Helloween

40 Anos dos Helloween: Não Tão Grandes Como os Iron Maiden, Bem Maiores que os Spinal Tap

Fundados em 1984, os Helloween tornaram-se a banda de heavy metal mais importante da sua geração, vivendo um período áureo que durou até ao fim da década e no qual, unindo as pontas do que os Iron Maiden, os Rainbow e os Judas Priest tinham construído, criaram um novo sub-género.

O heavy metal sempre extraiu muito do seu conteúdo ao universo literário fantástico. Até pela herança de muitas bandas do género se situar no prog rock dos anos 70, cujos temas líricos acompanhavam uma transcendência que a sonoridade impunha ao mundo racional do ouvinte. É nessa idade quase lendária do rock que surgiram os álbuns conceptuais e as óperas rock.

O power metal é um assunto muito mais entusiasmante para aqueles que, gostando do heavy metal, são ávidos leitores de romances high fantasy. Mas não deixa de ser um assunto sério, que diz respeito a uma era em que a música rock dominava as tabelas do mundo inteiro e na qual, as grandes editoras, procurando a ‘next big thing’ davam carta-branca às bandas e aos produtores para explorarem o seu som sem barreiras de criatividade impostas por objectivos comerciais. Resumindo, tudo era mais livre e mais excitante, fosse o thrash metal, fosse hard rock, fosse o hair metal, todos tiveram a sua época mais vibrante na década de 80.

Depois de vários anos com apenas os Scorpions como referência internacional, dentro das sonoridades mais heavy/hard rock, a Alemanha começou a apresentar vários trunfos, fosse pelo aproximar do fim da Guerra Fria, fosse pela melhoria das condições de vida de uma nova geração de músicos já não tão cicatrizada pela Grande Guerra, fosse por que razão fosse…

Vindas do final da década de 70, bandas como os Accept, Running Wild ou os Grave Digger abriram o “coração metálico” (pun intended) da Alemanha e logo no dealbar dos anos 80 surgiu a imponente vaga do teutonic thrash metal, capaz de ombrear com a cena de Bay Area e da East Coast. O thrash seria a maior força do metal nos anos 80, contudo o speed, umbilicalmente ligado à NWOBHM, escancarou as portas a um novo género: o power metal.

As Muralhas de Jericó

Kai Hansen tocava nos Gentry com Piet Sielck (esse mesmo que viria a tornar-se um dos mais destacados produtores de heavy metal na Alemanha), mas como sucede com tantas bandas de putos, os Gentry duraram pouco tempo. Então Hansen conheceu Markus Grosskopf, um baixista que vinha de uma escola punk rock, mas procurava outro som. Assim o baixista juntou-se ao guitarrista nos Second Hell, até que conheceram Michael Weikath, um guitarrista que amava The Beatles e a quem Van Halen havia batido com toda a força.

Weikath tinha a sua banda, os Powerfool, que se tornou nos Helloween quando os três músicos, mais o saudoso baterista Ingo Schwichtenberg, se juntaram. Estávamos em Hamburgo, em 1984, quando Hansen, Grosskopf, Weikath e Schichtenberg começaram a gravar demo tapes. A Noise Records, editora que foi pivotal na criação da força do thrash alemão, aceitou as demos dos músicos e deu-lhes um contrato.

No primeiro EP, o trabalho homónimo, e no primeiro álbum, “Walls Of Jericho”, a banda apresentava os traços comuns do efémero speed metal: muita velocidade e exigência técnica, tal como sucedia no thrash, embora com os vocais “limpos”, seguindo a potência NWOBHM dos Judas Priest e coros grandiosos como os Rainbow, para verbalizar ideias épicas. Com o dinamismo de “Mr. Smile”, a alcunha de Schwichtenberg, a propulsividade do quarteto tornou-se marcante. Este ciclo da banda foi um sucesso e para muitos puristas do speed metal esta era é a mais significativa dos Helloween.

Então, na digressão de “Walls Of Jericho”, o sucesso da banda cresceu de forma exponencial. Contudo, Kai Hansen enfrentou dificuldades na performance ao vivo, derivadas da exigência técnica instrumental das canções cruzadas com o seu trabalho vocal. Insatisfeito pela forma como ambos os papéis se condicionavam entre ambos e a si próprio, Hansen preferiu concentrar-se apenas na guitarra. Daí surgiu a busca por um novo vocalista. Estava na altura de a banda crescer ainda mais…

Profecia

Em 1986, os Ill Prophecy (Profecia Enferma), uma banda de liceu com influências como o NWOBHM ou o punk, gravaram a sua demo. “Riding The Wind”, “The Way Of Life”, “Heroes”, “You Always Walk Alone” e “A Little Time” eram os cinco temas de heavy metal que revelavam o extraordinário talento vocal de Michael Kiske.

Um miúdo de 17 anos, na altura, com uma voz tenor capaz de, num espectro de quatro oitavas, atingir notas baritonais (E2) e explosivos agudos (A5). Os Helloween notaram o seu talento e, aos 18 anos, Kiske entrou para a banda. Comparativamente à voz de Kai Hansen, Kiske possuía maior vibração e notas mais cristalinas. Kiske levaria consigo para a banda “A Little Time” e “You Always Walk Alone” e passou a ser uma cabeça extra na criatividade.

