Ano após ano, Little Earthquakes continua a revelar novas fissuras: revisitamos o clássico de Tori Amos e a graphic novel (com a participação de autores como Neil Gaiman ou Margaret Atwood) que transformou as suas canções em 24 histórias.
Há qualquer coisa de quase indecente em ouvir Little Earthquakes trinta anos depois de ter sido editado pela primeira vez. Não porque o disco tenha envelhecido mal — aconteceu precisamente o contrário — mas porque Tori Amos continua a cantar aquelas canções com uma intimidade que não parece pertencer ao passado. O piano continua a ranger, a voz continua a deslocar-se entre a fragilidade e a violência, e aquilo que em 1992 podia parecer apenas confessional hoje revela uma arquitectura muito mais complexa: sexo, religião, família, desejo, culpa, violência, independência, medo e a tentativa de recuperar uma voz depois de anos a ser toldada por outras vozes.
Little Earthquakes não é apenas o disco que apresentou Tori Amos ao mundo. É o disco em que ela descobriu uma forma de transformar o piano clássico, a canção pop e a confissão numa coisa que não cabia confortavelmente em nenhum desses lugares. O álbum surgiu numa altura em que o rock alternativo estava a ser redefinido pelo grunge e em que a figura da singer-songwriter feminina continuava frequentemente presa entre o papel de confidente e o de objecto de projecção.
Amos apareceu com outra coisa: uma mulher sentada ao piano, tecnicamente exuberante, sexualmente explícita, espiritualmente inquieta e absolutamente indisponível para simplificar aquilo que queria dizer. Uma crítica contemporânea chegou a descrevê-la, não sem razão, como alguém que fazia das suas experiências pessoais verdadeiros golpes físicos sobre o ouvinte.
O álbum foi lançado primeiro no Reino Unido, em Fevereiro de 1992, onde chegou ao 14.º lugar nas tabelas de vendas, e posteriormente nos Estados Unidos, onde atingiu o 54.º lugar. “Crucify”, “Silent All These Years”, “China” e “Winter” ajudaram a estabelecer Tori Amos, mas Little Earthquakes rapidamente ultrapassou a condição de álbum de estreia. Tornou-se um daqueles discos cuja importância se mede menos pelo impacto imediato do que pela quantidade de artistas que passaram a poder existir depois dele. O mais impressionante é que a música continua a ser a parte mais difícil de explicar.
“Crucify” estabelece logo o conflito: a religião como linguagem de culpa, desejo e auto-punição, o piano a acompanhar uma mulher que parece estar simultaneamente a confessar-se e a desafiar o confessor. “Silent All These Years” transforma a descoberta da própria voz numa canção pop de uma elegância enganadora. “Precious Things” é outra coisa: o piano transforma-se quase numa guitarra eléctrica, a interpretação de Amos aproxima-se de um grito de rock e a canção parece prestes a sair dos limites da própria composição. A influência do rock pesado não é uma fantasia crítica posterior — há quem tenha identificado precisamente nessa faixa uma espécie de equivalente pianístico ao ataque de uma guitarra, incluindo uma intensidade vocal próxima de Robert Plant.
Depois há “Winter” e “Mother”, duas canções que colocam a família no centro do álbum sem nunca a transformarem em território seguro. A primeira olha para a relação entre pai e filha através do tempo, enquanto “Mother” permanece numa zona muito mais nocturna, quase suspensa, sobre a passagem de uma mulher para uma vida que já não pertence à família de onde veio. “China” transforma a distância emocional numa paisagem física. “Tear In Your Hand” consegue fazer uma separação soar simultaneamente melancólica e luminosa.
E então chega “Me And A Gun”. Sem piano. Sem banda. Sem a possibilidade de a música funcionar como almofada emocional entre o ouvinte e aquilo que está a ser contado. Apenas a voz de Amos, relatando a experiência de uma violação. É talvez o momento em que Little Earthquakes deixa definitivamente de poder ser confundido com uma colecção de canções confessionais. A ausência de acompanhamento não é minimalismo decorativo: é uma forma de retirar ao ouvinte qualquer lugar confortável onde se possa esconder. A própria escolha de cantar a história a cappella torna a violência da canção inseparável da voz que a suporta.
No final surge “Little Earthquakes”, a canção que dá nome ao álbum e que parece reunir tudo aquilo que aconteceu antes dela. O título tornou-se uma imagem para a própria lógica do disco: aquilo que nos destrói raramente chega acompanhado por uma explosão monumental. Às vezes basta uma pequena deslocação. Uma frase. Uma memória. Um desejo. Uma pessoa que vai embora. Foi precisamente esta capacidade de Amos para transformar experiências privadas em imagens abertas que tornou possível o projecto que a Z2 Comics desenvolveu para o 30.º aniversário do álbum.
