Morreu Jack DeJohnette aos 83 anos. Aqui prestamos homenagem a um dos mais inventivos bateristas do século XX e XXI, cuja influência na música transcende géneros.
O monumental baterista de jazz Jack DeJohnette morreu no dia 26 de Outubro de 2025, num hospital de Kingston, Nova Iorque, vítima de insuficiência cardíaca congestiva. Tinha 83 anos e uma vida inteira de ritmo, invenção e escuta partilhada. Com a sua morte extingue-se uma das vozes mais originais da percussão do século XX — um baterista que transcendeu o papel de “acompanhante” e se tornou um verdadeiro pensador do som.
Nascido em Chicago, a 9 de Agosto de 1942, num ambiente onde o jazz e o blues circulavam pelas esquinas e rádios, DeJohnette começou por tocar piano, e esse detalhe aparentemente lateral acabou por marcar toda a sua abordagem à bateria. O seu ouvido era melódico antes de ser percussivo. Tocava como quem compõe, e compunha como quem improvisa com o corpo. A mudança para a bateria, ainda adolescente, não o afastou do teclado: serviu-lhe antes para compreender o instrumento não como máquina de tempo, mas como extensão harmónica da música.
Nos anos 60, Chicago fervilhava de ideias e sons. DeJohnette tocava com músicos da AACM (Association for the Advancement of Creative Musicians), um colectivo que acreditava que o jazz deveria ser livre, experimental e culturalmente afirmativo. Foi nesse ambiente que o jovem baterista desenvolveu o que mais tarde seria descrito como um “estilo multidireccional”: enquanto muitos colegas ainda se guiavam pelo swing linear do prato ride, DeJohnette preferia espalhar a pulsação por todo o kit — pratos, tons, caixa, bombo — como se estivesse a pintar com o som.
Em 1968, o seu nome tornou-se universal ao juntar-se a Miles Davis, participando no álbum Bitches Brew (1970), uma das obras mais revolucionárias do jazz e um dos discos que povoa as linhas da ROMA INVERSA. O impacto desse registo foi tão devastador que alterou não apenas a estética do jazz, mas a sua própria gramática. DeJohnette não tocava “com” Miles: tocava contra, dentro, ao redor. Criava tempestades rítmicas que pareciam prever o caos da música eléctrica e a fusão com o rock. Era, simultaneamente, estrutura e desestrutura.
A partir daí, a sua carreira tornou-se um mapa da modernidade. Tocou com Keith Jarrett, Charles Lloyd, Sonny Rollins, Herbie Hancock, Pat Metheny, Bill Evans, Freddie Hubbard e uma infinidade de outros. No trio de Jarrett com Gary Peacock, a sua bateria funcionava como a terceira voz de um diálogo contínuo — não uma base, mas uma conversa. Havia naqueles concertos algo de quase telepático: o silêncio entre cada nota parecia ter o mesmo peso que o som.
DeJohnette era esse tipo de músico raro que sabia escutar. A sua técnica era avassaladora, mas o que o tornava inimitável era o equilíbrio entre o impulso e o recolhimento. Tocava como quem respira: inspirava o fraseado dos outros e devolvia-o transfigurado, em gestos que não obedeciam a lógica métrica, mas a uma lógica humana. Ele próprio afirmou: «O melhor dom que tenho é a capacidade de ouvir – não apenas ouvir auditivamente, mas ouvir com o meu coração».
Nos anos 70, lançou discos em nome próprio como Sorcery (1974) e New Directions (1978), onde explorava territórios eléctricos, texturas ambientais e cruzamentos com o rock progressivo. Nos 80, formou o Special Edition, um grupo que incorporava saxofones, clarinetes e electrónica subtil, antecipando o jazz contemporâneo de fusão e ambiência. Cada década o viu reinventar-se, mas nunca renegar as suas origens. A sua curiosidade era infinita: podia gravar com John Scofield num dia e com o mestre indiano Zakir Hussain no outro. Para ele, o ritmo era linguagem universal.
Muitos consideraram-no o “elo secreto” entre Elvin Jones e Tony Williams — dois titãs do jazz moderno. Mas DeJohnette não seguia ninguém. Como escreveu certa vez a DownBeat Magazine, «ele não toca o tempo, ele toca o espaço entre os tempos». Essa frase resume o essencial: a música, para DeJohnette, não era contagem nem medida, mas respiração e escuta. DeJohnette pertencia àquela linhagem de músicos para quem o instrumento é menos um meio de expressão do ego e mais um veículo para a comunicação pura. Era um construtor de pontes — entre géneros, entre gerações, entre culturas. O seu legado estende-se muito além das gravações.
Ainda assim, o seu toque está impregnado em discos que definiram o século XX: Bitches Brew, The Köln Concert, Gateway, Parallel Realities, In Movement. Mas está também nas ideias que espalhou — o modo de conceber a improvisação como diálogo, o gesto de elevar a bateria ao estatuto de instrumento melódico, o entendimento de que tocar é, acima de tudo, escutar.
Para quem o ouviu ao vivo, havia uma espécie de liturgia na sua presença. DeJohnette sentava-se com uma postura quase meditativa, olhos semicerrados, braços soltos. Os pratos cintilavam como halos. Cada ataque parecia precedido por um segundo de suspensão — o momento em que o som ainda não existe, mas está prestes a nascer. Essa capacidade de conter o tempo antes de o libertar era o seu verdadeiro virtuosismo.
No início dos anos 2000, quando muitos colegas abrandavam, DeJohnette mantinha uma agenda intensa, gravando para a ECM e tocando com novos músicos. Aos 80 anos ainda subia a palco com a energia de sempre. A morte de Jack DeJohnette não é apenas a perda de um músico. É o fecho de um ciclo. A geração que reinventou o jazz na segunda metade do século XX começa a extinguir-se, e com ela desaparece uma certa ideia de música como acto espiritual. DeJohnette, como Coltrane ou Jarrett, acreditava que a improvisação era uma forma de oração — não religiosa, mas profundamente humana.
Num tempo em que a velocidade e o ruído dominam, recordar a sua música é lembrar a importância do silêncio e da escuta. Os seus solos não eram explosões de técnica; eram narrativas. Havia drama, pausa, suspense. Cada nota parecia perguntar algo, e a resposta vinha não da plateia, mas do ar. Se a música é uma forma de resistência contra o esquecimento, então DeJohnette foi um dos seus mais lúcidos combatentes. Ao longo de seis décadas, manteve-se fiel à curiosidade, à experimentação e à humanidade do som. Nunca procurou o estrelato, e talvez por isso o tenha alcançado de maneira mais profunda.
