Desde o primeiro longa-duração em 2011 que, como cantam no single «Yess», os PAUS são aquilo que lhes apetece. Um modo de estar que se percebe, lendo e ouvindo a discografia de uma das mais excitantes bandas portuguesas, agora que a história, após dezoito anos de mutação, risco e procura permanente, teve um fim.
Dezoito anos de carreira entre 2008 e 2026. Motivo para fazermos também uma retrospectiva à permanente mutação sónica da banda que reúne Joaquim Albergaria e Hélio Morais nas baterias e vozes, Fábio Jevelim nas sintetizações e Makoto Yagyu no baixo. Na altura, entre o álbum homónimo de estreia e o segundo álbum, Joaquim Albergaria dizia, em entrevista à AS, que «o processo nos Paus é sempre igual. E foi uma espécie de ilha de salvação que achámos para nós porque, acima de tudo, somos músicos preguiçosos.
«Preguiçosos no sentido de ensaiar e escrever na sala e repetir, toda a gente a tocar uns por cima dos outros e ninguém a perceber nada, depois chegas ao estúdio e reparas que não era nada disso que tinha percebido. Isso é extremamente extenuante. E nós tivemos a sorte e a benção de a primeira vez que entrámos em estúdio foi, sem nada feito, ligar as coisas, “micá-las”, começar a tocar e percebemos que esse processo resultava connosco. Usando exactamente os mesmos dias que íamos usar para gravar uma coisa que tínhamos pré-escrito e pré-ensaiado».
Nesse sentido, o processo é muito imediato e reactivo às ideias que vão surgindo. Dizia o mesmo interlocutor: «É um bocado escrita auto-consciente. As coisas vão saindo conforme entra um ritmo, entra uma linha de baixo, entra um som de teclado. O processo é quase cadáver-esquisito. Daí não haver uma consciência do que vai ser o todo, vamos fazer uma música, depois outra, e por aí fora. Algures lá no meio pensamos que é fixe dar uma guinada e fazermos uma mais calma, mas quando queremos ser mais conscientes do que é que é preciso, acaba no inverso ou sai uma coisa qualquer horrível que acabamos por não utilizar».
Desde o primeiro disco, em 2011, que, como cantam no single «Yess», os PAUS são aquilo que lhes apetece. Um modo de estar que se percebe, lendo e ouvindo a discografia de trás para a frente ou da frente para trás, ou como vos der na gana…

Há qualquer coisa de particularmente PAUS em decidir que a melhor maneira de terminar uma banda é fazer mais um disco. Não um best of, não uma retrospectiva sonora, não uma colecção de sobras ou de velhos temas revisitados com a solenidade que normalmente acompanha estas coisas. Um disco novo. Sete canções. ENTERRO. O álbum saiu a 13 de Março de 2026 e é, assumidamente, o último disco dos PAUS. A banda começou em 29 de Novembro de 2008, no número 211 da Avenida da Liberdade, e decidiu que o fim aconteceria 18 anos depois, em Novembro de 2026, depois de uma última digressão.
ENTERRO é, portanto, menos um epitáfio do que a última oportunidade para a banda fazer aquilo que sempre fez: procurar. E há uma diferença importante. Durante quase duas décadas, a pergunta dos PAUS foi sempre «e agora?». O que acontece se tirarmos isto? E se acrescentarmos aquilo? E se o baixo ficar ainda maior, se a bateria se dividir em duas pessoas, se a electrónica for para aqui, se o rock for para ali, se trouxermos outras músicas para dentro da nossa?
Em ENTERRO, a pergunta passa a ter prazo. “Ficamos por aqui”, uma das sete malhas, é quase cruel pela simplicidade do título. “Causa de morte”, “Não há vinho pra carpideiras”, “Uma vala aberta”, “Vida é passagem”, “Dia feliz” e “Dá a bola aos putos” completam um disco que, mesmo quando brinca com o seu próprio funeral, não parece interessado em morrer artisticamente antes de tempo. É importante isto. Os PAUS não acabam porque deixaram de ter ideias. Acabam precisamente depois de terem levado a ideia de PAUS até onde quiseram.
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O sexto álbum, PAUS e o Caos, talvez seja, retrospectivamente, o primeiro disco em que a ideia de que os PAUS podiam ser mais do que os quatro músicos deixa de ser uma possibilidade e passa a fazer parte do método. Editado a 29 de Setembro de 2023, o álbum acrescenta Iúri Oliveira nas percussões, João Cabrita nos sopros e Thomas Attar Bellier na guitarra e saz. São dez temas em pouco mais de meia hora. «Bora ser mais, ser outra coisa. Um som que não dê para circunscrever nem controlar. Bora a sítios onde nunca estivemos e bora levar amigos».
Era, segundo a própria banda, quase exactamente assim que surgiu a ideia. E percebe-se. Se a bateria siamesa, o baixo e os teclados foram durante anos uma espécie de laboratório fechado, PAUS e o Caos abre as portas. Não para perder identidade, mas para perceber o que acontecia quando a identidade deixava de depender da contenção. “Da Boca do Lobo” anunciava-o bem: a procura continuava, mas os quatro já não eram exactamente os mesmos PAUS. E é talvez essa a coisa mais coerente no disco: quando uma banda que passou uma década a desconstruir-se percebe que pode desconstruir também a própria ideia de quem está autorizado a tocar dentro dela.
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Depois de uma visita inspiradora a São Paulo e várias experiências de colaboração e mistura, YESS é positivamente um disco de PAUS. É uma boa maneira de o dizer. A palavra «Yess» funciona quase como programa estético. Depois de uma década, para cada desafio e oportunidade, a resposta parecia ter evoluído para aquilo: sim. Vamos. Experimentemos. O disco contou com a colaboração do brasileiro Grass Mass nos arranjos para sintetizadores modulares e expandiu o imaginário da banda entre pistas de dança de Lisboa, clubes de punk rock, rodas de batuque de São Paulo e raves de Berlim. O que interessava já não era provar que os PAUS tinham uma identidade. Era descobrir quantas identidades podiam atravessar essa mesma máquina.
