Libellus Ephemerus I

Libellus Ephemerus I, Vomitous Iniquity

Em “Libellus Ephemerus I”, edição Larvae Records, os Vomitous Iniquity combinam brutalidade, técnica e lirismo febril num dos discos mais intensos do underground luso em 2025.

É uma das propostas mais viscerais do underground luso em 2025. O brutal death metal dos Vomitous Iniquity é directo, grotesco e impiedoso, um caldeirão que mistura slam, blackened death metal e apresenta enorme vigor técnico. Isto é tudo aquilo que se depreende apenas do extraordinário single A Fine Day for an Inhumation, que nos apresentou o som e a atmosfera que a banda de Ovar colocaria no seu primeiro álbum. A estreia posterior de Opus Ad Cadavere e Nailess Casket só confirmou as impressões iniciais e aumentou as expectativas. Passou a haver quase uma certeza: vinha aí um dos discos do ano.

Libellus Ephemerus I, editado pela Larvae Records a 25 de Julho de 2025, veio consolidar essa sensação, elevando o conceito da banda a um novo patamar de brutalidade e perversidade artística. Os Vomitous Iniquity definem o seu trabalho como a visão da morte pela perspectiva de um agente funerário depravado, onde a misantropia reina e a perversidade orienta cada aspecto lírico, visual e musical.

Essa premissa não é apenas um detalhe decorativo: impregna cada riff, cada blast beat, cada inflexão vocal de Libellus Ephemerus I. O álbum é um exercício de coerência conceptual, e é impossível dissociar o conteúdo musical da ideia de um ritual fúnebre conduzido por uma mente corrompida. É uma abordagem rara no death metal extremo, que, apesar de abundar em temas de morte e violência, raramente assume este inusitado protagonista da narrativa. Os Vomitous Iniquity fazem-no com uma violência desconcertante.

A produção de Libellus Ephemerus I é um dos elementos cruciais que permitem que a brutalidade se manifeste de forma clara, articulada e orgânica. Limpa o suficiente para que cada blast (e esses abundam pornograficamente, no melhor sentido possível do termo), cada explosão de guturais e cada frase de guitarra mais tecnicamente desenvolta se destaque. A natureza quase crossover do riff da primeira parte de Opus Ad Cadavere e o decréscimo de bpms que nos leva para os solos de guitarra são, desde logo, um exemplo de como a composição e produção evitam que o disco se torne monocromático ou confuso. Pelo contrário, há contraste, densidade e camadas que recompensam a audição atenta.

Logo de seguida, Adipocytic Mutation é repleta de riffs esmagadores com momentos blackened, pequenos empréstimos atmosféricos que reforçam o conceito sombrio e macabro da banda. Os elementos tech death aparecem como vislumbres de sofisticação, dando profundidade às estruturas e evitando que a brutalidade se torne apenas um exercício físico neste disco capaz de agradar quer a fanáticos de Cannibal Corpse, quer a acólitos de Sanguissugabogg.

Temos insistido no factor da destreza de execução, mas é preciso salientar que Vomitous Iniquity distinguem-se por saberem usar a técnica sem cair em excessos. Há uma característica particular em Libellus Ephemerus I que merece destaque. Nos solos, Miguel Lima e Raul Silva apresentam fraseados, expressividade e mesmo um corpo sónico muito aproximado à estética mais tradicional do death metal, até na forma como usam harmonizações, como no vibrante exemplo da já referida A Fine Day for an Inhumation. E então surge o momento maior do disco: Post Mortem Bone Adjustment…

Trata-se de um malhão que arranca com uma barragem de fogo da bateria sobre um riff mais letárgico, quase como se algo do sacrossanto Left Hand Path colidisse com a hiper violência dos Cattle Decapitation. Tudo isto reforçado pelo modo como a banda gere os contrastes Libellus Ephemerus I: entre o brutal e o técnico, entre o visceral e o atmosférico, entre o desespero e o horror.

Ainda por cima, os Vomitous Iniquity controlam esse dinamismo sem quaisquer concessões de intensidade ou agressividade, mas pelo exemplar cruzamento de estéticas, como se depreende do slam e brutal death metal miscigenado com o black metal numa malha como Cadaverous Pleasures.

Assim emerge outra faceta importante do álbum: a coesão sónica. Cada malha de Libellus Ephemerus I funciona como uma página de uma autópsia (para usar a imagética da banda), construindo uma sensação de ritual progressivo e estruturado. Aliás, o “I” revela ser este o primeiro capítulo numa saga que promete continuar. Enquanto se sucedem os pesadelos finais, o febril Nailless Casket e o mais contemplativo Tides of Despair, percebemos que mal podemos esperar por Libellus Ephemerus II…

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