGiorgiórgicas trouxeram articulação à intensidade barbárica do trio.

A versão de “Pretty Woman”, clássico de Roy Orbison, é que foi algo desnecessária. Curiosamente, ao contrário das duas velocidades que usam em “Homicidal Experimentations” (Larvae Records, 2020), que são veloz ou velocíssimo, pareceram mais compassados nesta noite, o que beneficiou os temas de um groove surpreendente, mas muito bem-vindo. Nos corredores do Hard Club, após a actuação, ouvimos uns zunzuns da preparação para gravar o quarto álbum. Se assim for, mal podemos esperar.

Em 2010, dei o meu único concerto no saudoso Metalpoint. Os Biolence tinham visto os Why Angels Fall tocar no festival Velha Guarda IV, no Teatro Sá da Bandeira, e foram suficientemente gentis para nos convidar para o concerto de apresentação do seu primeiro EP, “Melodic Thrashing Mayhem”. Guardo recordações intensas dessa noite.

Portanto, foi bastante gratificante confirmar aquilo que se podia perceber dos dois álbuns de anos consecutivos e, principalmente, do arrasador EP de 2021, “Enslave, Deplete, Destroy!”: que a banda, a dada altura, mudou radicalmente, mas tem vindo a evoluir em todos os aspectos, desde as descargas de agressividade à sua capacidade melódica. Já nas harmonizações das guitarras sempre foram impecavelmente certinhos.

Uma Orquestra de 3

Em certos aspectos, os Disharmonic Orchestra foram a banda da noite, mesmo que o motivo principal fosse recuar no tempo com os Genocide. O concerto de estreia no nosso país do trio de Klagenfurt foi de menos a mais. Apoiamo-nos nos nossos parceiros da LOUD! para uma breve contextualização histórica. Depois de gravarem três maquetas (“Requiem For The Forest”, “The Unequaled Visual” e “Hypophysis Rehearsal”), foram descobertos por uma emergente Nuclear Blast, que os assinou imediatamente.

O primeiro lançamento através do selo germânico foi um EP dividido com os conterrâneos (e companheiros de editora) Pugent Stench e aconteceu em 1989. Ainda nesse ano, os músicos lançaram um segundo EP intitulado “Successive Substitution” e, em 1990, assinaram por fim o primeiro álbum de longa-duração, “Expositionsprofilaxe”.

Foi precisamente com esse histórico disco que abriram hostilidades, através de “Life Disintegrating”. E de seguida, “Keep Falling Down”, tema de “Ahead”, o álbum que marcou o breve regresso da banda em, 2002, confirmou que o concerto ia abranger todas as fases dos Disharmonic Orchestra, do death/grind ao death de exigência técnica elevada, passando pela melancolia melódica e as influências mais subtis do hardcore e do funk. Aliás, com “Accelerated Evolution” regressámos ao incontornável “Expositionsprofilaxe” e depois, novamente, a “Ahead”. Para aqueles que apreciam os austríacos, precisamente, pelo seu sentido experimental, foi uma viagem dos diabos!

Foi por esta altura em que, eventualmente pelo acerto na monição de palco (à imagem do equilíbrio que passou a surgir na FOH), o trio começou a revelar maior entrosamento e coordenação nas transições estruturais das malhas. Quando o baixo som de baixo se tornou mais omnipresente, Hoimar Wotawa tornou-se mais eficaz a colar a bateria com a guitarra e, consequentemente, mais confiante nas suas próprias linhas musicais.

Esse cimento era tudo aquilo que era necessário para que a rodagem dos veteranos Martin Messner e Patrick Klopf. Absolutamente seguros daquilo que estavam a fazer, entraram de rompante na era que já gravaram como trio, através da explosivamente propulsiva “Flambition”, tema que arranca com uma introdução de bateria de Messner que pode ser colocada ao lado de Alex Van Halen em “Hot For Teacher”.

Passaram a abundar compassos compostos e síncopes, robustez instrumental que, em muitos momentos, fez o power trio parecer um conjunto maior de músicos, uma orquestra. Klopf passou então a interagir mais com o público que, se estava já em ponto de ebulição na Sala 2, explodiu na maníaca “Disappeared with Hermaphrodite Choirs”, clássico maior do álbum de estreia.

