Influenciados pelos Pink Floyd, Dead Can Dance e o rock alternativo, os The Gathering acolheram Anneke van Giersbergen e criaram Mandylion, a obra-prima que redefiniu o rock atmosférico e o metal europeu.
Nota prévia: A Imagem de Edessa é um sudário, tal como o Sudário de Turim, transformado numa relíquia sagrada, na forma de um retângulo de tecido, sobre o qual uma imagem milagrosa do rosto de Jesus está impresso – o primeiro ícone. É também uma das imagens classificadas como acheiropoieta (“não feitas pelas mãos”). Na Igreja Ortodoxa, a imagem é conhecida como Mandílio (em latim: Mandylium; em grego: μανδήλιον; romaniz.: Mandylion) sagrado, uma palavra em grego medieval e que não é utilizada em nenhum outro contexto.
No coração da década de 1990, o metal atmosférico europeu debatia-se nas sombras de uma fórmula que ameaçava esgotar-se. Foi nesse cenário de saturação que os holandeses The Gathering operaram uma das mais fascinantes transmutações alquímicas da música pesada daquela década com Mandylion. Ao recrutarem uma jovem de 22 anos chamada Anneke van Giersbergen, a banda não se limitou a trocar de vocalista; rompeu definitivamente com o esqueleto do death metal dos seus primeiros registos para abraçar uma sonoridade mais próxima do alt rock e do grunge, purificada por uma sensibilidade melódica assombrosa.
A arquitectura sónica de Mandylion assenta num ecossistema de influências muito mais rico e labiríntico do que a crítica metalúrgica da época conseguiu decifrar. Embora a densidade das guitarras de René Rutten e de Jelmer Wiersma ainda carregasse a herança do desespero arrastado do triunvirato britânico da Peaceville Records, o verdadeiro coração do disco batia noutra frequência. Havia ali a opulência cósmica e o lirismo espacial da era David Gilmour nos Pink Floyd, o transe místico e o folclore pagão dos Dead Can Dance, e as paredes de som lavadas em eco e reverb típicas do shoegaze.
Quando esta massa instrumental densa colide com o alcance vocal de Anneke, o efeito não é o da fragilidade clássica que vem amansar a tempestade; é uma fusão nuclear onde a electricidade e a melodia operam com a mesma força de impacto. Uma sonoridade que já não procurava a agressão, mas sim a imersão. Mandylion tornou-se o marco zero de uma era onde o peso já não vinha da brutalidade mecânica, mas sim da espessura da atmosfera.




O tema de abertura, “Strange Machines”, funciona como o manifesto definitivo desta nova ordem e revela a sofisticação cultural que regia os neerlandeses. Longe de ser apenas uma fantasia ingénua de ficção científica inspirada na literatura de H.G. Wells, usando uma passagem extraída ao filme em que George Pal adaptou The Time Machine. Logo aí, a banda elevou o plano lírico do disco.
Musicalmente, a malha estabelece-se sobre uma cadência de bateria e Hans Rutten (irmão de René) e baixo (assegurado por Hugo Prinsen Geerligs) que, como referido, partilha mais com o pulsar orgânico, cru e físico do rock alternativo de Seattle do que com as métricas do metal convencional. É o tapete perfeito para Anneke van Giersbergen se apresentar ao mundo: a sua voz possuía os músculos necessários para furar a parede de distorção sem nunca recorrer aos ornamentos artificiais da ópera lírica, impondo-se como uma cantora rock genuína numa corte de poetas melancólicos.
À medida que progride, percebemos que Mandylion é uma obra de dinâmicas subtis onde o espaço e o silêncio são tão importantes como o volume. Em “In Motion #1” e na sua posterior resposta em “In Motion #2”, a melancolia atinge proporções heróicas. As guitarras desenham melodias circulares e hipnóticas que choram em pano de fundo, evocando directamente o sentimento de desolação e beleza que Gilmour imprimia nas suas notas mais longas. Esta capacidade de criar espelhos e continuidades confere ao álbum uma coesão conceptual rara, transformando a audição numa experiência (quase) cinematográfica contínua.
Antes do final, está “Sand and Mercury”, zénite da ertente mais experimental e progressiva dos The Gathering. Com os seus quase dez minutos, é uma autêntica viagem psicadélica e espiritual que ilustra a despedida da vida terrena, culminando de forma arrepiante com um registo áudio real da voz de J.R.R. Tolkien a citar Simone de Beauvoir sobre a mortalidade, a liberdade, a transcendência e as amarras da condição humana para explicar o propósito de The Lord Of The Rings. Aí está impressa também a influência dos Dead Can Dance, na forma como a música flutua entre secções acústicas de uma beleza desarmante e clarões de guitarra eléctrica.
Esta influência do amplo universo musical de Lisa Gerrard e Brendan Perry é declaradamente assumida no exótico instrumental que partilha o título com o disco, que ostenta ainda dois imponentes pilares: “Eleanor” e “Leaves”. Dois prodígios de dinâmica onde os sintetizadores e arranjos de Frank Boeijen criem uma névoa de densidade atmosférica irresistível. Boeijen não se limitou a decorar as músicas; ele preencheu os vazios com texturas electrónicas e orquestrações subtis que conferiram ao som do grupo uma tridimensionalidade notável.
Não há pressa nas composições dos The Gathering; cada nota é deixada a ressoar no espaço, permitindo que o ouvinte habite o vazio e sinta a gravidade da atmosfera criada pelo grupo. A voz de Anneke surge no topo da mistura com uma nitidez cristalina, captando cada respiração, sussurro e nuance da sua entrega emocional, sem nunca ser abafada pelo manto sónico que a rodeia.
A produção de Waldemar Sorychta e Siggi Bemm nos estúdios Woodhouse foi crucial para que este monumento resistisse ao teste do tempo. Sorychta, um dos produtores mais influentes do metal europeu dos anos 90, compreendeu que o segredo não passava por polir excessivamente o som, mas sim por garantir que se mantinha próximo do grunge. Mandylion permanece intocável porque não foi o resultado de um cálculo de mercado; foi o milagre do encontro de cinco jovens músicos na plenitude das suas capacidades criativas – que seriam ainda mais sublimadas no álbum seguinte, Nighttime Birds (1997) – e uma voz que parecia caída do céu.
Mandylion desbravou caminho para que bandas como os Nightwish, Within Temptation ou Lacuna Coil pudessem existir no cenário heavy mais abrangente. No entanto, ao contrário de muitos dos seus seguidores que industrializaram a fórmula do metal sinfónico, os The Gathering mantiveram sempre uma honestidade artística indomável e uma inclinação para a melancolia analógica que nunca foi replicada com o mesmo sucesso.