E LXSP, o EP editado nesse mesmo ano, merece ser revisto de modo a perceber o que estava a acontecer antes de YESS. Não é preciso transformar cada lançamento menor numa peça essencial para justificar a inclusão. Basta reconhecer que, numa banda cuja história é feita de transições, estes intervalos também são matéria.
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Essa constante reconstrução é evidente há muito. Lia-se numa das várias notas de apresentação de Madeira que «os PAUS continuam a ser Hélio Morais, Makoto Yagyu, Fábio Jevelim e Quim Albergaria. Um baixo, teclados e uma bateria siamesa ainda são as ferramentas do seu ofício». A convite de Pedro Azevedo e da família ALESTE, os PAUS partiram em Setembro de 2017 para filmar e fotografar todo o aspecto visual de um disco que tinham começado a preparar em Julho desse ano.
A ideia de uma ilha que flutua e não tem sítio certo na geografia, uma ilha esquecida por um continente e de tão feliz por estar esquecida que se encontra na intercepção das Américas, África e Europa, pareceu-lhes naturalmente um retrato preciso do som que estavam a ouvir. Um mapa com fronteiras apagadas, uma ilha que se deixa levar e gosta de quem quer e está sempre à espera do barco é a forma como os PAUS olham para a Madeira e para si próprios, enquanto plataforma criativa. «Madeira é o som da banda a apaixonar-se pela ilha e os seus ilhéus, são 9 canções e vídeos onde vemos e ouvimos os PAUS sempre em viagem e sempre em casa».
Se precisam de saber, é o nosso álbum favorito na discografia dos PAUS. E talvez agora saibamos porquê.
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Passavam, sensivelmente, 6 anos desde o lançamento do EP É Uma Água e desde que os PAUS emergiram como uma das mais refrescantes propostas do panorama musical do país. Desde aí, de todas as invejáveis qualidades agregadas pela banda, com o decorrer de sucessivos lançamentos de valor, é difícil identificar a contenção ou a delicadeza entre elas. Todavia, é esse o caminho que seguem no seu terceiro longa-duração.
Em Mitra há mais exploração vocal e nas baterias siamesas, mas uma redução da pujança que deu corpo à obliquidade de Clarão (2014) e ao primitivismo de PAUS (2011). “Mo People”, “Mancha Negra” e “Fumo” são resquícios da banda que nos trouxe bigornas como “Nó” e “Negro” no trabalho anterior. “Olhos de Asma” lembra “Língua Franca”. Não é como se as inovações fossem total e imediatamente descartáveis, até porque os PAUS conseguem fazer transparecer aspectos da sua intrínseca estranheza nas suas músicas; simplesmente se lamenta que essa sua característica colida com a reformulação estética, removendo algum poder e frontalidade ao álbum.
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Em Clarão, a electrónica mantém-se misturada com uma boa dose de rock, ainda há ligação com ritmos “quentes”, e continua a configuração rítmica de bateria siamesa, mas há uma ruptura com o passado cristalino de algumas músicas do álbum homónimo de PAUS. Menos etéreo e mais concreto em cada música, mas mais disperso como disco, Clarão traz uma abordagem mais in your face, que pode demorar a entrar naqueles com bolhas de gosto com regimes mais rígidos. O facto de os temas serem mais abrasivos é algo que funciona melhor ao vivo.
Perguntamo-nos se falta um certo sentido de equilíbrio em disco? Talvez a questão se afigurasse mais fácil de resolver com mais temas com a limpidez e ritmo dançável do single “Bandeira Branca” (o tema mais icónico da banda) ou, pelo inverso, assumir-se mais o peso de “Primeira” e “Negro” como um norte a seguir. Não obstante o facto de ser um álbum menos imediato de que o álbum anterior, Clarão está aí às claras: um disco assumidamente mais complexo, que passava a exigir mais atenção ao ouvinte.
Bota Perna, lançado em 2015, ocupa um território mais difícil na cronologia, por ser uma edição de natureza diferente dos álbuns de estúdio, mas merece aqui a referência precisamente porque a discografia dos PAUS nunca se limita aos discos que aparecem mais convenientemente alinhados numa prateleira. Agora que sabemos onde a história termina, percebemos melhor que não havia uma linha recta. Havia um mapa cheio de atalhos…
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O disco homónimo é o mais português, nas batidas, na ginga Paião e Variações. Para o pessoal que gosta mais de coisas brutas, é o álbum mais porcalhão e, genericamente, mais pesado. É um manifesto dessa intenção de fazer o que bem lhes apetece, exposto no cruzamento electrónico e na propulsividade das baterias, na fusão entre rockalhada neo-milenar e balanço para danceteria, tudo uniformizado, por aquilo que talvez seja o elemento mais estanque na sonoridade da banda, o monstruoso som do Ibanez Jazz Bass de Makoto, um infame lawsuit dos anos 70 (de 72, sendo preciso), capaz de realmente «soar maior que a tua mãe», como se lia num dos primeiros textos que apresentava a banda nessa época.
Antes do álbum homónimo houve É Uma Água. O EP de 2010 é onde começa a tomar forma aquela combinação aparentemente incompatível que os PAUS haveriam de passar os anos seguintes a desmontar e reconstruir: peso e dança, electrónica e bateria, músculo e balanço, repetição e acidente. Ainda não estavam lá todos os PAUS. Mas já estava a pergunta.

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