“The Classic” redimensionou a carreira de Joan As Police Woman. Aqui, Joan Wasser, num esforço de maturidade e gratidão, tornou a sua música muito mais dinâmica e experimental, mantendo a visceralidade emocional dos trabalhos anteriores.
Numa carreira em crescendo, “The Classic” de Joan As Police Woman foi um álbum que confirmou definitivamente Joan Wasser como compositora e a deveria ter deixado às portas do mundo das major label. Com todo o respeito pela PIAS e pela Reveal Records, o facto de, já em Setembro de 2024, a edição do décimo álbum (“Lemons, Limes and Orchids”) ainda não ter honras de mainstream é um excelente retrato da anedota em que se tornou a indústria musical no que diz respeito às grandes editoras.
Originalmente editado no dia 14 de Março de 2014, “The Classic” é divertido, inventivo e cheio de balanço. Um discão! Sopros, cordas, acapella e beatbox (na faixa título), uma bateria “gigantesca” (“What Would You Do” e, especialmente, “New Year’s Day”) e um baixo que passa pelas 10 músicas do álbum como um cavalo de guerra em batalha: com propósito, elegância, virtuosismo e força. Mesmo Joan Wasser surgia nele mais confiante a cantar, mais “solta”, com potência e elasticidade atordoantes nas suas cordas vocais. “Good Together” mostra-nos a multi-instrumentista a colocar a melancolia para trás das costas, ao clamar «I don’t wanna be nostalgic».
Mais upbeat e mais soul, pegando nos indícios que haviam sido revelados no anterior “The Deep Field”, Joan entrou numa nova fase musical em plena posse das suas capacidades enquanto compositora, depois de três discos originais e mais um de covers e de inúmeras colaborações. “The Classic” foi um disco em que convergiram todas as experiências de Joan Wasser, quer as suas parcerias (e vale a pena destacar parcerias com gente como Lou Reed, John Cale, Sheryl Crow, Dave Gahan, Elton John ou Rufus Wainwright), quer os seus próprios discos.
Todo esse percurso é redimensionado no experimentalismo deste álbum de Joan As Police Woman. Um trabalho de devoção, de descoberta pessoal e de surpresas. Numa conversa (na altura ao serviço da AS) em que confessámos a partilha da obsessão por instrumentos, a multi-instrumentista deu-nos conta de quão satisfeita estava por se encontrar numa nova fase da sua vida. Joan Wasser, a Joan As A Police Woman parecia satisfeita por ter estabilizado emocionalmente e iniciar uma nova fase na sua vida, como nos confessou, há dez anos atrás.
A música salvou-me espiritualmente a vida imensas vezes e procuro dar de volta tanto quanto consiga.
Joan Wasser
Sem desprimor para os teus trabalhos anteriores de Joan As Police Woman, tens a sensação de ter conseguido algo realmente especial desta vez?
Sempre que lanço um disco fico bastante satisfeita. Mas sinto-me particularmente satisfeita com este. Tens razão, sinto que encontrei algo neste álbum. Algo que procurava, mas ainda não tinha encontrado. Só agora estou num lugar onde poderia ter descoberto isso, faz sentido?
“The Deep Feel” já nos mostrava a tua música a procurar uma vibração mais positiva, mais upbeat, que agora está ainda mais presente…
É uma continuação de onde estava a tentar chegar com “The Deep Feel”. O meu primeiro álbum é mais melancólico e o segundo é definitivamente muito melancólico. De certa forma, limpei tudo isso do meu sistema. Ao mesmo tempo, fui obtendo reconhecimento pelos meus discos e a minha forma de escrever – nunca pensei que alguém fosse ouvir os meus discos, à parte dos meus amigos e família. Nunca imaginei que alguém os ouvisse sequer, muito menos reagir-lhes. Obter uma resposta positiva pelo meu trabalho faz-me sentir menos sozinha, sabes? A música que faço afecta as pessoas de uma forma positiva e isso é algo bastante importante para mim. A música faz parte da minha vida. A música salvou-me, espiritualmente, a vida imensas vezes e procuro dar de volta tanto quanto consiga. A música é uma parte importantíssima das nossas vidas. A noção de que tenho uma contribuição, de que consigo retribuir, dá-me bastante autoestima. Isso reflecte-se numa vibe mais positiva e esperançosa em mim própria. Também fui chegando à conclusão de que sentirmo-nos bem não é um crime [risos].
Uma afirmação curiosa.
Muitas pessoas pensam que se és um artista tens que te sentir na pior das tristezas e ser excessivamente dramático. Que para fazeres arte tens que estar na sarjeta… Algo assim. Isso, claramente, não é verdade. Creio que descobrir um sentimento de alegria no dia-a-dia é algo por que vale a pena lutar.
Transpondo isso para a composição. Será mais fácil escrever uma música melancólica que uma divertida ou optimista?
Sem dúvida! Se extrapolarmos isso para a comédia, a maioria baseia-se em ser cruel com outras pessoas. É muito mais difícil ser engraçado sem ser cruel ou fazer pouco de alguém. Mas é um desafio muito maior! O Stevie Wonder faz isso muito bem. É capaz de ser descontraído, mas não de uma forma ligeira, dentro das canções há também este sentimento de vida na sua totalidade. Em todas há tristeza, sentimento de perda, pessoas que partem e problemas. Mas ele opta por escrever uma canção que destaca a própria natureza da vida. Isso é muito mais difícil e gosto bastante de tentar escrever uma canção que faça sentir bem, sem soar falsa ou “pirosa”, que soe realmente genuína.