As Canções Deixam de Ser de Tori
A ideia de Little Earthquakes: The Graphic Album é simples apenas à primeira vista: transformar as canções em histórias desenhadas. O resultado, porém, não é uma adaptação linear do álbum. Rantz Hoseley, editor da Z2 e também responsável pelo anterior Comic Book Tattoo, reuniu 24 histórias inspiradas nas 12 faixas do álbum e nos 12 lados B associados à sua edição e aos respectivos singles. O livro inclui textos e ilustrações de um grupo bastante heterogéneo, onde encontramos Neil Gaiman, Margaret Atwood, Leah Moore, Colleen Doran, Annie Zaleski, Marc Andreyko, Kelly Sue DeConnick, David Mack, Bilquis Evely, Alison Sampson e vários outros.
A própria Tori Amos explicou a importância que a imagem sempre teve no seu universo artístico, considerando particularmente significativo ver aquelas canções ganharem uma existência visual através de outros artistas. É aqui que o projecto se torna verdadeiramente interessante.
Uma canção é uma forma relativamente fechada. Tem duração, andamento, timbre, respiração. A voz determina o corpo das palavras e o arranjo determina aquilo que o silêncio significa. Uma banda desenhada não dispõe de nada disso. Tem de decidir como é uma personagem, onde está, como se move, o que acontece antes e depois de cada imagem. A pergunta deixa então de ser «como desenhar Little Earthquakes?» e passa a ser «o que é que estas canções permitem imaginar quando Tori Amos deixa de ser a pessoa que controla a imagem?» Nem todas as respostas são igualmente convincentes.
Uma das fragilidades apontadas ao livro é precisamente a irregularidade das interpretações. Há histórias em que a relação com a canção parece nascer de uma leitura genuína e outras em que a imagem se limita a seguir demasiado literalmente aquilo que a letra já dizia. Uma crítica particularmente dura considera que algumas das propostas ficam presas entre a ilustração e uma liberdade interpretativa tão solta que a ligação à música se torna quase arbitrária. É uma crítica justa, mas também revela o problema essencial do projecto: não há uma maneira objectivamente correcta de transformar Tori Amos em banda desenhada.










Peguemos em “Tear In Your Hand”, entregue a Neil Gaiman. A escolha parece quase inevitável: Gaiman e Amos têm uma amizade de longa data e o escritor é alguém profundamente familiarizado com universos onde o quotidiano e o fantástico podem ocupar exactamente o mesmo espaço. Mas uma adaptação demasiado próxima da letra corre o risco de fazer aquilo que uma boa adaptação não deveria fazer: substituir a imaginação do leitor pela sua própria.
Margaret Atwood, por outro lado, surge associada a “Silent All These Years”, uma escolha especialmente sugestiva. A canção fala de silêncio, identidade, género, desejo e recuperação da voz; Atwood passou décadas a explorar precisamente as estruturas sociais e psicológicas que determinam quem pode falar, quem é ouvido e quem é obrigado a permanecer calado. A associação não é apenas prestigiante. É conceptual. E talvez seja esse o aspecto mais interessante de Little Earthquakes: The Graphic Album: não a possibilidade de vermos aquilo que Tori Amos viu, mas a oportunidade de percebermos o que outras pessoas ouviram quando escutaram as mesmas canções.
A Imagem Depois do Piano
Há uma ironia bonita no facto de Little Earthquakes acabar transformado em livro. O álbum sempre teve uma relação particularmente forte com o espaço físico. O piano não é simplesmente um instrumento nas mãos de Amos: é uma extensão do corpo, um objecto contra o qual ela se apoia, que ataca, acaricia, arrasta e utiliza ritmicamente. A sua técnica permite-lhe fazer coisas que um arranjo convencional dificilmente conseguiria. Por isso, quando as canções são transferidas para a banda desenhada, perde-se inevitavelmente uma parte da sua violência. Mas ganha-se outra.
O piano deixa de definir o espaço e cada artista passa a ter de o inventar. “Winter” já não é apenas a voz de uma filha perante o pai; pode tornar-se uma paisagem. “Mother” deixa de depender daquela progressão lenta e dolorosa do piano; tem de encontrar uma imagem equivalente. “Me And A Gun” já não dispõe do desconforto produzido pela voz isolada de Amos; precisa de descobrir outra maneira de obrigar o leitor a permanecer dentro daquela história. É uma operação perigosa. Também é a razão pela qual vale a pena fazê-la.
A edição comemorativa do álbum acabou por acompanhar este projecto com uma nova remasterização de Little Earthquakes, preparada por Jon Astley em 2022. O álbum foi distribuído numa edição de dois LP, e a campanha incluiu também uma edição expandida com 18 lados B, gravações ao vivo e outras raridades.
As edições mais luxuosas do livro foram transformadas em objectos de colecção: a Deluxe incluía o álbum em vinil, um picture disc com The B-Sides e três estampas, enquanto a Platinum, limitada a 500 exemplares, acrescentava uma capa em foil assinada e numerada por Amos, uma caixa inspirada na embalagem original do álbum, estampas adicionais e um Sketch Diary.

