A excelência da 40 Anniversary Tour dos Helloween. O concerto retumbante de Lisboa celebrou o legado das abóboras num alinhamento fulgurante, redimensionado com três guitarras, dois vocalistas em sintonia perfeita e uma vibração anos 80 que, durante duas horas e meia, rejuvenesceu todos os que esgotaram o Campo Pequeno.
Campo Pequeno, 13 de Novembro de 2025. Este não foi apenas mais um concerto na longa história dos Helloween em Portugal, iniciada no saudoso Pavilhão do Grupo Dramático e Sportivo de Cascais, Cascais, Portugal, no dia 20 de Setembro de 1988; foi a celebração viva de um legado, uma demonstração de que a fórmula Pumpkins United não é apenas uma reunião nostálgica, mas sim uma entidade criativa e performativa no seu auge. Perante um recinto vibrante, a realeza do power metal europeu provou que, quatro décadas após a sua estreia, o fogo de Hamburgo continua a arder com intensidade.
Convém estabelecer alguns pontos prévios e assumir que esta reportagem será absolutamente tendenciosa, fanática. Primeiro, porque não nos move qualquer obrigação profissional: a Prime Artists não considera a ROMA INVERSA para acreditações de imprensa e comprámos o nosso bilhete (com muito gosto); depois, pelo nosso fascínio com os Helloween, banda cujos primeiros anos a tornaram uma das maiores referências no universo do heavy metal. Finalmente, foi uma tremenda e agradável surpresa ver como os portugueses responderam à chamada das “abóboras” e como essa adesão criou um caloroso ambiente para o público, banda e o próprio som, que não esteve a bater em paredes despidas como já vimos acontecer várias vezes naquele espaço.
Portanto, a expectativa era palpável, e o prelúdio, inusitado e auto-consciente – a intro Let Me Entertain You, de Robbie Williams – serviu para lembrar que os Helloween, por entre toda a intensidade épica do seu metal, nunca perderam a capacidade de rir de si próprios e de equilibrar a teatralidade com uma genuína alegria de tocar. Esta leveza contrasta com a seriedade do metal, mantendo a tradição auto-depreciativa dos Helloween. Foi sob aplausos ensurdecedores que a mítica abóbora se iluminou, dando o mote para a entrada triunfal da banda.
A Marcha do Tempo
A escolha para a abertura da noite foi imediata e agressiva: March Of Time, do lendário Keeper Of The Seven Keys Part II. Eestabeleceu de imediato a tónica: o som estava não só forte, mas incrivelmente limpo e equilibrado, notavelmente nas vozes de Michael Kiske e Andi Deris, que mais uma vez demonstraram porque esta formação alargada é, incontestavelmente, uma das mais carismáticas da história do género. Os duetos e alternâncias entre ambos – um equilíbrio quase alquímico entre a técnica cristalina e alta de Kiske e a entrega mais rasgada, terrena e emocionalmente poderosa de Deris – dominaram a noite.
Num concerto que se estende por quase três horas, é normal haver altos e baixos (de qualidade e de intensidade), mas os melhores momentos dos Helloween em Lisboa, ofuscaram por completo aqueles menos vibrantes. Também importa referir que Michael Kiske e Kai Hansen evocam uma era da banda com que Andi Deris não pode rivalizar, muito menos Dani Löble (bateria) e Sascha Gerstner (guitarra), mas esta nova vida dos titãs germânicos é capaz de potenciar até os “intrusos” do line up clássico e do próprio alinhamento.
O segundo tema da noite, The King For A 1000 Years, representou o primeiro mergulho profundo na era moderna, na era Pumpkins United. Com os seus notáveis quinze minutos de duração e uma estrutura de épico progressivo, este tema mostrou, como se dúvidas restassem, que os Helloween não vivem apenas de revisitar o passado. A sua execução irrepreensível, com Kai Hansen a dominar o palco e a demonstrar porque continua a ser um dos guitarristas mais influentes do metal europeu, foi uma declaração de intenções sobre a vitalidade criativa do grupo em 2025.
Dredd
Foi bastante evidente, os novos temas são potenciados pela intercalação com os clássicos. E se Giants & Monsters (29 de Agosto de 2025) é o álbum mais sólido da discografia desde Better Than Raw (1998), no meio de malhas de estatuto intocável na cena heavy, soa muito mais espetacular.
É comum, ao ouvir-se um tema como Future World, com a sua urgência e a sua promessa de um amanhã construído pela união, que a mente o ligue de imediato aos grandes clássicos da ficção distópica. Afinal, a canção, hino da banda desde 1987, partilha a ambiência da ficção científica com obras canónicas como 1984, de George Orwell, ou Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. No entanto, e apesar de o power metal beber frequentemente destas fontes literárias para tecer as suas narrativas épicas, a inspiração principal de Kai Hansen para a letra de Future World não reside diretamente nestes romances, mas sim na banda desenhada britânica Judge Dredd.