Com o novo vocalista, Hansen e Weikath concentrados na composição, os Helloween cavalgaram uma impressionante vaga que alastrava rapidamente por toda a Europa, chegando mesmo às casas portuguesas, através do mainstream alcançado pelo super single “The Final Countdown”, dos Europe, com elevada rodagem nos programas televisivos dos tops musicais. Cientes do impacto do heavy metal, os Helloween propuseram-se a criar um duplo LP – ideia recusada pelas editoras abordadas.

Um Vislumbre do Futuro

Assim, em vez de um único “Keeper Of The Seven Keys”, o álbum foi editado em dois LP, a parte I (1987) e a parte II (1988). Nos álbuns, agora com a vibrante voz de Kiske, aquelas características supramencionadas dos Helloween passaram a soar com as arestas mais limadas. As guitarras, além da velocidade, de EVH, passaram a demonstrar uma maior ligação à melódica tradição dos Iron Maiden. As energéticas baterias de “Mr. Smile” ganharam um sentido mais rocker. O som da banda como que ficou mais “aberto”.

Fantasia cruzada com political awareness, a sociedade contemporânea diante da iminente queda do muro, e especificamente os próprios alemães. Em “Eagle Fly Free”, Kiske dizia-nos que estava na altura de abandonar a Guerra Fria, de unificação. Em “I Want Out” as letras são ainda mais directas.

Canções indissociáveis da unificação do país da águia bicéfala do Sacro Império Romano-Germânico, em que Kiske cantava versos épicos e impactantes, que ainda hoje ressoam no pensamento. «People are in big confusion they don’t like their constitutions / Everyday they draw conclusions and they’re still prepared for war / Some can say what’s ineffective some make up themselves attractive build up things they call protective / Well your life seems quite bizarre» ou «Hey, we think so supersonic and we make our bombs atomic or the better quite neutronic but the poor don’t see a dime / Nowadays the air’s polluted, ancient people persecuted / That’s what mankind contributed / to create a better time».

O humor também surgia em grande, através da crítica social. Como em “Dr. Stein”, por exemplo, em que somos colocados diante daquilo que fazemos com a nossa vida e no tipo de monstros em que nos tornamos. «His assistant’s hips were nice so he cloned her once or twice / Now his hips are aching what a deal» ou como tentamos abusar daquilo que é para desfrutar e acabamos por arruinar o próprio prazer. De como criamos obsessões e deixamo-nos oprimir.

Numa sociedade equilibrada constrói-se a utopia de “Future World”, um mundo do qual recebemos um vislumbre, mas ainda não estamos preparados para habitar. Ironicamente, a banda desequilibrou-se imediatamente diante do sucesso que foram os dois “Keepers”. Mais que o seu marcante som ou estilo musical, qualquer uma das partes de “Keepers Of The Seven Keys” tornou-se uma daquelas raras obras de convergência dos artistas com a era e a sociedade que os circundam, sumarizando fenómenos e epifenómenos que permitem criar uma cápsula temporal imemorial.

Estava criado um dos mais importantes álbuns da história do heavy metal, mas Kai Hansen não conseguiu gerir o impacto de Kiske nos Helloween e surgiram divergências entre os vários membros, mesmo durante a digressão de promoção ao segundo LP, com Hansen a abandonar a meio da tour, dando lugar a Roland Grapow em 1989.

“Keeper of the Seven Keys” vendeu 20.000 cópias, apenas no Reino Unido, em importação. Os Halloween assinaram contrato com o management dos Iron Maiden. Esgotaram o Hammersmith Odeon depois de uma actuação no Monsters of Rock, em 1988, em Castle Donington, abrindo um cartaz com Guns N Roses, Megadeth, David Lee Roth, KISS e Iron Maiden.

“Keeper of the Seven Keys II” atingiu o top 30 de álbuns do Reino Unido e o single “Doctor Stein” alcançou a elevada posição #57, tendo a banda tentado, sem sucesso, que Ade Edmonson realizasse o vídeo. Até planearam fazer voar 7.777 balões por cima do Muro de Berlim para a Alemanha de Leste, todos com cassetes com extractos do LP, uma proeza que foi frustrada pelas autoridades…

Uma Sucessão de Desgraças

Os Helloween criaram e refinaram o power metal como género musical, mas nesse breve período ficaram órfãos de Hansen. Assinaram por uma major label, a EMI, mas abdicaram da agressividade sónica que os tinha feito surgir. O mais extraordinário em “Pink Bubbles Go Ape”, de 1991, é o facto de o álbum ser ainda pior do que o título, com canções como “Heavy Metal Hamsters” e “I’m Doing Fine Crazy Man” a fazerem jus à sua designação.

E a EMI, depois do insucesso de vendas do álbum “Pink Bubbles Go Ape” tomou a opção mais ridícula: fazer a banda abdicar ainda mais do heavy metal e da sua matriz e apontar a uma sonoridade ainda mais pop. O resultado foi o desastre ainda maior de “Chameleon”, o infame 5.º álbum dos Helloween, o qual provocaria ainda a saída de Michael Kiske da banda, acusado de ter um ego insuportável. Estes dois discos colocaram um ponto final na trajectória ascendente da banda. Depois veio o grunge e pronto….

