Vicky

Dinâmica & Generosidade: Vicky (1975–2026)

Morreu Vicky Marques. Da era dourada dos bares de Santos e do hard rock à conquista dos maiores palcos do mundo ao lado de Mariza e Paulo Gonzo, o baterista foi um dos mais salientes rostos de uma geração algo esquecida.

A música portuguesa perdeu hoje uma das suas colunas vertebrais mais discretas, talentosas e respeitadas. O baterista Hugo “Vicky” Marques faleceu no dia 23 de Julho de 2026, aos 51 anos, vítima de doença prolongada, segundo informação confirmada por amigos próximos e avançada pela Arte Sonora.

Detentor de um percurso de mais de três décadas, Vicky foi um dos rostos e braços mais visíveis de uma geração de músicos pós-boom do rock português. As suas influências começaram no rock progressivo de Phil Collins nos Genesis, passando pelos workshops de figuras como Rod Morgenstein, Dom Famularo, Terry Bozzio, Simon Phillips e Dave Weckl. Cresceu a absorver a estética do hard rock que vinha do Sunset Strip, vivenciou na pele a transição do hair metal para a explosão do grunge nos anos 90 e fez a sua rodagem no circuito fervilhante de música ao vivo nas noites de Lisboa.

Antes dos auditórios internacionais, a escola de Vicky foram os bares da capital. Foi na era dourada do mítico Até Q’Enfim, em Santos, e no palco do Xafarix, a tocar covers com a energia contagiante da juventude, que o seu talento se tornou impossível de ignorar. Ainda no Xafarix, aos 16 anos, cruzou-se com o baterista José Salgueiro, que lhe deu um conselho que Vicky adoptou como mantra para o resto da vida: prestar atenção às dinâmicas. «Música sem dinâmicas é como uma flor sem cheiro e sem cor», recordaria mais tarde

Foi precisamente nesse circuito nocturno que Paulo Gonzo o recrutou para integrar a banda que gravaria Quase Tudo (1997). Ao lado de nomes como Gonçalo Pereira na guitarra e Mário Valente no baixo, Vicky deu o balanço rítmico a um dos discos mais bem-sucedidos da história da pop-rock nacional, saltando do circuito de bares para o grande público.

Apesar do talento nato, Vicky Marques encarou o instrumento com uma disciplina quase obsessiva. A sua formação formal passou pelas aulas com Francisco Furtado na Escola de Música de Cascais (onde aprendeu os rudimentos da pop, bossa-nova e samba), Bruno Pedroso (que lhe abriu as portas do jazz), Manuel Costa Reis e Michael Lauren. Mais tarde, em 2007, rumou à Universidade de Bath, em Inglaterra, num workshop da WOMAD onde teve aulas privadas com o lendário Billy Cobham.

Esta procura incansável pela mestria valeu-lhe o patrocínio de marcas de topo (Evans, Pro-Mark, Sabian, Taye) e o reconhecimento internacional, culminando num perfil de destaque no blog da prestigiada revista norte-americana Modern Drummer (abre link externo).

O Leme Rítmico de Mariza e o Voo Global

A sua enorme versatilidade permitia-lhe saltar sem esforço do fusion e do jazz para a música do mundo e a canção de autor. Colaborou com uma lista impressionante de criadores: Maria João & Mário Laginha, Mafalda Veiga, Pedro Joia, Paulo de Carvalho, Filipe Raposo, Ivan Lins, Gilberto Gil e projectos de percussão colectiva como Tim Tim por Tim Tum ou O ó Que Som Tem?.

Contudo, foi ao lado de Mariza que a sua presença em palco ganhou escala planetária. Ao longo de cerca de 400 concertos pelo globo, a bateria de Vicky Marques assentou praça em algumas das salas mais míticas da música mundial: o Carnegie Hall e o Town Hall em Nova Iorque, o Sydney Opera House na Austrália, o Barbican Centre e o Royal Festival Hall em Londres, o Walt Disney Concert Hall em Los Angeles e o Palau de la Música em Barcelona.

Mais do que o currículo invejável, Vicky deixa uma marca indelével na comunidade de músicos portugueses pela sua postura. Humilde, generoso e sempre disponível para apoiar os bateristas mais jovens, encarava a música não como uma exibição de virtuosismo técnico, mas como um serviço à canção e ao colectivo. A sua bateria calou-se cedo demais, mas o balanço, a cor e o “cheiro” da sua dinâmica continuarão a ressoar nas centenas de gravações que deixou para a posteridade.

3 pensamentos sobre “Dinâmica & Generosidade: Vicky (1975–2026)”

  1. Good bye Vicky. I’ve only known of you for a short time, from Mariza’s Live from Lisboa concert. All of the musicians were incredible, but I was particularly taken by your exceptional talent at so apparently young an age. Thank you, Mariza, for bringing this wonderful musical gift to my attention. I’ve been so sad and distraught since learning only two weeks ago of his death at the so very young age of 51 years. I hope that he didn’t suffer, and that his family and friends, and all those who knew and worked with him know that he very deeply touched the life of someone who never met him, but has grown to appreciate his humanity and the esteem in which he is and always will be held. Vaya Con Dios.

    1. Thank you for such a lovely tribute. To be completely honest, he went through his fair share of suffering before the end, but he faced it all with great discretion and in an elegantly resolute manner. An inspiration to us all.

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