Um dos propulsionadores do sludge caiforniano, ao lado dos Neurosis, em 1995 os Noothgrush assumiram descaradamente a sua devoção a Star Wars, na demo “Kashyyyk”.
«’Kashyyyk’ foi originalmente lançada no final de 1995. Cada cópia foi gravada numa cassete, quase nunca nova. Encontrávamos caixas de cassetes em feiras da ladra e gravávamos a demo num dos lados. Nunca sabíamos o que estava no outro lado. A colagem na capa evoluiu ao longo do tempo. As primeiras cópias tinham uma capa esparsa e as cópias posteriores tinham uma capa com colagens. O texto também mudou com o tempo. Foram feitas edições, a lista de agradecimentos aumentou e o endereço mudou.
O texto deste relançamento [2024] é o mesmo das últimas cópias feitas nos anos 90, com apenas pequenas alterações. Três destas canções foram gravadas em Agosto de 1995 e originalmente lançadas como a demo ‘8D8’. Fizemos um número desconhecido de cópias antes de gravarmos novamente com o Matt na guitarra. Adicionámos as nossas três novas canções às antigas e demos à demo o nome do planeta natal do Chewbacca».
Os Noothgrush emergiram das cinzas fumegantes da Bay Area de São Francisco, Califórnia, no início dos anos 90. Pensa numa época onde o grunge ainda ecoava, mas uma corrente subterrânea mais pesada e visceral começava a borbulhar. Eles eram parte dessa onda, com bandas como Neurosis e Eyehategod, explorando as profundezas do som lento, pesado e ‘desesperançoso’. A formação original contava com Gary Niederhoff no baixo e nas vozes, Chiyo Nukaga (Graves At Sea) na bateria e Matt Harvey (Exhumed) nas guitarras. Essa mistura de mentes barulhentas e talentos sombrios lançou as bases para o som característico da banda.
A discografia dos Noothgrush, embora não seja extensa, é um testemunho da sua intensidade e visão singular, um manifesto de sludge rastejante e vozes guturais que anuncia com pompa e circunstância a sua sonoridade opressiva. Depstaca-se a série de splits: com Caroliner Rainbow (1996, Man’s Ruin Records), com Deadguy (1996, Relapse Records) e, talvez o mais marcante, com Corrupted (1997, HG Fact), numa parceria transcontinental com os mestres japoneses do doom/sludge, um encontro de pesos pesados da lentidão. Mas há muitos mais.
Agora, situando “Kashyyyk” nesse contexto, é crucial entender que esta não é uma gravação de estúdio formal dos Noothgrush, mas sim uma demo que oferece um vislumbre cru e despojado do processo criativo da banda. Sem sombra de dúvida, captura uma faceta mais bruta e talvez até mais visceral dos Noothgrush. A qualidade de produção pode ser menos polida, mas essa mesma imperfeição contribui para uma atmosfera sombria e claustrofóbica. E, no meio de tudo isto, imaginem que são um chavalito de 17 ou 18 anos quando, um par de anos mais tarde, nos meandros do mIRC, descobrem que há outros nerds de Star Wars a fazer bujardas destas.
É interessante como a “Marcha Imperial” reconfigura a experiência com o álbum. Essa mudança de perspectiva é fundamental para apreciar a jornada que os Noothgrush nos propõem. A agonia visceral é um dos pilares da sonoridade deles, e em mmalhas como “Gage”, atinge um pico de intensidade brutal. A dualidade vocal na malha bónus estabelece uma encruzilhada auditiva, tentando discernir qual das interpretações vocais ressoa mais com a nossa própria angústia interior. Ambos os vocalistas oferecem uma interpretação crua e apaixonada, gritando as suas verdades distorcidas a plenos pulmões.
Quanto à instrumentação, que mais poderia ser? Os riffs lentos e densos criam essa atmosfera opressiva e pantanosa dos Noothgrush, servindo como a paisagem sonora perfeita para a narrativa sombria de ficção científica que permeia a demo. Embora os instrumentais possam não ser tecnicamente virtuosos ou particularmente inovadores, cumprem o seu papel de estabelecer um ambiente carregado e claustrofóbico, um lodo que engole qualquer esperança.
A forma como os Noothgrush entrelaçam referências obscuras de Star Wars com um sofrimento pessoal tão intenso é verdadeiramente fascinante. Essa justaposição inesperada cria uma camada de profundidade surpreendente. Conseguimos vislumbrar a dor e a frustração por trás da máscara icónica de Darth Vader. Versos como «DECAYED MILK RUNS THROUGH MY VEINS, ROTTING CELLS. REALITY NEGATIVE(…) I BECOME DESTROYED» são de uma visceralidade poética peculiar, no mínimo.
A revelação de que o trabalho é quase inteiramente dedicado a temas de Star Wars, e não a comentários políticos óbvios, é uma reviravolta interessante que nos convida a reconsiderar a forma como interpretamos a angústia expressa. «HARMLESSNESS = LIFE IN A CAGE FREEDOM, INNOCENCE PUNISHED FOR BEING ALIVE» ecoa uma sensação de injustiça cósmica, perfeitamente alinhada com o universo Star Wars, mas também ressoando em níveis existenciais mais amplos.
No final das contas, “Kashyyyk” é instrumentalmente sólido, mesmo que não seja revolucionário. No entanto, o conceito, a atmosfera densa e, acima de tudo, os gritos lancinantes vindos de uma galáxia muito, muito distante, elevam este trabalho dos Noothgrush a algo mais do que apenas sludge. É uma imersão num universo de dor e desespero, onde a fantasia se encontra com a angústia de uma forma surpreendentemente cativante.
