Morreu Vicky Marques. Da era dourada dos bares de Santos e do hard rock à conquista dos maiores palcos do mundo ao lado de Mariza e Paulo Gonzo, o baterista foi um dos mais salientes rostos de uma geração algo esquecida.
A música portuguesa perdeu hoje uma das suas colunas vertebrais mais discretas, talentosas e respeitadas. O baterista Hugo “Vicky” Marques faleceu no dia 23 de Julho de 2026, aos 51 anos, vítima de doença prolongada, segundo informação confirmada por amigos próximos e avançada pela Arte Sonora.
Detentor de um percurso de mais de três décadas, Vicky foi um dos rostos e braços mais visíveis de uma geração de músicos pós-boom do rock português. As suas influências começaram no rock progressivo de Phil Collins nos Genesis, passando pelos workshops de figuras como Rod Morgenstein, Dom Famularo, Terry Bozzio, Simon Phillips e Dave Weckl. Cresceu a absorver a estética do hard rock que vinha do Sunset Strip, vivenciou na pele a transição do hair metal para a explosão do grunge nos anos 90 e fez a sua rodagem no circuito fervilhante de música ao vivo nas noites de Lisboa.
Antes dos auditórios internacionais, a escola de Vicky foram os bares da capital. Foi na era dourada do mítico Até Q’Enfim, em Santos, e no palco do Xafarix, a tocar covers com a energia contagiante da juventude, que o seu talento se tornou impossível de ignorar. Ainda no Xafarix, aos 16 anos, cruzou-se com o baterista José Salgueiro, que lhe deu um conselho que Vicky adoptou como mantra para o resto da vida: prestar atenção às dinâmicas. «Música sem dinâmicas é como uma flor sem cheiro e sem cor», recordaria mais tarde
Foi precisamente nesse circuito nocturno que Paulo Gonzo o recrutou para integrar a banda que gravaria Quase Tudo (1997). Ao lado de nomes como Gonçalo Pereira na guitarra e Mário Valente no baixo, Vicky deu o balanço rítmico a um dos discos mais bem-sucedidos da história da pop-rock nacional, saltando do circuito de bares para o grande público.
Apesar do talento nato, Vicky Marques encarou o instrumento com uma disciplina quase obsessiva. A sua formação formal passou pelas aulas com Francisco Furtado na Escola de Música de Cascais (onde aprendeu os rudimentos da pop, bossa-nova e samba), Bruno Pedroso (que lhe abriu as portas do jazz), Manuel Costa Reis e Michael Lauren. Mais tarde, em 2007, rumou à Universidade de Bath, em Inglaterra, num workshop da WOMAD onde teve aulas privadas com o lendário Billy Cobham.
Esta procura incansável pela mestria valeu-lhe o patrocínio de marcas de topo (Evans, Pro-Mark, Sabian, Taye) e o reconhecimento internacional, culminando num perfil de destaque no blog da prestigiada revista norte-americana Modern Drummer (abre link externo).
O Leme Rítmico de Mariza e o Voo Global
A sua enorme versatilidade permitia-lhe saltar sem esforço do fusion e do jazz para a música do mundo e a canção de autor. Colaborou com uma lista impressionante de criadores: Maria João & Mário Laginha, Mafalda Veiga, Pedro Joia, Paulo de Carvalho, Filipe Raposo, Ivan Lins, Gilberto Gil e projectos de percussão colectiva como Tim Tim por Tim Tum ou O ó Que Som Tem?.
Contudo, foi ao lado de Mariza que a sua presença em palco ganhou escala planetária. Ao longo de cerca de 400 concertos pelo globo, a bateria de Vicky Marques assentou praça em algumas das salas mais míticas da música mundial: o Carnegie Hall e o Town Hall em Nova Iorque, o Sydney Opera House na Austrália, o Barbican Centre e o Royal Festival Hall em Londres, o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles e o Palau de la Música em Barcelona.
Mais do que o currículo invejável, Vicky deixa uma marca indelével na comunidade de músicos portugueses pela sua postura. Humilde, generoso e sempre disponível para apoiar os bateristas mais jovens, encarava a música não como uma exibição de virtuosismo técnico, mas como um serviço à canção e ao colectivo. A sua bateria calou-se cedo demais, mas o balanço, a cor e o “cheiro” da sua dinâmica continuarão a ressoar nas centenas de gravações que deixou para a posteridade.



