Guns N' Roses

Guns N’ Roses, O Preço Absurdo da Nostalgia

Os Guns N’ Roses actuaram na noite de 6 de Junho no Estádio Cidade de Coimbra — e o que ficou foi uma mistura agridoce entre nostalgia, alguma energia genuína e um aparato técnico que não esteve à altura dos acontecimentos. Crónica e bootlegs.

Fui ver os Guns N’ Roses. Contra as minhas próprias convicções e os preços que quase me fizeram rir alto no ecrã do telemóvel, fui. Talvez por teimosia, talvez por ainda acreditar que há concertos que se justificam mais pelo impacto emocional do que pela razão económica. Paguei com a lucidez possível o que outros decidiram torrar em “experiências VIP” com direito a tapete vermelho para ver o outrora infame rock ‘n’ roll de bengala.

A Everything Is New já nos habituou a este teatro do absurdo: bilhetes a preços ofensivos para eventos com logística de festival do ensino secundário. Não há como dourar a pílula: foi um falhanço. Com pacotes VIP a roçarem os mil euros (€995, sem direito a backstage ou palavras mágicas do Slash ao ouvido), filas intermináveis, acessos descoordenados e um sistema de som abaixo do mínimo aceitável, a experiência Guns N’ Roses foi, para muitos, um exercício de paciência.

No Reddit, no Facebook, nos grupos de fãs, multiplicam-se relatos de desconforto, indignação e uma sensação geral de “roubo legalizado”. Os acessos foram lentos, os postos de comida caóticos, o acesso e condições dos WC simplesmente medievais e as zonas de circulação mal geridas. A sensação era de que tudo estava montado para maximizar o lucro e minimizar o incómodo logístico da organização. Se compraste bilhete com base na promessa de “experiência premium”, o prémio foi o de sempre: saberes que pagaste demais.

E não é só a logística. É o modelo: um estádio mal preparado para concertos de rock, som projectado para multidões, mas tratado como se estivéssemos num ginásio com karaoke. Em 2025, não há desculpa para isto. Não há nostalgia que disfarce a falta de respeito pelo público. O mercado da memória está em alta — e os abutres sabem-no.

Vivemos um revivalismo perpétuo onde o produto final importa menos que a ideia de presença, de «eu estive lá». Os concertos tornaram-se selfies colectivas. E se o som estiver uma miséria? E se não vires o palco? E se gastares o equivalente a uma renda por duas horas de música desfigurada? Não faz mal — tens o bilhete, tens a t-shirt, tens a story.

Mas é precisamente por isso que importa falar: porque o rock que sobreviveu ao tempo não devia servir para este embuste emocional e comercial. O público merecem melhor. Os Guns N’ Roses também. Uns e outros ofereceram tudo o que tinham para dar reciprocamente.

A banda tocou como quem sabe que já não precisa de provar nada. Tocou como quem tem uma setlist de bem mais de duas horas, uma máquina oleada de sucessos e uma legião de fiéis que canta em uníssono a doce “Sweet Child O’ Mine”, se comove com o poder sinfónico de “November Rain” e grita “Welcome to the Jungle” mesmo quando a selva já é só um parque temático. Soa triunfal como abertura e permite a Axl arrancar com uma das malhas mais exigentes com os níveis de energia no máximo.

Não, ele não é o vocalista dos tempos de Appetite for Destruction, nem sequer de Use Your Illusion e a idade não perdoa quem já viveu no limite. Mas entre quedas, regressos e memes impiedosos ou a ridícula treta das duas horas de atraso que a M80, parceiro que a Everything Is New considerou ideal para o concerto de Guns N’ Roses, repetidamente nos brindou nas suas emissões, confesso que, como tantos ali presentes, esperava o pior.

Em várias canções, a voz aguentou-se com uma dignidade desarmante. Em temas mais graves ou em registos menos gritados, Axl mostrou controlo e até alguma garra. Não é um renascimento — é uma sobrevida competente. Está no ponto para esse magistral épico melódico dos Guns N’ Roses que é “Estranged” – a malha de Slash.

