King Dude

King Dude: O Diabo Também Escreve Canções de Amor

T.J. Cowgill, aka King Dude, cruza folk, blues, country, horror e romantismo negro numa estétitca musical onde Johnny Cash, Leonard Cohen e o Diabo parecem habitar as mesmas canções.

Há músicos que precisam de uma banda para criar atmosfera. T.J. Cowgill precisa apenas de estar aí — Dasein, na terminologia de Heidegger, ou simplesmente King Dude na sua. Pelo menos foi assim na última vez que o vi ao vivo, numa quente noite de Junho, no Cais do Sodré, passam mais de dez anos…

Em 2018, no Sabotage Club, diante de cerca de oitenta pessoas, o músico subiu ao palco como King Dude munido apenas do seu enorme carisma, uma Gretsch e um repertório de canções suficientemente fortes para sobreviverem à ausência de quase tudo o que normalmente associamos a uma banda.

Foi em 1994 que Rick Rubin fez ressurgir a carreira de Johnny Cash através do primeiro álbum que se tornaria na série de discos da colecção American Recordings. O lendário produtor fez algo muito próximo do que Steve Binder, Bones Howe e Earl Brown haviam feito com Elvis em 1968: despiu as canções de Cash até ao mínimo indispensável, até ao seu núcleo, permitindo-lhes fazer sobressair a crueza cativante e a pujança emocional. Actuando como King Dude, a solo, T.J. Cowgill é capaz de provocar um efeito semelhante. Talvez soe numa mistura de Cash — mais pela voz — com Townes Van Zandt.

Uísque & Lúcifer: Junho de 2018

Naquela noite, noo Sabotage, enfrentando aquela pequena assembleia, a força crua das suas canções transportou-nos para uma atmosfera sulista, melancólica e negra. Com Cowgill sozinho em palco, canções como “Jesus In The Courtyard” ou “River Of Gold” ficam um pouco mais vazias nos arranjos mas, nesse formato, a envolvência do ressonante crooner é mais potente. Nesse concerto, de forma descomplexada e natural, King Dude viaja através das suas referências, de Cash a Cohen, passando por Springsteen.

Com um humor tranquilo, entre malhas, uísque e cerveja, Cowgill conduziu o público numa espécie de liturgia folk, cruzada com paganismo. Aceitou pedidos, inventou o King Dude Bingo e, antes de “Lord, I’m Coming Home”, apresentou as suas canções como coisas «depressing as shit». Fez ainda uma longa apologia da metilenodioximetanfetamina antes de “State Trooper”, original de Bruce Springsteen em Nebraska, de 1982. Depois sentou-se diante de um Yamaha MOTIF ES8 para tocar “I Don’t Wanna Dream Anymore”. Com os sons de piano, Cowgill soava nitidamente a outra das suas referências, evocando Leonard Cohen.

Nessa noite, ainda voltaria à guitarra, porque talvez nenhuma outra coisa lhe sirva tão bem, embora a bebida começasse entretanto a deixar algumas marcas na prestação. No fim, como no início, dentro da correcta forma ritualista, tornou a evocar Cash, despedindo-se com “Barbara Anne” e “Watching Over You”.

Fotos de Inês Barrau, Arte Sonora.

É difícil imaginar melhor maneira de compreender King Dude do que vê-lo sozinho diante de uma sala. Porque toda a estética de T.J. Cowgill parece construída em torno de uma contradição semelhante: há uma iconografia carregada de trevas, morte, religião, paganismo, violência e desejo, mas existe também uma enorme ternura pela canção. O horror não elimina o romantismo. O romantismo não dissolve o humor negro. E a personagem nunca consegue apagar completamente o músico que está por baixo dela, aquele que aprendeu a tocar guitarra com “House Of The Rising Sun”, passou depois por Buddy Holly e cresceu a ouvir o pai tocar à maneira de Leo Kottke.

Sons do Cinturão Bíblico

O António Silva (num longínquo press release do SWR Inc.) descrevia-nos T.J. Cowgill desta forma pertinente: «Filho de pai guitarrista e proveniente de um passado ligado à música mais extrema (é frontman da banda de Death Metal “Book of Black Earth”), foi sob a premissa de que one man bands de metal são difíceis de concretizar quando comparadas às de folk que T.J. Cowgill roubou o “King” a King Diamond e lhe juntou uma famosa personagem do filme The Big Lebowski para se reinventar como King Dude.

Contrariando um género onde prosperam letras na primeira pessoa sobre amores e dissabores, o Rei Gajo guia-nos por negras baladas de terror e assassínio com um toque de Americana, numa mistura de folk, blues e country onde por vezes surge inesperadamente uma veia quase omissa de rock’n’roll entre as linhas de guitarra que compõem os temas. A sua música revela a intensidade de um Nick Cave na era Birthday Party, com passagens embutidas de tal forma de trevas e horrores que fazem Johnny Cash parecer um beto».

