O criador encontra o Criador numa esquina, que se chama 1969, e o mundo arde em guerra e amor livre e êxtase lisérgico. “Bitches Brew” é o pulsante e genial álbum de Miles. Filosófico, erótico e iniciático.
Brincar de notas, pode começar assim… Um dia, ao levantar a mirada sobre a nova praia e sobre o mar que, diante dela, se rasgava e sobre o céu, que frente a este alvorecia, o Criador decidiu improvisar de alma e criar tons de alabastro, para contrastar cromaticamente com a areia branca, colectada ao longo de séculos do fundo dos oceanos e gentilmente alourada pelo sol lá no alto. O Criador possuía uma voz áspera, entrecortada e acelerada, sendo talvez um pouco cego para os seus próprios contrastes de melanina. O que importava é que, no jogo da co-criação, os seus co-criadores seguissem o seu tempo, por dentro do seu espaço. «Keep it tight», repetia ele. Dois estalos secos de polegar e dedo médio iniciam então o ritmo preciso a que a criação deve decorrer.
O Criador gosta de fazer amor numa praia de areia, que progride e se espraia devagar pelo tempo com a moleza própria de quem tem toda a eternidade, do branco alvo de fundo do mar, para o negro da noite. E o tempo da criação, esse é incerto: às vezes acelerando em direcção ao desastre completo, outras vezes arrefecendo para o morno, quase frio, tornando-se tão lento e mormente quanto o tempo das cigarras.
Miles Davis terá nascido no tempo das cigarras. Não nasceu tanto a ouvir jazz, mas a intuir que a música é a força dinâmica da criação, e o músico o avatar do Criador. Dele vinha não tanto o desejo de transmutar o bebop, para a criação deste ou daquele novo género sonoro, mas o de uma apropriação de uma determinada arquitectura musical para, a partir dela, poder imitar de forma mais pura possível a própria criação. Notas para uma direcção musical. Notas…
Pode criar-se texto de muitas formas, tal como se pode pintar de muitas formas ou musicar de muitas formas. Regras convencionais (não escritas, mas poderosamente inscritas nas linhas mestras do inconsciente colectivo) empurram o criador mais receoso dos seus talentos inatos em direcção a uma arquitectura de criação mais formal. O Criador instintivo, trapaceiro e brincalhão, esse terá, nas estruturas formais, um espartilho que, se demasiado apertado, tende a estilhaçar o gozo e a transformá-lo em trabalho.
Trabalho é uma má palavra, vomitada da boca da grande, neurótica, e sempre assustada Europa branca anglo-protestante. Mais ou menos saxónica. Sempre receando a falta. Sempre antevendo a escassez. O trabalho não liberta. Constrange e aprisiona. A criação não é trabalho. O criador não pica o ponto. A formiga não é uma boa metáfora para o universo. O músico olha para o seu instrumento e anseia explorá-lo, tocá-lo, amá-lo. Deixar que este conduza para fora de si. O músico é o xamã moderno que irá subir e descer as escalas tonais que compõem o eixo do mundo. Para cima e para baixo. Para os céus e para os mundos subterrâneos. O xamã é o Criador.
O jazz nasceu como a suprema forma de liberdade e de criação entre os povos negros.
O jazz nasceu como a suprema forma de liberdade e de criação entre os povos negros, que das manhãs de África foram transladados para anoiteceres nas Américas, e que tanto ansiaram por voltar a fazer o que mais gostam na pele, sem desculpas nem constrangimentos, nem vergonha de corpos ou de nudez. Pois o que o negro gosta é de brincar, pois o negro é o mais profundamente humano dos povos, e nisso é como o Criador que acha que trabalhar é um verbo de azedo de limão, com metal ferrugento e bateria industrial. Espartilhada e vitoriana.
