Walls Of Jericho

Walls Of Jericho, Helloween

Walls Of Jericho, o genuinamente visionário álbum com o qual os Helloween arrombaram as muralhas da história da música pesada, é o grito de guerra imortalizado do speed metal e a sementeira do power metal.

Walls Of Jericho não soa como a fundação organizada de um género; soa como a porta arrombada de um estúdio onde adolescentes com fome existencial decidiram tocar mais depressa do que a Europa conseguia respirar. Em 1985, num continente ainda dividido pelo Muro e por uma Guerra Fria implícita no subconsciente colectivo, os Helloween surgem como milícia de garagem, canalizando adrenalina, velocidade e obstinação numa obra que não pretende ser perfeita — pretende ser urgente.

A Alemanha, conhecida pelo seu rigor industrial e pela frieza lógica, encontrou aqui uma fenda emocional eléctrica: um disco a meio caminho entre o thrash incipiente e a aurora do power metal, ainda sem a teatralidade operática que dominaria a década seguinte. Se Keeper Of The Seven Keys tornar-se-ia a religião oficial do género, Walls Of Jericho é o evangelho apócrifo, escrito com tinta corrosiva e notas apressadas por quem acabara de descobrir que podia correr contra a história, e não apenas atrás dela. É o som do génio em estado bruto.

Hamburgo Pós-Maiden, Pré-Revolução

O impacto de Walls Of Jericho é inseparável do seu contexto. A banda vivia os últimos anos pré-internet, pré-profissionalização do metal europeu e pré-educação formal de estúdio. O poder surge aqui na ingenuidade: Kai Hansen, então vocalista e guitarrista, não interpreta; tenta sobreviver às canções. O seu timbre agudo e ferido, muitas vezes criticado por falta de técnica, é precisamente aquilo que diferencia o disco — o calor do erro torna a obra autêntica, quase documental.

Na paisagem metaleira de 1985, o thrash americano (Metallica, Slayer, Megadeth, Exodus) avançava como tropa motorizada, enquanto o heavy britânico (Maiden, Priest, Saxon) mantinha o pilar clássico. A Alemanha responde com algo intermédio, mas igualmente inovador: velocidade sem niilismo e melodia sem pompa, inaugurando aquilo que mais tarde os fãs baptizariam de power metal europeu. Não havia, nessa altura, uma doutrina — havia um impulso, e Walls Of Jericho é esse impulso capturado em vinil.

Na paisagem metálica de 1985, o thrash americano avançava como tropa motorizada, enquanto o heavy britânico mantinha o pilar clássico. A Alemanha responde com algo intermédio, mas igualmente inovador: velocidade sem niilismo e melodia sem pompa, inaugurando aquilo que mais tarde os fãs batizariam de speed metal europeu. Não havia, nessa altura, uma doutrina — havia um impulso, e Walls Of Jericho é esse impulso capturado em vinil.

Rude, Cru, Sanguíneo

A primeira escuta de Walls Of Jericho pode parecer abrasiva, desafinada em pontos, com produção irregular e escolhas tímbricas discutíveis. Mas é precisamente no seu anti-polimento que reside o génio. Riffs como “Ride the Sky” e “Guardians” são cadáveres eléctricos ressuscitados pela arrogância juvenil: rápidos, insistentes, sem medo de errar ou exagerar. A secção rítmica pulsa com uma violência quase punk, enquanto os solos — imperfeitos, mas intensos — possuem o ADN que, anos depois, se tornaria iconografia do género.

A faixa-título, com as trompas sarcásticas que abrem a escuta do disco, funciona como selo de provocação: os Helloween não queriam parecer americanos, nem britânicos, nem suecos — queriam ser portadores de um génio plebeu, um tipo de metal em que a imperfeição é prova de autenticidade. O efeito, paradoxalmente, é futurista: a estética do rascunho tornou-se escola. A energia do disco não é teatral; é fisiológica. Ouvem-se cordas a ranger, pulmões a forçar, baquetas a esmagar pratos — não existe distância emocional entre banda e matéria. Walls Of Jericho não é um álbum para admirar; é um álbum para, tal como Kai Hansen, sobreviver.

A crítica muitas vezes reduz Hansen a vocalista provisório, argumentando que o “verdadeiro” destino dos Helloween começaria com Michael Kiske. Mas essa leitura, embora popular, falha um ponto essencial: sem Hansen na voz, Walls Of Jericho não teria alma histórica. O canto frágil, quase histérico, transmite aquilo que o género exigia na sua génese: urgência, inocência e risco. Não se canta sobre batalhas — batalha-se. Não se encena o impossível — tenta-se alcançá-lo. Hansen, nesse sentido, não é intérprete/ actor; é médium.

Artefactos

As canções de Walls Of Jericho não são meras faixas; são artefactos históricos que, em 1985, definiram a estética e a velocidade desse excepcionalmente curto período do speed metal e do que viria a ser o power metal europeu. No entanto, o seu destino não era o arquivo; era o palco, a urgência e o suor.

Se o álbum tivesse um manifesto, seria este. Ride the Sky é mais do que uma canção; é o ritual iniciático para a sonoridade dos Helloween. Com uma introdução de riff que é pura adrenalina, a faixa é o equivalente heavy metal de um arranque de moto sobre piso molhado — perigosa, rápida e espectacular. O ritmo de andamento constante e implacável, combinado com o trabalho melódico das guitarras de Weikath e Hansen, estabeleceu o modelo de speed metal melódico que seria replicado por inúmeras bandas. A voz estridente de Hansen aqui não é um defeito, mas o transmissor da urgência crua necessária para que a canção não soasse polida, mas sim vital.