Dredd retrata um futuro distópico, mas o tom da fonte original é de acção e velocidade, um espírito que a música capta. Crucialmente, ao contrário da visão fatalista ou de opressão totalitária de Orwell e Huxley, a canção dos Helloween é, fundamentalmente, um hino de esperança e encorajamento. O seu apelo não é o alerta para um futuro onde a liberdade é perdida, mas sim um chamamento ao indivíduo para que se levante, se una e encontre activamente o seu próprio caminho para um futuro melhor: «If you’re out there all alone / And you don’t know where to go to / Come and take a trip with me to future world».
É este tom mais optimista e interventivo, berrado a plenos pulmões pelo público português que distingue a canção das narrativas de controlo pelo medo ou pelo conforto, cimentando o seu lugar como um dos momentos mais radiantes da noite no Campo Pequeno. Seguiram-se temas de várias eras: This Is Tokyo e Universe (Gravity For Hearts), estes do novíssimo Giants & Monsters, We Burn, Into The Sun, Hey Lord! e Hell Was Made In Heaven. No entanto, foi um tema em particular, que fez os fãs de longa data vibrar de satisfação.
O Mito Desfeito
Michael Kiske veio ao meio da plateia, ao extremo da passadeira que extendia o palco, falar sobre este estranhos tempos da Inteligência Artificial e da avidez com que é usada. Palavras que pesam quando nos recordamos que, pela primeira vez na história do Homo Sapiens nasceu uma geração com menos potencial cognitivo que a anterior. Kiske exortou que não queremos ler ou ouvir as palavras de um software, mas as ideias humanas. E assim começou a soar um dos maiores momentos da noite.
Muitas vezes esquecida ou evitada ao vivo, Twilight Of The Gods (mais uma joia preciosíssima de Keeper II) foi finalmente incluída no alinhamento de 2025, uma recompensa pela insistência dos fãs ao longo dos anos. Esta malha, com a sua carga melódica intensa e progressiva, há muito que era pedida. A sua execução no Campo Pequeno foi um momento de validação para os seguidores mais atentos, provando que, nesta fase da carreira, os Helloween estão dispostos a revisitar até os cantos mais esquecidos e exigentes da sua discografia.
Ver a banda a abraçar esta canção, que exige o melhor das três guitarras e das vozes de Kiske e Deris, foi uma confirmação de que esta formação não só toca os hits, como se desafia com as composições mais complexas. Se o Campo Pequeno assistiu a uma aula de power metal, foi sobretudo graças à orquestração e ao peso da produção. Os Helloween, nesta formação com três guitarristas, podiam correr o risco de soarem densos ou confusos. Pelo contrário, o trabalho do técnico de som foi crucial. A clareza permitiu distinguir a função de cada um dos shredders.
Michael Weikath, o pilar melódico e um dos principais compositores, manteve-se fiel ao seu estilo fluido e vibrante, entregando riffs e solos que são a própria alma da banda. A sua presença, muitas vezes mais discreta do que a de Hansen ou Gerstner, é a fundação sónica onde o épico se constrói. Kai Hansen foi fulgurante durante todo o concerto, com a sua destreza mais preservada que a do companheiro de longa data. Liderou não só o trio de guitarras, como cada uma das canções.
Sascha Gerstner, o “intruso” na formação clássica, provou ser o elemento catalisador que garante a modernidade e a espessura. Gerstner é o homem-ponte, capaz de preencher o espaço aéreo com riffs de apoio e solos que se encaixam perfeitamente na dinâmica dos duelos. Nas harmonizações, as triplet guitars voltaram a ser um momento de excelência técnica. A interacção entre os três, particularmente nos duelo estendidos de Halloween, foi um assalto sonoro que garantiu a exuberância eclétrica sem nunca perder a definição. O Campo Pequeno berrou o refrão e terá ganho aí a medalha de «o público mais ruidoso da digressão», com que os próprios Helloween o brindaram.
A Reincidência dos Clássicos e a Evolução
O impacto visual do espetáculo foi igualmente imponente. Os Helloween investiram numa produção que usa a tecnologia não apenas como fundo, mas como um narrador adicional. Os ecrãs gigantes não exibiam apenas imagens da banda; apresentavam animações ricas e vibrantes – deslumbrante em Twilight Of The Gods ou This Is Tokyo, por exemplo. Os deslumbrantes cenários no ecrã, as ocasionais intervenções do Keeper, a luz, intensa e coordenada com os solos de guitarra e as variações rítmicas de Daniel Löble na bateria, transformou o palco numa tela em constante mudança, criando uma atmosfera verdadeiramente épica e festiva.
