Dead Can Dance

Dead Can Dance, Os Sons do Império de Alexandre

A música e a convergência helenística dos Dead Can Dance, à luz do pináculo em “Spiritchaser” e dos ciclos de morte e renascimento presentes em “Anastasis” e “Dionysus”.

A conceptualidade da sonoridade dos Dead Can Dance não envolve fantasia, antes discorre através dos mitos ancestrais da Europa, da África e da Ásia. Partindo talvez de um anseio sentido por orfandade dessa riqueza cultural que poderá surgir em australianos que, colonos, procuram a sua centralidade no mundo.

Há, aliás, qualquer coisa de profundamente revelador no facto de uma banda oriunda de uma geografia culturalmente jovem ter sentido a necessidade de trabalhar com estratos civilizacionais tão antigos. Não se trata de exotismo nem de erudição ornamental. Trata-se antes de uma recusa do presente superficial, de uma procura de continuidade histórica num mundo que vive, cada vez mais, na amnésia do imediato. A música dos Dead Can Dance parece mover-se num tempo profundo, quase geológico, onde as culturas não são episódios, mas camadas.

Resumindo a importância que os Dead Can Dance tiveram na teatralidade, na conceptualidade musical, bastaria relembrar o impacto da sua estética na banda sonora da mega-produção cinematográfica “Gladiator” – onde Lisa Gerrard emprestou todas as suas idiossincrasias às composições de Hans Zimmer.

Em 1996, os Dead Can Dance editaram “Spiritchaser”. O sétimo álbum era aquele em que Brendan Perry e Lisa Gerrard conseguiram a sua maior obra, a mais rica e menos oscilante. Depois de abandonarem o gótico e o pós punk, depois de anos e álbuns de pesquisa de várias fontes sonoras geográficas, afastando-se progressivamente do medieval europeu em direcção ao mediterrâneo, ali congregaram um tremenda fusão da música do sul da Europa, dos Balcãs, do Médio Oriente e do Norte de África. Isto com um alcance capaz de se estender até à Índia.

O que distingue esse período dos Dead Can Dance de muitas experiências rotuladas como world music é precisamente a ausência de turismo sonoro. Não há aqui colagem nem pastiche. As estruturas rítmicas, os modos melódicos e o próprio espaço deixado ao silêncio revelam um processo de assimilação, não de citação. Como no mundo helenístico, em que as culturas conquistadas transformaram tanto quanto foram transformadas, também em “Spiritchaser” as influências deixam de ser identificáveis como origem e passam a existir como organismo.

Alexandre não apenas conquistou territórios — fundou cidades híbridas, criou sincretismos, dissolveu fronteiras culturais. Spiritchaser faz isso musicalmente. Não é “world music”: é helenismo sonoro. É fusão consciente, não colagem decorativa. “Spritichaser” era como uma versão musical do Império conquistado pelo fervor aristotélico de Alexandre. E tal como sucedeu com Alexandre, no pico da sua glória, Brendan Perry e Lisa Gerrard deixaram morrer o projecto e a sua gloriosa ideia. Talvez essa interrupção tenha sido menos um abandono do que uma consequência lógica.

Certas obras atingem um ponto de saturação para além do qual qualquer passo seria redundante. Há momentos em que continuar significaria apenas repetir o gesto fundador, esvaziando-o. O silêncio que se seguiu não foi um vazio, mas um intervalo — como aqueles espaços nas liturgias antigas em que nada acontece exteriormente, mas tudo se prepara. Várias compilações e bootlegs foram mantendo o culto em torno dos Dead Can Dance até ao retorno.

ANASTASIS

“Anastasis” é o termo grego para ressurreição. O centro do mundo clássico é o motor sonoro dos Dead Can Dance que ressuscitaram num álbum que não surpreende, mas é deslumbrante como sempre. Amados em todos os quadrantes da música, foram impelidos a completar o que deixaram por concluir na reunião de 2005. “Anastasis”, além de marcar o regresso às edições discográficas 16 anos após o seu álbum mais sólido, foi também catalisador para a maior digressão mundial na carreira da banda.

Ainda assim, a recepção calorosa e a dimensão da digressão não dissiparam por completo a sensação de que algo permanecia suspenso. “Anastasis” era um regresso, mas não ainda um reencontro pleno com a pulsação mais terrena que animava os trabalhos anteriores dos Dead Can Dance. Havia beleza, mas uma beleza mais contemplativa do que visceral, como se a música observasse o mundo a uma certa distância, em vez de o atravessar.

Os trabalhos que Brendan Perry e Lisa Gerrard desenvolveram a solo nunca se libertaram da atmosfera sonora que haviam desenvolvido conjuntamente e ao mesmo tempo aquilo que, juntos, faziam separadamente. De facto, “Eye of the Hunter” e “Ark” foram sempre como metades incompletas de um álbum de Dead Can Dance, a metade de Perry, e o mesmo pode ser dito dos álbuns “The Mirror Pool”, “The Silver Tree” ou “The Black Opal”, de Gerrard. Afinal, mesmo em Dead Can Dance sempre usaram, preferencialmente, as suas vozes separadas e em “Anastasis” isso torna a suceder, com cada um dos músicos a cantar 4 das 8 canções que compõe o álbum.