Isso levou a que “The Classic” acabasse por ser tão experimental, considerando os arranjos e recursos usados?Decidi que, ao abordar as canções, se algo soasse bem o deixaria ficar. Geralmente, quando terminávamos de tocar uma canção, quando terminávamos as partes vocais, continuávamos a tocar o groove, porque nos sentíamos bem ao fazê-lo. No passado teria cortado esse exercício. Neste álbum experimentei mais e deixei ficar muita coisa. E depois pensei: «Se fosse o ouvinte quereria ouvir isto, porque alguém não quereria?» Seria como se não estivesse a dar crédito aos ouvintes. Deixei ficar muitas coisas nas canções na esperança de que as pessoas queiram ouvir realmente a sua totalidade. Resumindo, sinto verdadeiramente que este é o meu álbum mais experimental.
Esta nova abordagem implicou que deixasses mais espaços abertos na pré-produção?
Na verdade, não. No que toca aos arranjos, termino sempre as canções antes de as levar para a banda. Considero que uma canção não tem grande valor se, por si só, não puder ser tocada. Mas a partir desse momento há espaço para algumas coisas. Não é como se tivesse já resolvidas algumas partes das cordas quando vou para estúdio. Muito desse trabalho é desenvolvido ao gravar. Definitivamente há muita coisa criativa a acontecer em estúdio.
Gravámos o álbum por todo o lado, alugávamos estúdios diferentes, consoante o que queríamos para a canção que nos íamos predispondo a gravar.
Joan Wasser
Por falar em estúdio. O som da bateria de um tema como “New Years Day” é enorme! E quando digo enorme, quero dizer enorme tipo Led Zeppelin. Onde gravaste?
Wow, altamente! Tantos elogios… É bastante interessante que menciones isso e menciones essa canção. Gravámos o álbum por todo o lado, alugávamos estúdios diferentes, consoante o que queríamos para a canção que nos íamos predispondo a gravar. Gravámos também muitas coisas no nosso estúdio de ensaios, as bases das canções e depois procurávamos outros estúdios. Tentámos a “New Years Day” num estúdio enorme que adoramos, pois queríamos essa sensação de espaço que mencionas, mas por algum motivo a canção não saiu bem nesse dia. Acabámos por experimentar gravá-la noutro estúdio onde iríamos gravar outras canções, mas sem grandes expectativas – é um estúdio do tamanho de um polegar. Fica toda a gente super apertada [risos]. É o estúdio de um amigo e é muito bom, mas é realmente pequeno. Mas acabou por ser aí que ficou gravada a “New Years Day”. É um espaço muito pequeno, mas por algum motivo o som ficou no ponto. É interessante que, sendo tu músico, essa canção tenha-te chamado a atenção, porque é realmente peculiar sonoramente.
Considerando todos esses diferentes locais onde gravaste, quão complicado foi o processo de mistura e masterização para que tudo soasse como “o mesmo álbum”?
O disco acabou por ser misturado muito rapidamente. Já havíamos feito uma mistura com outro engenheiro, mas não nos parecia totalmente certa. O Tyler [Wood] havia feito algumas pré-misturas bastante cruas e nada se aproximava disso. Como estávamos apertados de tempo, acabámos por retocar essas ao longo de 4 dias no seu estúdio, em Bed-Stuy, e daí seguiu para masterização. Ainda que tenhamos gravado em vários estúdios, todos com salas de acústica diferente, microfones, alguns em digital outros em fita, o tratamento dos instrumentos e a forma como o Tyler abordou a captação permaneceu sempre muito similar. Uma vez que tudo foi gravado com muito propósito e com atenção aos sons que iam “ficar”, o trabalho de manter o som do álbum coeso esteve mais no campo das escolhas estéticas. Estava já adquirido um paladar sonoro consistente, graças à instrumentação, arranjos e sons. Portanto, o objectivo básico na mistura (além de obedecer ao prazo bastante apertado!) era honrar as canções individualmente, principalmente a voz, e mantê-las tão dinâmicas quanto possível. O Fred Kevorkian fez um excelente trabalho a colar tudo isto na masterização.
Que microfone usaste, essencialmente, para gravar a tua voz?
Na maior parte do tempo usei um Bock 251, usei em algumas partes um Aea de fita.
Já referiste o Tyler Wood. Com que outros músicos trabalhaste no álbum, com a tua equipa habitual ou com algum “sangue novo”?
Neste álbum trabalhei com muitas pessoas com as quais trabalhei no passado e um novo convidado especial. A secção rítmica é a que tem estado há algum tempo em digressão comigo. O Parker Kindred [bateria] tem estado na banda desde o meu segundo disco, “To Survive”, e o Tyler juntou-se pouco depois. Também fizemos o disco anterior, “The Deep Field”, juntos. Os sopros têm sido os mesmos desde o primeiro álbum, “Real Life”: Steven Bernstein [trompete], Briggan Krauss [saxofone] e Doug Wiesleman [saxofone], com os arranjos a cargo do Steven e do Doug. Estes tipos são de elite. Os coros femininos também são os mesmo do álbum anterior, a Toshi Reagon, a Stephanie Mckay e a Michele Zayla, todas elas cantoras extraordinárias. Também tive o Joseph Arthur a cantar e/ou tocar em todos os meus discos. Ele é muito bom a fazer acontecer o “momento”. Nunca fiz música com outra pessoa capaz de ser tão livre. É extremamente inspirador. O Nathan Larson também cantou no disco anterior. Ele acumula vozes como ninguém. Podia ouvi-los solar eternamente.
E o convidado especial?
É o Reggie Watts. Tem uns riffs no final de “Holy City” e faz beatbox em “The Classic”. Este cavalheiro é a 8.ª maravilha do mundo. Nem quero tentar explicar. Vejam apenas algum do seu material no YouTube, quer as suas palavras, quer a sua música, e a vossa vida mudará para sempre. Agradeço tremendamente a todos pela contribuição. Este álbum não aconteceria sem todos eles.