Um dos momentos altos de 2025 foi a interpretação explosiva de Ride The Sky, liderada pelo inimitável Kai Hansen, relembrando os primórdios do grupo. A sua entrega visceral, cantando no seu falsete inconfundível, continua a ser uma injecção de adrenalina pura no meio do espectáculo, o momento de speed metal. Glorioso. Explosivo. Épico. A fundação rítmica, ancorada na consistência de Markus Grosskopf e na velocidade de Daniel Löble, garantiu que os voos melódicos e os duelos de guitarra fossem sempre sustentados por uma base rochosa e implacável. Foi assim que Kai Hansen regressou às muralhas de Jericó, mais perto do fim, para as arrasar com o antémico Heavy Metal (Is The Law).
Já o hino I Want Out, que veio depois do inevitável solo de bateria de Daniel Löble, fez explodir, de imediato, a energia à sala. O refrão transformou-se num hino colectivo de libertação, uma explosão de alegria, berrada até à rouquidão.
Epifania Melódica
Foi neste momento, após o pico de euforia de I Want Out, que o concerto nos ofereceu uma epifania inesperada e profunda. Nos anos 60, quatro miúdos revolucionaram a música de forma tão fulgurante que ainda hoje nos vai revelando o seu real impacto. Esta verdade apresentou-se quando Michael Kiske e Andi Deris se sentaram, com o primeiro a segurar uma guitarra semiacústica, e ambos a cantarem um excerto de In The Middle Of A Heartbeat, Pink Bubbles Go Ape e a introdução de A Tale That Wasn’t Right. As progressões de acordes, a polifonia vocal, as melodias… Tudo isto é oriundo de Liverpool.
O que Kiske e Deris fizeram neste segmento acústico foi despir o metal, revelando a alma pop-progressiva por baixo da armadura de distorção. Este momento destacou o génio melódico por trás dos riffs e solos frenéticos. O power metal, no seu estado mais evoluído (como em Keeper I e II), é, na verdade, uma forma altamente acelerada e distorcida da música melódica e progressiva. É a junção do peso originado pelos Black Sabbath e revigorado por Judas Priest (mais próximos do fogo original dos Helloween) com a melodia vocal dos Beatles.
Esta tese aplica-se não só às baladas, mas também à forma como Kiske consegue manter a pureza melódica mesmo nos agudos estratosféricos de Eagle Fly Free, e à forma como Deris estrutura temas como Power, que são hinos de estádio com refrães de alcance pop. E o que dizer do mais colorido single de Giants & Monsters, A Little Is a Little Too Much, senão que não há ninguém que, não sendo mouco, não adore os Beatles.
Nada Dura Para Sempre?
O encore desta noite foi o de um sonho molhado de qualquer seguidor do grupo: Invitation, a introdução clássica, deu lugar a Eagle Fly Free, um momento de entrega máxima do público. Seguiu-se a já referida Power, um banger da era Deris. Então ouviram-se os passos de Dr. Stein e o Campo Pequeno rebentou num enorme coro. Há novos arranjos, bem desenvolvidos para as três guitarras, principalmente, mas também para as duas vozes. A energia desta faixa permanece tão vigoroso como nos anos 80.
O fecho, com o excerto do coro de Keeper Of The Seven Keys, foi o encerramento simbólico e perfeito, culminando a noite com uma grandiosidade operática e uma promessa implícita: a história continua. Afinal, o que os Helloween provaram na passagem da 40 Years Anniversary Tour em Lisboa, em 2025, é que a chama não só não se apagou, como foi reacendida com mais vigor.
Numa altura em que tantas bandas sobrevivem apenas de revisitar o passado, os Helloween mostraram que celebrar o legado pode também significar continuar a escrevê-lo. A sua vitalidade em palco e a excelência desta formação Pumpkins United garantem que os Helloween continuam a ser um dos nomes mais relevantes do heavy metal.
SETLIST: March of Time; The King for a 1000 Years; Future World; This Is Tokyo; We Burn; Twilight of the Gods; Ride the Sky; Into the Sun; Hey Lord!; Universe (Gravity for Hearts); Hell Was Made in Heaven; I Want Out; In the Middle of a Heartbeat; A Tale That Wasn’t Right; A Little Is a Little Too Much; Heavy Metal (Is the Law); Halloween; Invitation; Eagle Fly Free; Power; Dr. Stein; Keeper of the Seven Keys (excerto).
Foto de abertura de Javier Bragado.