Esta malha é a antítese do virtuosismo calculado. Reptile é suja e feroz, um exemplar de puro speed metal sem anestesia. É aqui que a influência do thrash alemão (como Kreator ou Destruction) se sente de forma mais palpável, mas com a subtileza melódica de Hamburgo a temperar a ferocidade. É uma peça onde a secção rítmica de Grosskopf e Schwichtenberg (então no seu auge) brilha pela violência e consistência, servindo de base para riffs cortantes e sem rodeios. A sua estrutura directa e agressiva garante que a energia de Walls Of Jericho se mantenha em ebulição, cimentando a identidade dos Helloween como uma força a ser reconhecida na cena mais brutal.

Um vislumbre claro do futuro épico que estava para vir. Guardians é o ponto de dramatismo rudimentar do álbum, funcionando como um proto-épico que aponta inequivocamente para a futura estética dos Keepers. Embora despojada da complexidade e da produção de Eagle Fly Free ou I’m Alive, a canção contém a promessa lírica e a ambição melódica que seriam cristalizadas mais tarde. O riff principal e as suas variações já exigem uma articulação instrumental sofisticada, elevando-a acima do speed puro e conferindo-lhe um peso temático. É um elo perdido, mas essencial, entre a fúria de Walls Of Jericho e a grandiosidade conceptual do díptico Keeper Of The Seven Keys.

Esta malha destaca-se pelo tom e estrutura. Phantoms of Death é o momento de melancolia proto-progressiva de Walls Of Jericho, servindo de sombra do que Michael Kiske viria a cristalizar com a sua voz e composição mais tarde. É uma canção mais atmosférica, com passagens que abrandam e aceleram, revelando uma maturidade estrutural invulgar para o contexto speed de 1985. É aqui que se percebe que os Helloween não são apenas uma banda rápida; são uma banda com sensibilidade para a composição, usando a velocidade como ferramenta, e não como fim. A sua inclusão prova que a semente do metal progressivo melódico já estava plantada.

Metal Invaders condensa a dualidade da banda na época: é sátira ou manifesto? Talvez ambos. Com uma letra que celebra o estatuto de outsider do metal, funciona como um grito de guerra, mas com a ironia implícita que se tornaria uma das marcas registadas dos Helloween. Musicalmente, é speed metal puro e descomprometido, feito para ser cantado em uníssono. A canção é um convite e uma declaração: estamos aqui, somos diferentes, e viemos para conquistar. É a tal atitude do génio plebeu, embalada num riff incrivelmente viciante e sem pretensões além da pura e simples diversão metálica.

A malha que melhor exemplifica a cultura nerd e sci-fi dos Helloween, que viria a ser ampliada nos Keepers. Gorgar é uma pastilhaça de speed metal frenético que mistura terror com fantasia de ficção científica (a letra é inspirada numa máquina de pinball). O tema é uma descarga de adrenalina rápida e melódica, que demonstra a capacidade da banda de pegar em temas não convencionais e transformá-los em metal puro.

O manifesto auto-declaratório de Walls Of Jericho, de uma banda, de um género e de uma tribo social. Se Metal Invaders era a sátira, Heavy Metal (Is the Law) é a declaração de amor e lealdade ao género; o hino sem rodeios do disco, com um refrão simples e concebido para ser gritado em grandes salas. Musicalmente, é uma ponte entre o heavy metal tradicional e a nova onda de velocidade. Serve como uma pausa momentânea na complexidade, focando-se no que a banda era: metal em estado bruto.

O encerramento de Walls Of Jericho e, inegavelmente, o seu momento mais ambicioso e visionário. Com os seus mais de sete minutos, How Many Tears é o épico de conclusão, mostrando pela primeira vez a capacidade dos Helloween de construir narrativas longas e dinâmicas, algo que se tornaria a sua marca registada. A canção arranca com uma atmosfera melancólica e pesada, antes de explodir em ritmos acelerados e um trabalho de guitarra complexo.

É mais uma prova de que, logo em 1985, a banda já olhava para lá dos limites do speed metal, explorando a dimensão proto-progressiva e épica que faria dos Keepers um fenómeno global. É a peça que, no meio de tanta crudeza, aponta para a maturidade que estava à porta.

Do Protótipo ao Dogma

A partir de 1987, com a entrada de Kiske e a transmutação lírica-musical da banda, o speed metal transforma-se de cão selvagem em cavalo-de-batalha coroado, torna-se power metal. E Walls of Jericho torna-se, então, espécie de fóssil vivo: não o ouro lapidado, mas o minério bruto que torna o ouro possível. A genealogia do género não começa nos Keepers — começa aqui, quando a ingenuidade era permitida, o ruído era identidade e a pressa era estética.

Walls Of Jericho não é o melhor disco dos Helloween — é o mais fundacional. Não é o mais brilhante — é o mais corajoso. Não é o mais polido — é o mais verdadeiro. Se o power metal é hoje sinónimo de teatralidade, virtuosismo e sentido épico, foi graças a um momento em que nada disso existia ainda — apenas fome, convicção e um estúdio demasiado pequeno para conter tanta electricidade. É o marco fundacional que transforma velocidade em identidade, caos em método, ruído em manifesto. Sem este Walls Of Jericho, o power metal europeu teria perdido a sua faísca primária, a sua coragem de risco, a sua alma de garagem.

Sem este disco, nada do que veio depois seria inevitável.

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