Gerado (não criado) por pobre gente com medo da própria sombra, pois, para estes, até os reflexos na parede das cavernas são perigos ocultos e não revelações da verdadeira natureza das coisas. O medo. O frio. A escassez. O negro não tem medo da sua própria sombra, pois ele é a sua própria sombra. O negro não tem medo da escassez. Porque… Porque… Porque…
Porque a natureza é ele próprio. A sua pele e órgãos e o seu viver e o seu sexo. E a natureza é quente e sensual e abundante. A natureza é como a manga que se toma nos lábios e que escorre avulsa para cima de grandes seios, humedecendo-os e fazendo brilhar mamilos plenos que se esponjam ao sol em grandes praias de areia clara. Amanhecer em África é generoso e confortante. Reconfortante. A natureza é a grande Mãe-Filha-Amante que nos conduz no seu espaço, ao seu tempo. Ao seu templo. Ora rápido, ora lento. Compassado e preciso. Ou livre, em fluxo de caos e turbilhão.
Como co-criadores, temos que acompanhar o seu poderoso ritmo. Ouvir as suas deixas. Perceber os seus câmbios, por mais bruscos que sejam. «Keep it tight». A natureza não é uma madrasta gélida europeia que se casou com o nosso grande e solar pai, e nos inveja e odeia e nos pune por sermos, todos, os filhos de uma grande mãe fértil e generosa.
Porque o negro não descende da grande vaga de emigração que, há muitas luas e sóis atrás, deixou África na grande diáspora e apanhou, a meio caminho, com a idade do gelo, nos cornos de mamutes e tigres dentes-de-sabre e alourou os cabelos e empalideceu a melanina. E conheceu tanto e tanto e outra vez tanto a escassez que insultou e amaldiçoou a velha mãe por o abandonar e o grande pai por o rejeitar, e criou mitos dos jardins encantados de onde fora expulso, e de serpentes de conhecimento que o enganaram, e agora, como filho pródigo bastardo e cego e surdo e sem ritmo e sem swag, procura o caminha de volta à casa da música e da criação. Oh momma!
Um pouco de mi sustenido no momento certo e é ver Adeninas, Timinas, Citosinas e Guaninas a re-perfilarem-se, e criam-se novos homens e mulheres.
Miles Davis é obviamente deus, não Pai, mas todo-poderoso. Como criador, cavalga a grande serpente cósmica para modificar, improvisar, re-aflorar a humanidade. O caduceu do seu trompete percorre os filamentos de DNA. Um pouco de mi sustenido no momento certo e é ver Adeninas, Timinas, Citosinas e Guaninas a re-perfilarem-se, e criam-se novos homens e mulheres.
Deus reintroduz a coolness numa humanidade que era, há tanto tempo era profundamente uncool, tosca, desajeitada, encimesmada. Murcha. White man can’t dance. Or jump. Beat, swag, style, mood, tempo, tightness. Snap, snap, snap. Ohhhhh yeah! Dig that shit motherfucker. Há quem diga que com “Bitches Brew” Miles alia-se ao rock, mas isto é uma profunda distorção das verdades inscritas na pedra desde o início dos tempos. O Criador não forma alianças (nem mesmo com povos eleitos). O Criador cria. E desde que o seu exílio, ao sul da Carolina do Sul, acabou e que o grande faraó lhe deu a ordem de soltura (How long? Not long…), que o Criador cria música de criação nas terras da América, para a grande redenção da alma branca e maculada. Cria salmos, cria gospel, cria rhythm & blues, cria jazz. E cria rock ‘n’ roll.

Quando a energia da criação atinge um ponto de ebulição tão grande que já não pode ser contida num corpo vivente. Quando até um clone improvável do “super-homem” George Reeves, como é Bill Haley, tem de gritar: «Shake, rattle and roll»! Este é o grito de guerra da existência, de vórtices e de galáxias, de estrelas e cometas, desde o big bang ao big crunch. O Criador criava desde os campos de algodão da secessão que não “secedeu”, ao coração da grande maçã bichada. O Criador não descansa. O Criador é uma pura máquina de som e de foder. O Criador é o génio fora da garrafa a admirar a filigrana da mesma.
