A actuação de 15 de Agosto, em França, foi publicada em vídeo profissional pelo canal Impuls’ Live. O registo permite observar a formação liderada por Jeff Loomis e Van Williams em grande forma e num repertório que atravessa diferentes fases da discografia, enquanto os Nevermore trabalham no seu próximo álbum.
Os NEVERMORE disponibilizaram o registo integral da sua actuação no Motocultor Festival, em Carhaix-Plouguer, França, realizada a 15 de Agosto de 2026. O concerto, filmado profissionalmente e publicado pelo canal Impuls’ Live, oferece cerca de 54 minutos de música, num documento particularmente interessante para acompanhar a evolução da formação que devolveu a banda aos palcos.
Mais do que uma oportunidade para rever temas fundamentais da discografia dos Nevermore, o vídeo permite observar a dinâmica de um grupo que procura recuperar o seu repertório sem ficar prisioneiro dele. Com Jeff Loomis na guitarra e Van Williams na bateria, os dois membros fundadores são acompanhados por Jack Cattoi na segunda guitarra, Semir Özerkan no baixo e Berzan Önen na voz. É esta formação que está a dar corpo à nova etapa dos Nevermore, depois de um prolongado período de afastamento.
O alinhamento apresentado no Motocultor percorre diferentes momentos da história do grupo, com nove temas: “My Acid Words”, “Inside Four Walls”, “Engines Of Hate”, “This Godless Endeavour”, “The Heart Collector”, “Born”, “Narcosynthesis”, “The River Dragon Has Come” e “Enemies Of Reality”. Entre a agressividade rítmica de “Narcosynthesis”, a dimensão dramática de “The Heart Collector” e a complexidade de “This Godless Endeavour”, o repertório evidencia a amplitude de uma discografia que nunca se limitou a uma única fórmula de metal progressivo.
A presença de Berzan Önen continua a ser um dos elementos centrais desta nova formação. Substituir Warrel Dane, falecido em 2017, implica assumir um repertório cuja identidade está profundamente ligada à voz e à interpretação do antigo vocalista. A questão não se resume, porém, à reprodução de um estilo inconfundível: passa também pela capacidade de transmitir a tensão emocional que atravessa estas canções, sem transformar cada concerto num exercício de imitação.
Jeff Loomis recordou o impacto que a audição de Berzan teve no processo de escolha do novo vocalista. O guitarrista destacou a emoção e a paixão que reconheceu desde o primeiro contacto com a sua interpretação, sublinhando que Önen não se limitava a cumprir mecanicamente as canções. Loomis percebeu também, pela forma como articulava determinadas palavras, que o vocalista conhecia profundamente o trabalho de Warrel Dane. Essa familiaridade terá sido importante para estabelecer uma ligação ao passado, sem impedir que a actual formação encontre a sua própria identidade.
Formados na sequência do percurso dos Sanctuary, os Nevermore construíram uma identidade própria a partir do álbum homónimo de 1995, consolidando-a em trabalhos como Dead Heart In A Dead World e This Godless Endeavour. A combinação entre precisão técnica, estruturas complexas, peso e uma abordagem vocal invulgar ajudou a distinguir a banda numa época em que o metal progressivo procurava expandir os limites da composição sem abdicar da intensidade.
A história do grupo foi também marcada pela passagem de vários músicos que contribuíram para a evolução do seu som, entre eles os guitarristas Tim Calvert, Steve Smyth, Pat O’Brien e Chris Broderick. O baixista Jim Sheppard foi igualmente uma presença determinante durante os anos que definiram a identidade dos Nevermore. Depois da separação, Loomis prosseguiu uma carreira que incluiu dois álbuns a solo — Zero Order Phase e Plains Of Oblivion —, o projecto Conquering Dystopia e quase uma década nos Arch Enemy, com participação em Will To Power e Deceivers. Van Williams manteve-se activo em projectos como Ashes Of Ares e Ghost Ship Octavius.
O regresso dos Nevermore não apaga esse percurso nem a ausência de Warrel Dane. A publicação de um concerto completo como o do Motocultor permite, antes, observar como a formação actual aborda o repertório e mantém viva uma obra que continua a exigir muito dos músicos que a interpretam.
Música Nova & Mais Digressões
O próximo passo passa por material inédito. A banda confirmou que está a trabalhar num novo álbum, embora não tenha anunciado uma data de lançamento. Van Williams descreveu o processo como algo que vinha a amadurecer há algum tempo e que começou agora a ganhar forma concreta: «Tem estado a fermentar há bastante tempo e começou finalmente a manifestar-se no presente. Que melhor altura para pôr as coisas em marcha do que agora?» O trabalho em novas composições acrescenta, assim, uma dimensão decisiva ao regresso: a possibilidade de os Nevermore voltarem a ser uma banda em actividade criativa, e não apenas a reactivação de um legado.
O vídeo do Motocultor constitui um registo concreto desta transição. Mostra uma formação ainda a escrever o seu próximo capítulo, mas já capaz de levar ao palco um repertório exigente, construído ao longo de várias décadas. Para quem acompanha a história dos Nevermore, vale sobretudo pela oportunidade de observar este novo alinhamento em acção e de ouvir novamente as canções num contexto que não depende apenas da memória.
A banda regressará à Europa na Primavera de 2027 para a Liminal Spaces European Tour, cuja passagem por Lisboa a 22 de Maio, na República da Música, com Rivers Of Nihil e URNE, oportunamente anunciada pela ROMA INVERSA. Até lá, o concerto agora disponibilizado oferece uma amostra da formação que continuará a levar este repertório aos palcos — enquanto prepara o que poderá vir depois.
