Mariah Carey

Mariah Carey, A Canção Imperativa do Yuletide

Em 1994, Mariah Carey arrebatou o mundo com sinos e whistle tones e tornou-se a patrona do consumismo. Três décadas depois, o seu álbum natalício e o ubíquo single All I Want For Christmas Is You continuam a dominar a época festiva como uma liturgia pop irresistível.

Logo no início do filme Gladiator, o general Maximus Decimus Meridius — interpretado por Russell Crowe, com aquela desarmante serenidade de quem comanda impérios — oferece-nos uma das frases mais temíveis do cinema moderno, quando, nos momentos imediatamente anteriores ao choque entre exércitos que sabemos iminente, ordena aos seus oficiais: «At my signal, unleash hell». Quase se pode ouvir o estrondo das catapultas, o rolar dos escudos, o frio da lama e do medo e, antecipar o destino que espera a hoste de bárbaros germânicos.

No dia 1 de Novembro de 1994, quase dois mil anos depois ao período retratado no filme de Ridley Scott e em circunstâncias radicalmente distintas, Mariah Carey lançou um álbum e o Inferno que se seguiu não podia ter sido antecipado por ninguém. Falamos, claro, de Merry Christmas.

Merry Christmas estreou no mercado numa altura em que Mariah Carey estava no topo de tudo: tinha recém-saído do êxito massivo de Music Box e aproximava-se de Daydream. O disco apresentou-se como um objecto contraditório: sentimental, comercial e, simultaneamente, estranhamente imprescindível. O que começou como um simples álbum de Natal tornou-se num fenómeno de possessão cultural. Todos os anos, à medida que as folhas caem e os centros comerciais acendem luzes em tons de epilepsia, há um ruído familiar que se aproxima, inevitável, como o tropel de uma legião romana: “All I Want for Christmas Is You”. Não há defesa possível. Não há muralha que resista. E, ao contrário das tribos germânicas, não somos simplesmente dizimados — dançamos.

É fácil rir do fenómeno — rir do marketing, das playlists que em Novembro passam “All I Want for Christmas Is You” até à exaustão, do merchandising, dos planos de reedição que aparecem como quem acende luzes de Natal. Mas seria injusto reduzir tudo a isso. O disco vendeu por milhões: Merry Christmas é um dos álbuns de Natal mais vendidos de sempre, com estimativas que o colocam nuns arrojos próximos dos 15–18 milhões de cópias mundialmente — um número que transforma qualquer tentativa de minimizar o seu impacto em pura má fé estatística. E nos EUA tem certificações que comprovam o peso comercial da coisa.

Há algo de quase demoníaco na perfeição matemática com que a canção regressa. As rádios, as lojas, os anúncios, o algoritmo — todos se ajoelham perante ela. E, no entanto, seria injusto fingir que este domínio é apenas um produto de marketing. Merry Christmas não é um acidente industrial: é uma operação de génio. Mariah Carey não inventou o Natal pop, mas refinou-o com a precisão de um relojoeiro suíço e a teatralidade de uma diva barroca. A sua voz — expansiva, acrobática, ora de cristal, ora de lava — fez o que o capitalismo só sonha conseguir: tornar-se tradição.

Jesus em Néon

O núcleo duro do dispositivo é, naturalmente, “All I Want for Christmas Is You” — uma gema pop escrita por Mariah Carey e Walter Afanasieff, concebida para penetrar audiências e ressoar no tempo com a brutalidade de um hit clássico. Afanasieff e Carey compuseram e produziram a faixa, e a sua construção é uma lição de economia pop: ritmo de Motown, sinos a saltitar, coros açucarados e uma performance vocal que oscila entre a insinuação e a exaltação.

A canção demorou apenas alguns minutos a nascer — ou assim contam as lendas — mas levou décadas a ser plenamente reconhecida nas tabelas, culminando num primeiro #1 na Billboard Hot 100 apenas em 2019, quase 25 anos após a sua estreia. É um caso raro de permanência cultural que ultrapassa estratégias de antecipação: tornou-se ritual e, com isso, património.

Para quem gosta de som e arranjos, o álbum merece um olhar atento para além do single pop-perfeito. Mariah Carey e Afanasieff trabalham aqui com um leque de texturas: há coros gospel (especialmente em “Jesus Born on This Day”), sintetizadores orquestrais que abraçam as baladas e arranjos pensados para soar tanto em lojas de departamento como em salas de concerto pequenas.

A versão de “Christmas (Baby Please Come Home)” — homenagem a Darlene Love — é tratada com reverência e energia; “O Holy Night” e “Silent Night” revelam o lado mais clássico e vocalmente exigente de Mariah Carey, com passagens que exigem, e mostram, resistência e amplitude. Quem ouve com atenção notará o cuidado nas dinâmicas: não é só sobre agudos impressionistas; é sobre controlar a narrativa sonora de cada tema.

Há também a componente humana: Mariah Carey, já nessa altura, não era só uma intérprete de voz vasta — era uma arquitecta de momentos. A sua capacidade para balancear melisma e melodia, virtuosismo e pop imediato, faz com que a irritação de sermos todos forçados a ouvi-la anualmente se transforme, por vezes, em admiração resignada. Reconhecer o génio vocal não apaga a saturação; antes, a intensifica: porque sabemos que, por detrás do jingle omnipresente, existe uma artista que domina técnicas de interpretação que muitos cantores ditos “sério” invejariam.

E o aparelho económico? É impossível dissociar o disco do seu tempo: produção em escala, reedições, promoções milionárias, a cultura do single que se perpetua ano a ano. Mas essa maquinaria só atinge a sua eficácia porque a música — e a interpretação — aguentam o jogo. “All I Want…” não é um truque anódino; é uma canção pop brilhantemente escrita para cumprir uma função: entrar nas pequenas tradições afectivas das pessoas. Por isso, quando as luzes se acendem em Novembro, não é (só) o algoritmo que nos força a ouvi-la: é também a memória colectiva que se habituou a ela como ponto de referência emocional.

A Patrona do Consumo

Pode haver algo de teológico nisto: Mariah Carey como uma espécie de “santa” secular do consumo, uma figura que, com voz e instrumentações sintéticas, distribui conforto e culpa ao mesmo tempo. O Natal que Mariah vende é ambivalente — oferece calor e, simultaneamente, impõe repetição. Mas talvez aí resida a sua força: na capacidade de ser ao mesmo tempo, conforto e fetiche, hino e ruído de fundo. E, como em todas as grandes instituições, o culto não sobrevive apenas ao especialista: sobrevive à repetição, ao ‘quero-não-quero’, mas acabo por cantar aos berros em Dezembro, e a consciência de que, apesar de tudo, há beleza nesse cabelo de notas que ela empilha até ao infinito.

Mariah Carey canta o Natal como se fosse um sacramento de néon e plástico. Cada nota aguda é uma vela acesa, cada “baby” um milagre menor. É música que tanto abençoa como sufoca. Há beleza ali, sim — uma beleza que não se pode negar, mesmo que nos doa o tímpano de tanto a ouvir. Mariah Carey conseguiu o impossível: transformar o banal em inevitável, o doce em doutrina, o jingle em jugo.

E assim, todos os anos, quando Novembro começa, os sinos soam, as catapultas são armadas e o inferno doce volta a descer sobre nós. Maximus gritava “unleash hell” antes de uma batalha. Mariah Carey apenas sorri e carrega no play. O efeito é o mesmo: devastação total, mas com glitter.

Leave a Reply