O Criador chama-se, na sua actual ascendente aceleração vertiginosa, Duke Ellington, Dizzy Gilespie, Max Roach, Charlie Parker. O Criador chama-se Miles Davis. E no caldeirão das bitches que bitcham e cozinham e fodem e preparam e rezam, ferve o rock e o jazz. Miles criou-os a ambos. Miles criou tudo. E disse que era bom!
O Criador é judeu e o seu grande nome sagrado é o Tetragrammaton, não pode ser pronunciado, mas escreve-se YHWH, e também se mudou para as Américas, porque o Criador é muita coisa, mas não é parvo nenhum, e sabe que o Oeste é o melhor e deve sempre procurar-se a abundância e evitar permanecer de forma masoquista em terras de muito frio e pouca fruta. E o Criador, sendo um bocado judeu, estava assim um bocado para o apoquentado com a sempre eterna madastra Europa, que ainda há bem pouco tempo o havia enxovalhado outra vez (pois tem medo da escassez e da própria sombra e nos odeia por sermos filhos de uma grande mãe, boa como o milho), perseguido e rapado o cabelo e tatuado coisas profundamente matemáticas, organizadas e chatas e uncool, na pele e o havia jogado em guetos, comboios, câmaras de gás e em fornos crematórios, quiçá para lhe tostar um pouco mais a pele.




Para isso mais-valia terem-Lhe pago um exílio nas praias preguiçosas e lemurentas de Madagáscar, que dava o mesmo efeito, mas era feito da forma mais prazenteira. Mas que o que realmente Lhe havia chateado era a acusação de não trabalhar. Trabalha, TRABALHA, T R A B A L H A. Tens muito! (E isso é mau, não ter necessidades? De trabalhar?) Oy Vey! O Criador é judeu e chama-se MATI Klarvein, mas resolveu acrescentar um Abdul como primeiro nome, pois o Criador é islâmico e Alá é o Seu nome e Maomé não será o Seu único profeta. Abdul Alah Mati Klarvein YHWH (som incompreensível ecoado pelo arcanjo Metraton semelhante a um solo de trompete da criação) é o profeta.
O Criador pinta não para ganhar a vida, pois esta não precisa de ser ganha, é nos dada de livre e generosa vontade, mas porque pintar é a força dinâmica da criação e o pintor é o avatar do criador. Klarvein descobre todo o fulgor do expressionismo pop, vindo na trilha da seda do surrealismo e do simbolismo. Descobre que dentro dele habitam os grandes deuses da criação e das origens. Os Teriomorfos que pulam na praia e na selva e nas pirâmides. Os deuses que o homem (negro) adorava (porque lhe dava gozo) em tempos primordiais, antes de Deus, quando vivíamos em fulgor e abundância no continente da origem, e uma grande mãe ebónica de seios fartos seria a imagem mais pictoricamente perfeita do nosso contentamento e do nosso eterno agradecimento pelo estarmos vivos.
Vivos.
O Criador são os criadores, pois este cenário é e sempre será uma co-criação pelo séculos dos séculos (Amén). E, quando o Criador encontra o Criador, o encontro será numa qualquer esquina no mundo e são lançados uma vénia e um sorriso cúmplice e realiza-se criação a dois. Miles e Abdul tem vindo a aproximar-se e a apropriarem-se do mesmo fulgor primordial, do mesmo fogo divino, seguindo por percursos e odisseias diferentes.
Mas eis que se pode criar, finalmente, a grande ode à nossa origem, à nossa infância, à nossa grande plenitude, da qual ainda todos nos recordamos e pela qual todos ansiamos e suspiramos. De onde brotam todos os nossos mitos e lendas. Toda a nossa Saudade. Bitches Brew. Witches brew. Cozinhado de putas. Sopa de bruxas. Something wicked this way comes.