A descrição é certeira precisamente porque não tenta separar as várias coisas. King Dude é uma dessas figuras em que a música parece existir algures entre géneros que, à partida, não deveriam encontrar-se. Cowgill vinha do metal, mas encontrou no folk, no blues, no country e na tradição da americana uma linguagem que lhe permitia trabalhar outras formas de peso. Em vez de substituir a distorção pela acústica, transferiu para a canção acústica uma parte da violência que conhecia de outros contextos.

E talvez seja por isso que a questão do Bem e do Mal lhe seja tão pertinente, como recordo de uma conversa que tivemos em 2015. Há uma certa ironia nas respostas. Porque a imagem de King Dude poderia sugerir exactamente o contrário: uma figura sentada confortavelmente no território mais negro da iconografia cristã, entre o Diabo, a morte, o pecado e a redenção. Mas Cowgill parece interessado precisamente naquilo que existe entre essas categorias.

O Sul que aparece na sua música também não é necessariamente um lugar geográfico. É uma espécie de território mental, feito de igrejas, estradas, violência, álcool, sexo, culpa e redenção. Uma América transformada pela imaginação de alguém que nasceu em Seattle, longe do Bible Belt, mas que encontrou nos sons e símbolos dessa tradição uma matéria suficientemente rica para construir a sua própria mitologia. Porque desloca a questão do horror para a emoção.

A violência pode ser espectacularizada até à exaustão, mas não deixa de existir uma diferença entre representar uma imagem e transmitir uma experiência. King Dude trabalha precisamente nesse espaço. A morte, o pecado e o desejo interessam-lhe não apenas enquanto imagens, mas porque são formas extremas de experiência humana.

Trabalho para as canções.

T. J. Cowgill

És um tipo maniqueísta ou apenas gostas de usar o mais velho motivo dos contadores de histórias: Bem vs. Mal?
Não me considero um maniqueísta, mas gosto, de facto, do dualismo medieval e, sem dúvida, que extraio influências dessa forma de pensar. Mas as letras acabam por não ser tanto “Bem vs. Mal”. São um pouco mais complexas. Estão abertas a interpretação, que é a melhor característica da poesia e da música.

Não deixa de ser pouco comum ver um músico de Seattle possuir uma abordagem ao melhor estilo “bible belt” e gótico sulista
Gosto de todo o tipo de música, não apenas daquela do Pacífico Nordeste. Cresci a ouvir punk e metal. Na verdade, a primeira canção que aprendi a tocar numa guitarra foi “House Of The Rising Sun”. Depois aprendi algumas canções do Buddy Holly. Sempre adorei blues e country, acabou por ser algo natural começar a tocar isso. O meu pai é um guitarrista com um excelente picking, no estilo do Leo Kottke. Passei a vida a ouvi-lo tocar e tenho a certeza que me influenciou imenso.

Quão difícil é criar horror numa época em que a sociedade vai perdendo a sua sensibilidade, com o aumento e rapidez de propagação de imagens reais de violência nas redes sociais e nos media, em geral?
Duvido que alguma vez fiquemos sem a capacidade de nos chocarmos com a violência. A violência real é sempre muito intensa e a autenticidade das emoções em torno da violência ou do amor, diga-se, são detectáveis a alguém suficientemente atento para o reconhecer.

Tendo no currículo coisas tão distintas como o trabalho com Book Of The Black Earth ou Chelsea Wolfe, o que podes extrair sonoramente daí para as coisas de King Dude?
Não creio que alguma vez faça um disco de metal enquanto King Dude. Não o quereria ouvir e estou bastante certo que as pessoas também não. O mais porreiro nesta banda (ou projecto) é que as canções são aquilo que mais me importa. Portanto, o que quer que seja que a canção precisa de ser é aquilo que farei por ela. Trabalho para as canções.

Há momentos em que sentes ser frustrante actuares sozinho, em vez de poder usar todo o potencial da banda? Que compromissos necessitas para poder manter o núcleo essencial das canções?
Todas as canções começam comigo sozinho, daí que nunca haja um sentimento de frustração. O que pode acontecer, por vezes, é as canções serem prejudicadas pela banda – ter demasiadas opções para fazer sons específicos pode ser algo mau. Além disso, depender de outros músicos pode ser uma experiência bem difícil e frustrante. Não diria que tenho preferência de um cenário sobre o outro, mas que gosto de certas particularidades em cada um. No final, se a canção é boa não necessitará de mais que um instrumento e uma voz.

E que instrumento te acompanha e sem o qual não vives?
Estarei sempre acompanhado por uma Martin acústica. Mais nada. Esta guitarra é também obrigatória em estúdio. Também gosto muito de usar o meu próprio Shure SM8 em estúdio mas, na realidade, qualquer coisa que leve o trabalho a bom cabo funciona para mim.

King Dude, por Michael Schindler.

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