Então chegou aquela que, na nossa opinião, foi a malha da noite. “Perishing Passion”, com os pinch harmonics a rodos de Klopf, com as trovejantes e progressivas linhas de baixo e a bateria frenética, a cavalgar vertiginosamente diferentes tempos rítmicos, foi tudo aquilo por que nos apaixonámos pelos Disharmonic Orchestra quando éramos putos.

Até ao final, ainda houve tempo para uma montanha-russa estética com “Interposition”, “The Venus Between Us”, “Groove” e “Idiosyncrasy”. Os Disharmonic Orchestra demoraram a vir a Portugal, mas deram um concerto que não se vai esquecer tão depressa, no qual o seu carácter experimental aproximado uma mistura de Pyogenesis, na altura de “Sweet X-Rated Nothings”, com Faith No More serviu de prova de que os arrojados discos “Not to Be Undimensional Conscious” e “Pleasuredome”, este último o álbum que, para todos os efeitos, acabou com a primeira encarnação da banda, precisam de ser reabilitados e assumidos com autênticos clássicos do metal.

História à Espera de Ser Feita

Quando surgiram, em plena génese do boom do underground nacional que se viveu na passagem dos anos 80 para os 90, os Genocide marcaram posição com uma força avassaladora. Com bandas a aparecer em sucessão, a torto e a direito, de norte a sul do país, os Genocide estremeceram as estruturas do movimento com uma abordagem – para a época, que os tempos eram definitivamente outros – mais moderna, desenvolvida em termos técnicos e, a todos os níveis, extrema. Quando os Genocide editaram a estreia homónima, em 1994, estavam já muito à frente da competição e, com o seu poderoso híbrido de death/grind, estabeleceram-se como uma das referências daquela época.

No Hard Club, os históricos Genocide celebraram três décadas redondas do seu primeiro disco e, principalmente, o 25.º aniversário do seu segundo trabalho “Breaking Point”, que foi reeditado nas semanas que antecederam este concerto. É difícil crer que 1999 foi há 25 anos. Mas essa realidade acerta-nos em cheio nas ventas, através do caos (no bom sentido) dos harmónicos e dissonâncias de Alfredo Barbosa e Mário Ribeiro, assim que os Genocide fazem explodir o moshpit.

“Abhorrent Form” trouxe o baixo de Dário Alexandre para a equação, com aqueles slides descendentes a arrastarem suor, lama e tudo mais consigo, para um poço negro cujas paredes ululavam com os hammer-on’s e pull off’s à “The Bleeding”, dos Cannibal Corpse, dos dois guitarristas. Talvez “Breaking Point” seja o disco dos Genocide onde se nota mais a influência dos históricos talhantes que se originaram na Big Apple.

Ao fim de 25 anos a única diferença terá sido que as malhas foram tocadas com uma ligeira redução de bpms, o que esteve longe de prejudicar as composições e trouxe um sentido renovado à equação, igualmente arrasador, mas mais lamacento, como já referimos. Ora, que não se diga que não apreciamos sludge por estas bandas. Pode ter sido apenas uma sensação, naturalmente, afinal os blasts de Gustavo Costa soaram toda a noite como uma implacável bateria de artilharia.

Estamos para aqui em diatribes a envolver os Cannibal Corpse e foi o próprio mestre de cerimónias a recordar-nos a grande referência dos Genocide, os Bolt Thrower. As lendas britânicas foram mesmo homenageadas com uma demolidora versão de “Cenotaph”, do icónico “War Master”. Tudo apropriado aos tempos conturbados que vivemos, como se não tivessem passado duas décadas e meia. Não é caso para fazer piadas, mas já que nos referimos a coisas que não mudam, a voz de Luís Gonçalves é uma delas. Hora e meia a rugir como se fosse um arauto do horror que grassa no mundo, a traduzir a crudeza e agressividade dos Genocide e de “Breaking Point”, um evangelista do “ponto de ruptura”…

Os vídeos foram gravados por Tiago Sousa do canal YouTube Headbanger BrutalGigs, onde podem encontrar um entusiasmante acervo de concertos dentro do espectro do heavy metal, no nosso país. Cliquem na hiperligação, para o Headbanger BrutalGigs.

Um pensamento sobre “Genocide, O Hard Club à Beira da Ruptura

Leave a Reply