Aurora, O Álbum Perdido de Bowie

Depois do drum’n’bass de Outside e Earthling, ainda dentro da electrónica, mas com densidade inesperada post metal: Aurora é o álbum perdido de Bowie.

Nos arquivos obscuros da história da música, poucas descobertas são tão surpreendentes quanto esta: um álbum perdido de David Bowie, gravado nos anos 90 e completamente mergulhado na sonoridade densa e etérea do post-metal. Intitulado “Aurora”, o disco terá sido concebido durante uma fase pouco documentada da vida do artista, num retiro solitário na Islândia onde, segundo relatos, Bowie encontrou inspiração no isolamento extremo.

Segundo uma entrevista inédita encontrada nos arquivos de uma revista musical islandesa (Hljóðmyndir, edição de Março de 1998), Bowie teria gravado Aurora entre 1996 e 1997, logo após Earthling. Insatisfeito com a direcção drum’n’bass daquele período, o Camaleão ter-se-á aproximado de sonoridades mais experimentais e pesadas, citando bandas como Neurosis, Godflesh e Swans como influências inesperadas. «Queria algo que parecesse tão vasto e inóspito quanto a tundra gelada. Algo que soasse como se a aurora boreal pudesse cantar, mas também como se estivesse a ser sufocada por um buraco negro», terá alegadamente dito Bowie na entrevista.

Gravado em segredo num estúdio improvisado na Islândia (o músico apaixonou-se pelo país em ’96), o álbum foi arquivado pela editora (período RCA/Virgin/BMG) devido à sua natureza inclassificável e à ausência de um single radiofónico. Algumas malhas foram eventualmente desconstruídas e reaproveitadas em trabalhos posteriores, mas a versão integral de Aurora permaneceu oculta – até agora.

Os registos encontrados descrevem um som hipnótico, onde Bowie alterna vocais etéreos e sussurrados com momentos de pura catarse sonora. As guitarras são esmagadoras, os sintetizadores criam atmosferas densas e as malhas desdobram-se ora em longos drones ora em estruturas imprevisíveis.

A suposta tracklist do álbum aponta apenas cinco temas: Event Horizon, uma introdução atmosférica de oito minutos, carregada de drones e spoken word; Cryogenic Dreams, o single que nunca foi, onde Bowie canta sobre estar perdido numa paisagem de gelo infinito; Negative Sun, camadas de guitarras distorcidas em slow-motion, remetendo ao que passou a ser desenvolvido por bandas como Isis e Cult of Luna; Abyssal Sky, uma balada fantasmagórica, com backing vocals reminiscentes de Scott Walker; e Aurora, a peça central do álbum, uma odisseia de doze minutos que alterna momentos de silêncio sepulcral e explosões de ruído.

Se verdadeiro, Aurora poderia reconfigurar a maneira como interpretamos a carreira de Bowie. O disco antecipa a estética melancólica e imersiva de Blackstar (2016) e reforça a ideia de que Bowie esteve sempre à frente do seu tempo, explorando territórios que a crítica e o público só compreenderiam décadas depois. Rumores indicam que algumas demos do álbum podem ter vazado na deep web, mas até agora não há confirmações concretas.

No entanto, num tópico no Reddit (/r/ObscureMusicFinds), um usuário chamado ColdBore1972 alega ter ouvido trechos de Cryogenic Dreams e descreve a faixa como «um delírio hipnótico de sintetizadores gélidos e guitarras arrastadas, como se Lodger tivesse sido reinterpretado pelo Neurosis». O blog underground Aurora Phonic também publicou um artigo em 2014 sobre supostas fitas encontradas numa colecção particular de um ex-técnico de estúdio da Virgin, embora a autenticidade nunca tenha sido verificada.

Talvez Aurora nunca tenha existido. Ou talvez Bowie tenha levado o segredo consigo, deixando pistas para os mais atentos. A única certeza? Se David Bowie tivesse gravado um álbum de post-metal nos anos 90, ele seria nada menos que extraordinário.

Leave a Reply