Durante muito tempo, esperou-se um novo álbum dos Guns N’ Roses, cada um dos músicos já o prometeu, mas já ninguém acredita muito. E, na verdade, será isso uma boa ideia? “Hard Skool” e “Absurd” fazem temer o pior. São inócuas e pífias, principalmente tocadas antes de “Double Talkin’ Jive” e “You Could Be Mine”, dois dos mais ferozes momentos da noite. A banda retirou-lhes, a essas duas canções, alguma velocidade e tudo soou perigoso, autêntico, demolidor e pesado. O recém-entrosado baterista, Isaac Carpenter, foi fenomenal. E Duff já não se resume à exuberância do seu som agressivo de baixo, tendo-se tornado um dos melhores pilares rítmicos no rock.

Estávamos no núcleo mais vigoroso do concerto dos Guns N’ Roses, com a rendição elegante do épico que encerra “AFD”. Com a moral nos píncaros, Richard Fortus foi o rei em “Rocket Queen”. Slash não deslustrou na talkbox, mas Fortus shreddou a malha rainha do sleazy. Mas isto torna-se ainda mais frustrante quando o som no estádio era uma massa amorfa de frequências emboladas. Com ecos, falhas de definição e um volume e equilíbrio de mistura que variava de sector para sector. E não fui só eu a dizê-lo — não fui sequer. Quem lá esteve, gritou nas redes sociais: «Soava a ensaio de garagem». «Não se percebia nada». E o clássico: «Pagámos uma fortuna por isto?»

O bloco de baladas a partir de “Sweet Child O’ Mine”, até “Don’t Cry” talvez tenha arrefecido demasiado o concerto, foi muito mid e downtempo seguido. Mais atrás houve também “Knockin’ On Heaven’s Door” e o vozeirão de Melissa Reese fez de «Roberta and Traci here to help you», mas «we knew the words». As últimas notas obrigam a destacar “Nightrain”, um hino que passou os anos 90 meio esquecido no início dos sets dos gunners. Foi triunfalmente recebido ali no final. E por falar em final, após quase três horas, sabia-se, teríamos que nos despedir desse recanto construído pelos Guns N’ Roses «where the grass is green and the girls are pretty».

No fim, saí com sentimentos mistos. Há mérito na resistência dos Guns N’ Roses. Há valor na persistência da sua música. Mas também há um enorme cansaço neste modelo de concertos-para-o-instagram. E há um silêncio desconfortável quando a organização trata o público como um dado adquirido.

Este concerto dos Guns N’ Roses deixou uma pergunta no ar: o que é que ainda esperamos destes gigantes envelhecidos? Que mantenham a chama? Que nos curem os fantasmas adolescentes? Ou apenas que passem por cá, encham estádios, e nos deixem com a ilusão de que o passado era mesmo melhor? Quem foi, foi. Quem não foi, não perdeu tudo. Pelo contrário: ganhou o direito de continuar a amar os Guns N’ Roses no vinil, nos vídeos de arquivo, nos dias em que a distorção vinha carregada de raiva verdadeira e não de merchandising premium.

Ainda assim, ouvi “Down On The Farm” ao vivo. E isso — no meio do caos, dos preços e dos decibéis mal calibrados — foi um pequeno milagre punk, tal como fora “New Rose”.

A setlist dos Guns N’ Roses em Coimbra: Welcome to the Jungle; Chinese Democracy; Bad Obsession; Out ta Get Me; Mr. Brownstone; Slither; Live and Let Die; Estranged; Absurd; Double Talkin’ Jive; Knockin’ on Heaven’s Door; Hard Skool; You Could Be Mine; Rocket Queen; Better; Coma; New Rose; It’s So Easy; Sweet Child o’ Mine; Civil War; November Rain; Wichita Lineman; Patience; Don’t Cry; Used to Love Her; Down on the Farm; Nightrain; Paradise City

Um pensamento sobre “Guns N’ Roses, O Preço Absurdo da Nostalgia

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