«Days went by when you and I bathed in eternal summers glow». Uma releitura de Homero e de “Achilles Last Stand”, dos Led Zeppelin…
Não é por acaso que “Achilles Last Stand” dos Led Zeppelin encontra eco na Ilíada atribuída a Homero. Em ambos há a mesma consciência da brevidade, da chama que arde mais intensamente precisamente porque sabe que se extinguirá. Aquiles não é apenas o guerreiro invencível; é o homem que escolhe a vida breve e fulgurante em vez da longa e apagada. E essa escolha — que parece heroica à distância — é, no fundo, uma forma de aceitação da própria tragédia.
Em “Achilles Last Stand” há um movimento que não é apenas musical: é a sensação de marcha inevitável, de avanço que já contém em si a despedida. A guitarra repete, insiste, como se soubesse que o caminho é longo, mas não conduz ao regresso. Essa mesma fatalidade percorre a epopeia — a consciência de que certos passos, uma vez dados, não podem ser desfeitos.
Nunca tinha entendido a Ilíada para lá do seu estoicismo e assim os personagens sempre me haviam parecido unidimensionais – mas agora percebo como a nossa dor é a daqueles que lutam em Tróia, dominados pelas forças trágicas do destino e a impulsividade de amar. Talvez o que mais desconcerta na leitura adulta da epopeia seja perceber que a guerra é quase sempre pano de fundo. O que move os homens não é a estratégia nem a política, mas o orgulho ferido, a amizade, o ciúme, a necessidade de reconhecimento. A batalha é apenas o lugar onde essas paixões se tornam irreversíveis.
Talvez seja por isso que a “Achilles Last Stand” dos Led Zeppelin não soa triunfal, apesar da grandiosidade. Há nela uma melancolia de fundo, como se cada avanço fosse também uma perda. Aquiles não marcha para a vitória; marcha para o cumprimento do seu próprio destino.
Mesmo com o poder de Aquiles, o humano sucumbe diante da descoberta de um olhar que o desarma e, refém da irascibilidade, piora o que pretende corrigir. afinal o seu amor é grande, mesmo por alguém que no início via como subserviente ou que se lhe entregava despojada: «São os Atreus, entre os mortais, os únicos que amam suas mulheres? Acho que não. Qualquer sujeito sadio e decente ama a sua e cuida dela, como em meu coração amei Briseis, embora a tenha conquistado pela lança».
Em Aquiles, o amor nunca aparece como ternura estável, mas como força que rompe o equilíbrio. Ele ama como combate: com excesso, com possessão, com a mesma incapacidade de medir consequências. É essa intensidade que o torna grandioso e, ao mesmo tempo, terrivelmente humano. Não é a invulnerabilidade que o define, mas a incapacidade de suportar a perda.
Essa dimensão torna-se ainda mais evidente quando pensamos que a glória de Aquiles é inseparável da sua brevidade. Não há futuro possível para ele que não seja memória. E é precisamente essa consciência — a de viver já sob a sombra do fim — que dá à sua fúria um carácter quase desesperado, como se cada gesto tivesse de conter o peso de toda uma vida.
O nobre Heitor é o retrato da vitimizada bondade, não é o eros que o prejudica sendo ele fiel e honrado com a sua esposa, mas é tragicamente absorvido pelas falhas do seu irmão e pela fúria de Aquiles, também movida pela perda de Patróclo, quem tanto amava. Heitor é talvez a figura mais trágica porque é o único que compreende plenamente o que está em jogo. Ele sabe que Tróia cairá; sabe que a sua morte nada salvará; sabe, ainda assim, que não pode recuar. A sua coragem não nasce da esperança, mas da lucidez — e é isso que a torna mais dolorosa do que qualquer heroísmo impetuoso.
Se Aquiles é o fulgor que consome (e os Led Zeppelin traduzem isso na intensidade constante de “Achilles Last Stand”), Heitor é a chama que resiste enquanto pode, mesmo sabendo que o vento já mudou. A tragédia dos dois não é oposta, mas complementar: um luta porque não sabe parar, o outro luta porque não pode recuar. A quantas insuficiências nos expõe Homero diante dos pilares das forças em colisão…
Temos a fúria sem poder de Aquiles que acaba por derrubar os princípios virtuosos e o desejo de bem de Heitor, cuja agape determina o seu destino. Quão pequenos somos diante de ambos e quão maior tornam a nossa humilhação. A tragédia grega não humilha o homem por desprezo, mas por clareza. Mostra-lhe a sua medida. O herói não é superior porque vence; é superior porque suporta ver o que é inevitável. Nesse sentido, a epopeia não celebra a força, mas a consciência da fragilidade.
Essa é a contingência que torna o humano reflexo da causa central da obra. A fraqueza de Páris, uma sombra do irmão, que desperdiça o tempo e a juventude atrás da ilusão da beleza física apenas para diante do amor de Helena descobrir-se incapaz de proceder correctamente, sem conseguir olhar à ruína e ao mundo que arde em seu redor – quantos sofrerão e morrerão, quanto mal surgirá – tal é o amor que destrói a racionalidade e torna dele escrava a consciência e chama a si a desonra e o despojo da coragem.
A sua fraqueza é mais inquietante do que a violência dos outros. Não é movido pela fúria nem pelo dever, mas pela sedução da beleza — e a beleza, ao contrário da honra, não impõe limites. Ao escolher Helena, escolhe também o mundo em chamas, ainda que não tenha coragem de o reconhecer. É nesse contraste que a história de Tróia se torna mais cruel. Nem todos os homens são feitos da mesma matéria, e, no entanto, todos são arrastados pela mesma corrente. A guerra não distingue a grandeza da fraqueza; apenas as expõe.
Há um instante, já perto do fim de “Achilles Last Stand”, em que a repetição rítmica parece prolongar-se para além da própria música, como se recusasse terminar. Não é exaltação; é obstinação. A sensação de que continuar a avançar é a única forma de permanecer vivo, ainda que cada passo aproxime do termo inevitável.




Por isso, permanece altivo o poema de Homero e é amiúde transposto para a arte, como em “Achilles Last Stand”. Não porque nos fale de deuses ou de guerreiros, mas porque nos fala daquilo que permanece invariável: a incapacidade humana de amar sem ferir, de desejar sem perder, de escolher sem destruir alguma coisa no processo. O que arde em Tróia não é apenas uma cidade; é a ilusão de que a vida possa ser vivida sem custo.
A maldição e a dor de Tróia é, ainda assim, a beleza avassaladora da própria vida, de que a imortalidade não reside nos feitos e virtudes do indivíduo, mas na força com que ama. E talvez seja isso que permanece da Ilíada e de “Achilles Last Stand”, depois de tudo arder — não a glória, não a vitória, mas apenas a memória de um verão que pareceu eterno enquanto durou. «Oh to ride the wind, to tread the air above the din / oh to laugh aloud, dancing as we fought the crowd».

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