Slash

Slash vs. DJ Super Soul

Nas sombras dos colossos de estádio, ergue-se um monumento esquecido dos Guns N’ Roses: uma epopeia sónica de sete minutos onde a guitarra de Slash nos oferece a emoção e o dramatismo duma perseguição automóvel vertiginosa com mestria absoluta.

Quando se debate o legado dos Guns N’ Roses, a conversa descamba quase sempre nos mesmos argumentos: a fúria punk de Appetite for Destruction ou o megalograndioso aparato orquestral de “November Rain” e “Estranged”. No entanto, escondida na segunda metade do Use Your Illusion II, jaz “Breakdown”, uma das composições mais complexas, emotivas e narrativamente ricas da banda.

Se Axl Rose nos dá uma transição magistral do piano honky-tonk para uma atmosfera de Western melancólico, com grandiosidade épica e melódica de Elton John —, Slash oferece a “Breakdown” a sua pele e o seu sangue. Longe da velocidade cega, o guitarrista entregou aqui uma das suas maiores lições de linguagem blues/rock. “Breakdown” é uma canção em mutação constante…

Arranca com o assobio melancólico de Axl e uma guitarra acústica e banjo de sabor southern/country, assentando depois num groove cavalgado de baixo e bateria. A grande dificuldade técnica e artística para qualquer guitarrista num tema com esta estrutura é não atropelar a narrativa da voz. Slash percebeu isso perfeitamente: ao longo de sete minutos, ele não toca apenas solos; ele estabelece um diálogo contínuo com o vocalista. O trabalho de Slash em “Breakdown” pode ser fatiado em três momentos cruciais de puro brilhantismo técnico e expressivo:

A) Os Fraseados de Abertura e o Uso do Neck Pickup. Logo nos primeiros minutos, enquanto Axl introduz a letra, Slash entra com pequenas respostas de guitarra; o som sai gordo, aveludado e quente; não há notas a mais. Slash usa bends microtonais lentos e um vibrato largo e dramático. Cada frase funciona como uma vírgula na interpretação vocal de Axl.

B) O Solo Central: A Construção da Catarse. Por volta dos 3:20, a música ganha corpo e abre espaço para o solo principal. É um exemplo de escola de como construir tensão e libertação; numa linguagem bluesy, o solo começa assente na escala pentatónica de Mib (com a afinação padrão da banda em meio tom abaixo), mas injecta notas de passagem da escala menor harmónica que conferem aquele travo trágico; um portento de ataque e dinâmica, Slash começa contido e vai subindo no braço da guitarra. Ele recorre a double-stops (tocar duas cordas em simultâneo com bend) transmitindo uma sensação de esforço e urgência mecânica.

C) O Outro e o Duelo com DJ Super Soul. O fecho da malha é pura arte cinematográfica. Enquanto Axl recita o famoso monólogo do filme Vanishing Point (1971), aí citado por DJ Super Soul (Cleavon Little) enquanto a polícia persegue o Dodge Challenger do protagonista, Slash descola numa cavalgada final. Numa linguagem narrativa, o solo final não segue uma métrica rígida, é um fluxo de consciência na guitarra. À medida que a voz de Axl vai ficando mais desesperada e o piano de fundo martela os acordes, as frases de Slash tornam-se mais agudas, por contraponto, sustentadas por sustain infinito e repetições de notas em colisão, a colapsar no fade out. Épico!

“Breakdown” mostra que o maior trunfo de Slash nunca foi a velocidade técnica (que, de qualquer forma, é vertiginosa neste tema), mas sim o sentido de composição dentro do próprio solo. Ele toca para a canção, constrói arranjos que respiram e sabe exactamente quando deixar uma nota a “queimar” no ar.

Infelizmente, é uma das canções mais raramente tocadas ao vivo em todo o catálogo dos Guns N’ Roses. Estreou-se em Worcester, Massachusetts, a 6 de Dezembro de 1991, vários meses após o lançamento dos álbuns Use Your Illusion. Foi tocada novamente cerca de uma semana depois, no Madison Square Garden, em Nova Iorque, a 13 de Dezembro de 1991. Essas são as únicas duas actuações documentadas.

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