O jazz, que sempre foi um grande soltar de amarras musical, a grande fuga improvisada rumo ao passado do futuro, vai descolar agora para o seu maior voo.
O jazz, que sempre foi um grande soltar de amarras musical, a grande fuga improvisada rumo ao passado do futuro, vai descolar agora para o seu maior voo. Para lá dos beats contagiantes de New Orleans, onde nasceu e ganhou corpo ainda no caldeirão das escravatura e no feitiço pantanoso e antigo do voodoo. Para além da, dolorosamente bela, “glacidão” fumarenta dos clubes de Nova Iorque. Rumo a grandes praias de areia branca que adouram ao sabor do tempo. Sem ensaio. Sem partitura. Com mestria e técnica, mas sem regras. Um cheiro de melodia. Algumas pistas de ambiente. Um estalar de dedos a marcar o temo. «Keep it tight». Com calma. Com concentração. Snap. Snap. Uhhhhh… Yeahh!
Rumo à origem. Rumo à corda sursum que vibra no DNA da serpente. A co-criação. O mundo agora como no início. Agora é o início. Olha o tempo. Olhem as pistas. Um navio negreiro que deixa um rastro de sangue e dor numa praia de areia vermelha. Que traz um homem (ou uma mulher), que gera uma mulher (ou um homem) Uhhhhhh. Assim, assim. Devagar. Que por mitoses e meioses sucessivas produz uma pele de ébano com uma voz que ainda não é áspera, pois ainda possui as cordas vocais intactas. Uma voz que ainda não é sua, mas já é Miles. Miles é o Xamã.
Alton Illinois. A mãe quer o piano. O pai o trompete. O pai prevalece. Sem vibrato. Um som redondo. Claro. Mesmo no meio. A partir deste O, o criador consegue criar qualquer coisa. Snap. Noutro tempo, um Templo cai pela segunda vez algures no oriente médio. O Criador sai em diáspora, visita e perde-se no mundo, e é perdido por este. E ressuscita ao fim de muitos dias, no coração da Alemanha do Lutero, que é muito branco e muito saxão e, principalmente, muito protestante e tem muito medo e muitas neuroses; e tem escassez e muito medo da sua própria sombra (pois não sabe que nós somos a nossa própria sombra) e quer que a gente trabalhe, trabalhe muito porque, pensa ele que, o Criador trabalha e que o trabalho liberta.
Mas a única verdadeira libertação é a dos campos de trabalho e de morte para as areias do oriente médio e para as Américas, onde Criador cria e pinta corpos (que sempre foram a sua pintura favorita). Corpos divinizados que se unem e fundem e brotam e se tornam um só. Very tigh now…The solo: Shhhhhhhhhhhhhh. Snap. Duas faces. O encontro. A cerimónia. O trabalho sagrado. O Criador encontra o Criador numa esquina, que se chama 1969, e o mundo arde em guerra e amor livre e êxtase lisérgico. É só cavalgar a onda, este ferro está quente para malhar. A natureza faz o trabalho em nós, pois esta é uma grande Mãe-Filha-Amante generosa a abundante. Nunca há escassez.
The creator runs the voodoo down.
Estamos livres.
Pode criar-se de muitas formas. Pode construir-se meticulosamente estruturas ordenadas seguindo regras apreendidas e muita precisas. Pode louvar-se a filigrana delicada das regras apreendidas e muito precisas. Pode-se atirar coisas ao ar e apreciar a grande a beleza das estruturas dinâmicas que elas fazem em pleno voo. Pode-se apreciar sobretudo o êxtase do seu estilhaçar no chão. Snap. Crash…
Texto de Carlos Garcia, ilustrador. Aqui reposto com gentil permissão do autor. Originalmente publicado na extinta versão digital da Arte Sonora.

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