Na Pele da Terra

Na Pele da Terra, Mário Barreiros

Em Na Pele da Terra, entre a liberdade da improvisação, a subtileza da electrónica e uma reflexão sobre a fragilidade da vida no planeta, Mário Barreiros reúne Ricardo Toscano, Carlos Barretto e Leonardo Pinto num projecto que procura novas formas de diálogo musical.

Baterista, guitarrista, compositor e produtor, com uma intervenção decisiva em diferentes momentos da música portuguesa, Mário Barreiros regressa ao trabalho em nome próprio com Na Pele da Terra, um álbum que cruza jazz contemporâneo, improvisação e processamento electrónico em tempo real. Gravado ao vivo no Cine-Teatro de Estarreja, o disco reúne Ricardo Toscano no saxofone alto, Carlos Barretto no contrabaixo e Leonardo Pinto na electrónica e sound design. É um encontro de gerações e experiências que não procura simplesmente acrescentar tecnologia a uma formação de jazz: pretende transformar a própria relação entre os músicos e o espaço sonoro que constroem.

A ideia já habitava Barreiros há algum tempo. Na reflexão da sua Tese de Mestrado (disponível para leitura e download), o músico explica o interesse em combinar uma formação de jazz com processamento electrónico por computador, permitindo que efeitos como reverberação, delay, modulação, sampling e distorção tímbrica sejam manipulados durante a execução. A tecnologia deixa, assim, de ser um elemento aplicado posteriormente à música e passa a integrar o momento criativo. O som de um instrumento pode ser prolongado, transformado ou devolvido ao conjunto sob outra forma, abrindo possibilidades de resposta que desafiam a previsibilidade da improvisação.

É uma intenção que encontra em Leonardo Pinto um interlocutor particularmente importante. Responsável pela electrónica, Pinto assina também a composição de “Na Pele da Terra”, confirmando que a sua participação ultrapassa a função de manipular ou ornamentar o som dos restantes músicos. A electrónica tem uma presença discreta, mas essa contenção não diminui a sua importância. Pelo contrário, permite-lhe infiltrar-se na estrutura musical, acrescentando profundidade e textura sem competir constantemente com os instrumentos acústicos. O resultado é uma formação que preserva a liberdade do trio de jazz, mas passa a dispor de outras possibilidades de transformação e continuidade sonora.

O álbum abre com “Goal 14”, composição partilhada por Barreiros e Ricardo Toscano, cujo título remete para o objectivo da Agenda 2030 das Nações Unidas dedicado à protecção dos oceanos. O saxofone de Toscano estabelece o primeiro movimento, acompanhado por uma presença electrónica subtil, antes de o contrabaixo e a bateria introduzirem uma pulsação mais marcada. A partir daí, o saxofonista desenvolve uma intervenção expansiva, em permanente diálogo com o processamento digital, que chega a duplicar e prolongar as suas linhas. A composição oferece desde logo uma boa demonstração da dinâmica procurada pelo quarteto: a electrónica não interrompe o discurso acústico, antes o acompanha, modifica e amplia.

“Na Pele da Terra”, da autoria de Leonardo Pinto, desloca o centro de gravidade. A guitarra introduz o tema, enquanto o arco de Carlos Barretto estabelece uma estrutura de grande expressividade, sobre a qual se vão insinuando pequenas intervenções electrónicas. Quando entram a bateria e o saxofone, a música ganha intensidade e o quarteto desenvolve uma progressão em que a energia de Toscano se articula com a solidez rítmica e a riqueza tímbrica do conjunto. É um dos momentos em que a ideia de uma paisagem sonora ganha maior consistência: não por procurar reproduzir literalmente a natureza, mas pela forma como os diferentes elementos se sobrepõem, se transformam e encontram um equilíbrio próprio.

Em “Sol”, composição de Mário Barreiros, é novamente o arco de Barretto que abre caminho. A passagem para o pizzicato altera a textura do contrabaixo e prepara a entrada de uma pulsação rítmica mais inquieta. O saxofone junta-se ao movimento e o quarteto desenvolve uma interpretação que privilegia a fluidez e a interacção. Barretto confirma a importância da sua presença, não apenas pela consistência com que sustenta o conjunto, mas pela capacidade de fazer do contrabaixo uma voz activa na construção das composições. Barreiros, por seu lado, não se limita a assegurar a condução rítmica: a sua experiência como instrumentista e compositor permite-lhe trabalhar a dinâmica do grupo a partir de dentro, sem retirar espaço aos restantes músicos.

A fechar, “Naima”, de John Coltrane, introduz uma dimensão mais contemplativa. A interpretação começa com uma introdução sinuosa de Toscano, que progressivamente encontra a melodia e transforma a composição num espaço de liberdade. O saxofonista expande-se com imaginação, mas sem perder a ligação à identidade do tema. A escolha de Coltrane é particularmente feliz neste contexto: a tradição não surge como um repertório a preservar intacto, mas como matéria viva, capaz de dialogar com outras sensibilidades e possibilidades sonoras. A composição mantém a sua força melódica e emocional, encontrando no quarteto uma leitura que respeita a sua arquitectura sem abdicar da exploração individual.

A gravação ao vivo de Nelson Carvalho contribui para a identidade do álbum. A presença da sala e dos aplausos não é um pormenor documental: ajuda a preservar a dimensão física da execução e a energia que nasce da interacção entre os músicos. É também particularmente feliz a forma como fica registada a intervenção de Ricardo Toscano, cujo saxofone encontra aqui espaço para revelar toda a sua amplitude, entre a intensidade, a imaginação e a capacidade de regressar ao eixo melódico das composições. Carlos Barretto oferece uma base de enorme solidez, enquanto Leonardo Pinto trabalha a electrónica com uma subtileza que evita transformar o processamento digital num exercício de exibição tecnológica.

Na Pele da Terra, Do Micro ao Macro

A reflexão conceptual de Na Pele da Terra prolonga uma preocupação já presente em Dois Quartetos sobre o Mar, editado em 2022. Se nesse trabalho Barreiros dirigia a atenção para a preservação dos oceanos, agora alarga a perspectiva à fragilidade da vida terrestre. A partir da observação da Terra à escala do Cosmos, o músico recorda que toda a vida que conhecemos depende de uma camada extraordinariamente fina e vulnerável. A pequenez da existência humana perante a dimensão do Universo não deve servir de justificação para a indiferença, mas antes reforçar a responsabilidade individual e colectiva perante o ecossistema que sustenta a nossa passagem.

É uma reflexão que dá contexto à música sem a aprisionar numa função ilustrativa. A convivência entre o acústico e o digital pode ser entendida como uma forma de explorar diferentes estados e relações, de aceitar a transformação como parte integrante da criação. Barreiros não procura provar que a electrónica pode substituir ou superar a tradição do jazz. Em Na Pele da Terra, de modo quase filosófico, interessa-lhe perceber o que acontece quando ambas deixam de ser entendidas como territórios separados.

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