É um debate tão velho como o rock ‘n’ roll. Jake E. Lee explica por que razão o amplificador é mais importante que a guitarra no som e recorda como comprou um Marshall de 1964 por apenas 60 paus.
A busca pelo Elísio tonal é uma jornada que parece não ter fim. No entanto, se despirmos um rig de todos os pedais, plugins e ajustes intermináveis, qualquer configuração eléctrica continua a depender de dois pilares essenciais: a guitarra e o amplificador. Qual deles é mais importante? Este é o debate que ecoa há décadas entre músicos, e agora Jake E. Lee decidiu entrar na arena — e ele está firmemente do lado ‘Team Amp’.
Esta questão não é nova e divide opiniões em todos os níveis. Enquanto Yvette Young (dos Covet) já argumentou que um excelente amplificador pode elevar até o instrumento mais económico, Phil X (Bon Jovi) insiste que a guitarra é o alicerce fundamental do timbre. Há ainda casos como Michael Landau, um dos mais reputados session players da história da música pop/rock, dono de um extraordinário som de guitarra, para quem o mais determinante no som é a coluna (abre o link).
Pois bem, numa entrevista recente à Guitarist (abre link), Jake E. Lee não hesitou quando confrontado com o velho dilema, embora tenha admitido, entre risos, que preferia evitar a pergunta. «Oh, não! Essa pergunta outra vez não», brincou o guitarrista.
«Prefiro ter um bom amplificador. Um amplificador medíocre fará qualquer guitarra soar mal, mas um bom amplificador faz quase qualquer guitarra soar bem. Tenho algumas guitarras muito baratas que adoro, nas quais a acção das cordas é alta e o som é meio estranho. Mas não tenho nenhum amplificador que seja mau. O amplificador é mais importante», afirmou Jake E. Lee, categoricamente.
Esta perspectiva de Jake E. Lee foi moldada não apenas pelas décadas passadas nos palcos — incluindo a sua icónica passagem pela banda de Ozzy Osbourne — mas também por uma vida inteira de caça ao tesouro, onde os amplificadores costumam entregar as maiores surpresas. Lee recordou os tempos em que andava em digressão pela Inglaterra durante a era Bark at the Moon (abre link), contando a história de como tropeçou naquela que pode ser considerada a pechincha vintage definitiva: um combo Marshall esquecido, a ganhar pó numa pequena loja de província.
«Costumava ir a todas as lojinhas familiares para ver o que tinham. Um dia, estávamos no norte de Inglaterra e entrei numa loja onde um senhor na casa dos 60 anos estava atrás do balcão. Vi um Marshall antigo com o logótipo em plexiglass, coberto de pó. Perguntei-lhe: ‘Como está esse Marshall? De onde veio?’ Ele respondeu: ‘Não sei… Está aqui parado há uns 20 ou 25 anos.’ Nem queria acreditar: ‘O quê? Isso funciona?’» O aparelho era um JTM45 com o painel traseiro em creme e o logótipo quadrado em dourado.
«Ele pegou nele, limpou o pó e, apesar de estar ali parado há décadas, estava rigorosamente novo. Nem um risco. Ele disse que o amplificador estava lá possivelmente desde 1964 ou 1965. Perguntei se estava a brincar e ele disse: ‘Não. Porquê? Quer levá-lo?’ Eu respondi que arriscaria se fosse barato o suficiente. Acabei por comprá-lo por cerca de 60 libras». Mesmo que não funcionasse, por aquele valor, Jake E. Lee sabia que o risco era inexistente. Mas funcionava. «Levei-o para o soundcheck, liguei-o, mas não era exatamente o som que procurava para o Ozzy — era muito cremoso, doce, suave e comprimido, com aquele sag clássico. Foi o meu maior achado».
A Mágoa de Jake E. Lee
Se nos amplificadores Jake E. Lee teve sorte, nas guitarras a história é diferente. O músico admite que um dos seus maiores arrependimentos não foi uma má compra, mas sim uma que não fez. «Há cerca de 20 anos, estava numa loja de guitarras local. Não havia nada de novo, exceto uma Telecaster de ’67. E eu nem gosto de Telecasters, mas peguei nela de qualquer forma e o toque era muito bom. Liguei-a, soava lindamente e senti uma ligação imediata».
Apesar dessa conexão, o preconceito com o modelo acabou por falar mais alto. «Voltei a colocá-la no suporte e disse a mim mesmo: ‘Eu nem gosto de Teles, nem sei porque lhe peguei’. Dois dias depois, voltei lá porque não conseguia parar de pensar nela, mas já a tinham vendido. É um tipo diferente de remorso, certo? O remorso de quem não comprou. Ainda penso naquela Tele, de vez em quando. Havia ali algo especial. Gostava mesmo de a ter trazido comigo».