Essa divisão nunca foi uma limitação; foi sempre uma tensão produtiva nos Dead Can Dance. Perry tende a construir narrativas, a organizar o pensamento em linguagem, em imagens que avançam como passos medidos. Gerrard, pelo contrário, dissolve a linguagem, regressando a uma vocalização anterior à palavra, onde o significado não é transmitido, mas sugerido. Entre ambos estabelece-se um equilíbrio raro: a música pensa e sonha ao mesmo tempo.

Nos temas de Lisa temos aquelas notas sonantes, etéreas, as ideias sem palavras. Enquanto Brendan empresta palavras às ideias. “Children of the Sun” reflecte sobre a evolução humana e como o código genético acolhe infusões de memória ancestral até ao presente. Tema também abordado em “Amnesia”, a palavra grega para esquecimento – a trágica fatalidade para os pensadores clássicos, que viam a memória como uma das musas mais importantes – e em como a sociedade esquece a História, aprendendo-a através dos vencedores e assim caindo em erros cíclicos.

O desespero da visão nihilista torna-se o “Opium” que entorpece o instinto de acção do ser humano, assume Perry, antes de nos cantar, em contraposição, “All In Good Time” e de como a idade e a paciência trazem as coisas a bom termo. Todavia, “Anastasis” não conseguiu escapar a um sentido algo vazio, a esse esvaziamento lazariano, recuperado inesperadamente o fôlego da vida. A ressurreição, na tradição cristã, não é apenas retorno à vida — é retorno sob outra condição ontológica. Lázaro regressa, mas não regressa à inocência da morte anterior.

Em “Anastasis” sente-se essa condição: há competência, há solenidade, mas falta perigo. O álbum soava ainda demasiado sintetizado e pouco unificado, sem a alegria da vida. É aqui que surge o nono álbum de originais dos Dead Can Dance, o folgado “Dionysus”.

DIONYSUS

A própria estrutura do álbum, dividido em actos, não é um capricho formal, mas uma escolha que remete para o drama ritual da Antiguidade. Não estamos perante um alinhamento de temas, mas perante um percurso. A música não avança por canções isoladas, mas por estados sucessivos, como se cada secção representasse uma fase de um processo iniciático: convocação, perda, revelação, regresso. As tapeçarias instrumentais do primeiro acto e as evocações do segundo apenas poderiam ter sido feitas pelos Dead Can Dance. E esse é o melhor elogio que se pode fazer ao disco. O álbum mais conceptual dos Dead Can Dance.

Os seus dois enormes actos retornam à solidez e colorido criativo de “Spiritchaser”, ainda que esteja mais focado musicalmente no sul europeu clássico, no mundo de Eurípides e das vibrantes celebrações do Cristo do mundo helénico: Dioniso, a divindade dos ciclos vitais, das festas, do vinho, da intoxicação xamânica. Esse libertador da mente, que devolveu a inspiração a Perry e Gerrard. Os compositores que acolhem o êxtase criativo e revelam a verdade do seu nome, a morte viva, a morte que pode dançar, as bacantes ou ménades.

O elemento dionisíaco é, aliás, frequentemente mal compreendido quando reduzido à ideia de excesso. Nos ritos antigos, o êxtase não era simples embriaguez, mas uma forma de conhecimento. A dissolução momentânea da identidade individual permitia aceder a uma percepção mais ampla da realidade. É essa suspensão que a música de “Dionysus” parece procurar: não a desordem, mas um outro tipo de ordem, anterior à razão.

Na terceira parte do Primeiro Acto de “Dionysus”, o ritmo sincopado de “Dance Of The Bacchantes” remete-nos para esses misteriosos rituais de morte e renascimento e loucura. Um equilíbrio difícil de atingir, mais ainda filtrado pelos excessos dionisíacos, mas plenamente gratificantes e geradores de uma ânsia anabática, rumo ao Segundo Acto do álbum, ao cimo do Monte Tmolo, às suas recompensas e ao abandono do encontro psicopomposo. O mistério não é dissipado, mas estreitado e passível de repetição. De Vida e de Morte, de Dança, de Excessos, de Ressaca e de Renascimento.

Estas reflexões são sempre pontuadas pela ancestralidade mitológica evocada pelos cantares de Lisa Gerrard e sempre com essa estética que foi assumida, principalmente, a partir de “The Serpent’s Egg”. A voz de Lisa Gerrard desempenha aqui um papel decisivo. A sua linguagem inventada não é ausência de significado, mas tentativa de regressar a um estado anterior à fragmentação das línguas, onde o som e o sentido ainda não estavam separados.

Não é uma voz que comunica ideias; é uma voz que convoca estados de espírito, como um instrumento arcaico cuja função é abrir espaço interior, não preenchê-lo. Elementos de riqueza que não se submetem a uma estratégia new age bacoca, mas a uma profundidade estrutural derivada de uma conceptualidade enraizada na, precisamente, profundidade musical.

De resto, ouvir Dead Can Dance com um conhecimento de trazer por casa da hierofania dos mitos gregos ou das redundantes lições do ensino secundário sobre o pensamento clássico (reduzindo-o a péssimas interpretações da alegoria da caverna de Platão) é uma experiência imensamente menos rica. Porque o que está em jogo não é erudição decorativa, mas a compreensão de que estes mitos não pertencem ao passado: são estruturas activas de pensamento. Os Dead Can Dance não os citam; reencenam-nos. E é nessa reencenação — nesse gesto de devolver corpo, ritmo e respiração ao que parecia fossilizado — que a sua música encontra a sua necessidade. Não como nostalgia, mas como actualização ritual de algo que nunca deixou verdadeiramente de existir.