Na ressaca desses problemas, também “Mr. Smile” abandonou a banda. Uma decisão que nunca conseguiu ultrapassar. Ingo Schwichtenberg perdeu o seu sorriso, afundou-se em episódios de consumo de estupefacientes, desenvolveu esquizofrenia severa e acabou por pôr fim à sua vida, atirando-se para a frente de um comboio em 1995.

Os Helloween tinham reformulado o seu line-up em 1994, com o ex-vocalista do Pink Cream 69, Andi Deris, e o baterista Uli Kusch, anteriormente dos Gamma Ray de Kai Hansen. Alegadamente, Deris fora abordado por Weikath para se juntar aos Helloween em 1991, mas recusou. Nos anos seguintes, no entanto, Kiske foi demitido dos Helloween e os problemas dentro dos Pink Cream 69 pioraram. Diante da inevitabilidade de sua demissão, Deris aceitou a oferta de Weikath durante uma noite nos copos com os membros da banda. Com essa nova formação e um novo contrato de gravação com a Castle Communications, os Helloween lançaram o seu álbum de regresso, “Master of the Rings”.

Todavia, Deris e Kusch gravaram esse disco como músicos de sessão, apenas se tornando membros oficiais do grupo já em Setembro de 1994. Estatuto com o qual gravaram o álbum de 1996, “The Time of the Oath”, que foi dedicado à memória de Scwichtenberg. Seguiu-se uma digressão mundial e o duplo LP “High Live” que a retratou.

Uma Pérola Esquecida

Em 1998, “Better Than Raw” marcou o retorno a um som mais pesado e agressivo para os Helloween, reminiscente de seus trabalhos anteriores, mas incorporando elementos do metal moderno. O álbum apresenta riffs de guitarra rápidos, solos intrincados, bateria dinâmica e melodias vocais cativantes, características do gênero power metal. Na verdade, é possivelmente o álbum mais pesado da banda.

Um dos aspectos marcantes de “Better Than Raw” é a qualidade de sua composição. O álbum está repleto de ganchos memoráveis e coros antémicos, mostrando a habilidade do Helloween em criar composições cativantes, mas complexas. Faixas como “Push”, “Hey Lord!” e “Midnight Sun” demonstram a capacidade da banda de mesclar sensibilidades melódicas com destreza técnica, resultando em uma experiência auditiva coesa e envolvente. E o que dizer daquela sua épica e brilhante introdução?

Liricamente, “Better Than Raw” explora diversos temas, desde introspecção e lutas pessoais até comentários sociais e elementos de fantasia, adicionando profundidade à música e ressoando com os ouvintes a um nível emocional. Os Helloween estavam de novo em excelente forma criativa, a todos os níveis. Do ponto de vista crítico e comercial, no entanto, ainda que “Better Than Raw” recebesse críticas positivas após o seu lançamento, o seu sucesso de vendas foi bastante moderado. Acabou por tornar-se algo ostracizado…

Pumpkins United

Nos últimos vinte e tantos anos, longe das pressões do sucesso comercial, os Helloween continuaram a lançar álbuns, alguns deles recebendo elogios decentes da crítica, à imagem de “Better Than Raw”. Olhando para trás, para os primeiros discos, no entanto, é talvez a estreia que agora soa menos datada. Tudo o que era bom nos Helloween estava logo no início, em canções como “How Many Tears”, e essa promessa inicial foi cumprida no álbum seguinte.

Com o seu som clássico retrospectivamente designado por power metal, a reunião da formação clássica começou a desenhar-se na segunda década do segundo milénio. Em 2017, os Helloween anunciaram uma digressão de reunião com os antigos membros Michael Kiske e Kai Hansen, juntamente com aquela que era a sua formação actual, incluindo o vocalista Andi Deris e o guitarrista Sascha Gerstner. Após o sucesso da digressão, os Helloween entraram em estúdio para gravar novo material, culminando no lançamento do álbum homónimo de 2021.

Este álbum representa o culminar da era clássica da banda e a sua evolução ao longo dos anos. Apresenta uma mistura da progressão estética da banda com o seu estilo mais clássico – não negando nenhuma era dos Helloween, mesmo as menos recomendáveis e abraçando o enorme legado dos alemães, ao mesmo tempo que demonstra a sua criatividade contínua e proeza musical.

Mistura os elementos melódicos e sinfónicos característicos do som dos Helloween com uma qualidade de produção moderna e a energia da formação reunida. Não chega perto do estatuto icónico que os trabalhos dos anos 80 ostentam, mas sendo honesto, é um epílogo triunfal às quatro décadas de existência das abóboras que, já em 2024, assinaram contrato com a Reigning Phoenix Music (RPM) para o lançamento do seu próximo álbum. Avançou a LOUD! que os Helloween vão entrar em estúdio ainda neste Verão para começar a trabalhar no sucessor do aclamado álbum de 2021 e lançá-lo em 2025.

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