Justin Broadrick participou em duas malhas de Lost Weekend, álbum de Phoebe Bridgers, e voltou a colaborar com o universo da cantora em “On Video”. Entretanto, os Godflesh editaram Decay, o penúltimo capítulo de uma carreira que deixará de passar pelos palcos.
Há encontros musicais que parecem improváveis até percebermos que a distância entre dois universos artísticos é menor do que julgávamos. Justin K. Broadrick, figura central do metal industrial, do post metal e responsável por alguns dos sons mais abrasivos da música pesada britânica, é um desses casos. O músico, conhecido sobretudo pelo trabalho nos Godflesh, colaborou com Phoebe Bridgers em Lost Weekend, o terceiro álbum a solo da cantora norte-americana, editado a 14 de Agosto de 2026.
E não se trata de uma participação meramente circunstancial: Broadrick contribui para duas malhas sob o nome Jesu, o projecto através do qual explora uma abordagem mais atmosférica, melódica e contemplativa (abre a review ROMA INVERSA ao álbum Conqueror). O guitarrista participa em “Bobby”, a quinta malha do alinhamento, e em “Best Dressed”, um tema escondido cuja localização varia consoante o formato físico.
Os créditos de Lost Weekend confirmam a presença de Broadrick em “Bobby”, ao lado de músicos como Jack Antonoff, Ethan Gruska e Mike Kinsella. A sua guitarra não domina necessariamente a mistura, mas quem conhece o trabalho de Jesu poderá reconhecer a assinatura sonora do músico na forma como as texturas se prolongam e a distorção adquire uma dimensão quase atmosférica.
A colaboração torna-se mais compreensível quando se percebe que Bridgers conhece e aprecia Jesu. Numa entrevista recente à Guitar World, Broadrick explicou que a cantora conhece o seu repertório neste projecto e que valoriza precisamente a combinação entre melancolia e peso que caracteriza a sua música. A aproximação não nasce, portanto, de uma curiosidade pelo lado mais extremo da sua carreira, mas de uma afinidade artística com uma das suas expressões mais introspectivas.
A ligação estendeu-se entretanto a “On Video”, tema de Phoebe Bridgers associado ao filme Primetime, da A24, no qual a cantora também participa. Broadrick contribuiu para a gravação tocando guitarra e baixo. A colaboração reforça a ideia de que a relação entre os dois músicos não se esgota numa participação pontual num álbum, antes abre espaço a novas experiências dentro de um território sonoro que cruza a sensibilidade indie de Bridgers com as texturas densas de Jesu.
Existe, aliás, um antecedente nesta aproximação. Em 2021, Broadrick remisturou “Favor”, de Julien Baker, companheira de Bridgers nos boygenius. O músico não se limitou a trabalhar a gravação original: também acrescentou guitarras à versão, que inclui vozes de Bridgers e Lucy Dacus. A colaboração mostra que o diálogo entre este universo de cantautoras e a abordagem sonora de Jesu já vinha a desenvolver-se antes de Lost Weekend.
Para quem associa Justin Broadrick exclusivamente aos Godflesh, estas participações poderão parecer uma mudança radical de contexto. Formados em Birmingham em 1988 por Broadrick e pelo baixista G. C. Green, os Godflesh ajudaram a redefinir os limites da música pesada através da combinação de guitarras extremamente graves, ritmos mecanizados e uma atmosfera industrial opressiva. Jesu, por contraste, privilegia frequentemente a melodia, a lentidão e a construção de paisagens sonoras expansivas, sem abandonar inteiramente o peso que atravessa a obra do músico.
Essa diferença é essencial para compreender a colaboração com Bridgers. Não é necessário procurar uma improvável conversão ao indie pop: o território de Jesu já contém os elementos que tornam a aproximação possível. A distorção, a repetição e a densidade sonora deixam de funcionar apenas como instrumentos de confronto e passam a integrar uma linguagem de melancolia e contemplação.
Entretanto, os Godflesh chegaram a outro momento decisivo da sua história. Decay (abre review LOUD!), editado a 25 de Setembro pela Relapse Records, é o penúltimo álbum de estúdio do projecto, antes de The End. Broadrick anunciou que a banda deixará de actuar ao vivo devido aos problemas físicos agravados pelas exigências das actuações, incluindo uma hérnia que obrigou a cirurgia. As gravações de Decay ficaram concluídas antes da intervenção, embora a mistura tenha sido realizada durante a recuperação do músico.
