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Neurosis, O Poder de um Sol Perpétuo

Em 2016, os Neurosis celebraram três décadas de carreira no Amplifest, num concerto poderoso, triunfal e com um som arrasador. Recordamos o concerto e o rig dos californianos.

Nada do que soubéssemos por antecipação nos podia ter preparado para a dimensão “gargantuesca” do concerto de Neurosis no Amplifest 2016, naquele que foi, possivelmente, o ponto mais alto da história do festival. Especialmente porque a banda soou com um tamanho sonoro de poder incomparável ao que está registado na sua discografia. Com o seu paredão de som mais usual em palco, embora Steve Von Till tenha usado preferencialmente um modelo tipo Telecaster da Warmoth, o som da sala 1 do Hard Club tornou-se num dos melhores que já ouvimos ao vivo.

Com uma setlist a ilustrar sucintamente as três décadas de carreira, o concerto, passe o cliché, passou a correr. Demolidor, arrasador, perfeito, desde o início com a evocação de “Times Of Grace” ao final sob um épico sol “que não se põe”, através do tema “Stones From The Sky”. Perfeito pela tradução musical de brutalidade e desespero, sentimentos avassaladores, principalmente nos momentos em que Dave Edwardson emprestava o seu poder vocal aos temas. Os Neurosis foram capaz de disfarçar alguns condicionalismos, tão naturais como a perda de pujança derivada da idade (algo mais notório, quiçá, em Jason Roeder) , através de uma actuação tão cerebral quanto passional, como a ferocidade da actuação de Noah Landis tão bem exemplificou. E depois, a banda esteve sublime naquele que é um dos seus maiores predicados: na forma como consegue sustentar momentos de tensão, dando-lhes uma ilusão de perpetuação.

No final, com um concerto gravado na memória com o fogo de válvulas, a estreia da banda em Portugal, perante uma sala esgotada, compensou largamente uma espera tão longa.

steve von till

Os Neurosis são «o exemplo de uma banda que descobriu como quer soar. Quando chegam a estúdio, basicamente, executam esse plano. Possuem uma vasta colecção de equipamento que tornaram à prova de erros e apto para a estrada, para que onde quer que vão o montem e soe exactamente como querem». O mega guru Steve Albini descreve assim o carácter sonoro dos californianos, erguido através de minúcia, acrescenta: «Possuem um conjunto de bateria bastante específico, setup de teclados e sampler bastante específico e amps e unidades de efeitos bastante específicos, com os circuitos ligados de forma “particular”. Quer dizer, a guitarra de Steve Von Till não tem sequer um comutador de pickup, porque tem o circuito conjugado com a sua unidade de switch, que usa para alternar entre os seus diferentes sons. É um sistema integrado, portanto. Não podes ligar a sua guitarra a um amplificador de guitarra normal, tem que ser no seu setup».

Em 2001, Albini referia-se ao setup que, tendo gravado “A Sun That Never Sets”, evoluiu até ser alcunhado por “Chain Of Death”, já depois das gravações dos seguintes “The Eye Of Every Storm” e “Given To The Rising”. A guitarra Warmoth (tipo Strat) usava pickups Seymour Duncan Distortion (ponte) e Bartolini (braço), sendo ligada a um MXR Phaser e um Blue Box, para passar por um Moogerfooger MF-101, a filtrar as frequências graves e um MF-102 Ring Modulator. Depois surge um Uni-Vibe e um POG e o pedal wah-wah, antes do sinal seguir para um ProCo Rat e um EHX Bass Micro Synthesizer.

A pedalboard terá continuado a evoluir (com a troca ou o acréscimo de algumas unidades) até “Honor Found In Decays” e ao recente “Fires Within Fires”, que a banda veio promover no Amplifest 2016, mas a amplificação permanece igual. Steve Von Till usa a conjugação de um Fender Twind Reverb (a reedição de 2005) com um poderoso Mesa/Boogie Mark IV. Esse foi o rig usado no Hard Club para amplificar a Warmoth Strat preta, de ponte fixa (na foto).

scott kelly

Já Scott Kelly usa uma Gibson Les Paul Studio, de 1993, cuja única modificação é um Seymour Duncan Distortion no circuito. É Steve von Till que, falando de “Given To The Rising”, descrevia, em 2007, à Guitar Player, a forma como os guitarristas criam o seu colossal som conjunto: «Experimentamos harmonias, dissoâncias, feedback e sujidade, andando para trás e para diante para perceber quanta tensão conseguimos criar. O Scott mantém uma afinação drop-D e, recorrentemente, baixa o Mi mais grave para Lá. Eu uso DADGAD, excepto nas canções com a tónica em Lá, onde baixo o Ré mais grave para um Lá e tenho uma oitava de Lá com as duas cordas mais graves». Os músicos usam conjuntos de cordas personalizados, com a espessura entre .011 e .058.

mesa boogie mark iv
mesa boogie dual rectifier

Steve Von Till e Scott Kelly usarão os modelos Mark IV e Dual Rectifier da Mesa Boogie, além de combos Twin Reverb.

Steve Von Till e Scott Kelly usaram no Amplifest os modelos Mark IV e Dual Rectifier da Mesa Boogie, além de combos Twin Reverb.

Scott Kelly, tipicamente, usa menos efeitos a processar o seu som. Além de um delay leve, usado constantemente, o guitarrista usa unidades MXR de Flanger, Blue Box também e Phaser. O rig é que, sendo simples, tem sofrido mais alterações, se em “Given To The Rising” Kelly usava um clássico JCM 800, com colunas custom EarCandy, a Marshall deu lugar à Orange e ao poderoso Thunderverb 200, com colunas PPC412HP8 – monstros com 4 altifalantes Celestion G12K100 de 100 watts. Todavia, no Hardclub, o rig será similar ao do colega: um Fender Twin Reverb e um Mesa/Boogie, no seu caso uma unidade Dual Rectifier.

dave edwardson

A ensemble de cordas completa-se com Dave Edwardson. O baixista usa um Ibanez Roadstar II, mas o braço é de um SR885. A afinação segue o drop-D das guitarras. A amplificação que o músico usa, quase invariavelmente, estará a acompanhá-lo no Amplifest – uma cabeça Ampeg SVT com o “frigorífico” 8×10. O processamento do seu som é algo complexo e muda constantemente. Unidades da Boss como o RRV-10, DD-6 Digital Delay, CH-2 Super Chorus e CE-2 Chorus, o MXR Bass Fuzz Classic, além dos Fuzzrocious Grey Stache e Rat Tail. A avaliar por fotografias disponíveis da sua pedaboard em 2012, o baixista usa ainda unidades modificadas de Phaser e Compressor, tal como loopers.

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Nero2021/08/162021/08/21amplificador, dave edwardson, neurosis, pedais, post metal, rig rundown, scott kelly, steve albini, steve von till, stompbox

3 pensamentos sobre “Neurosis, O Poder de um Sol Perpétuo”

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