Sem prazos nem pressão, Tony Iommi começou por imaginar um álbum instrumental antes de decidir trabalhar com Jørn Lande. O guitarrista dos Black Sabbath explica o processo criativo de From The Dark, o seu primeiro disco a solo em mais de duas décadas.
Passaram-se 21 anos desde Fused, o último álbum a solo de Tony Iommi, mas o guitarrista dos Black Sabbath não estava propriamente à espera de uma oportunidade para voltar a gravar. Estava, simplesmente, ocupado. Entre o trabalho com os Sabbath e outros projectos, a ideia foi amadurecendo até que decidiu voltar a dedicar-se a um disco em nome próprio.
O resultado chama-se From The Dark, edição a 23 de Outubro, através da BMG (em formato digital, CD e vinil duplo a 45 rotações, incluindo edições especiais e uma versão deluxe em CD com um livro de 32 páginas e duas faixas bónus), com Jørn Lande na voz, Becky Baldwin no baixo e Karl Brazil na bateria.
Numa entrevista com Brent Porche, da estação de rádio norte-americana 93.3 WMMR, Iommi falou sobre a origem do álbum, o processo de composição e a relação criativa com Lande. Mais do que uma tentativa de recuperar o tempo perdido desde Fused, From The Dark nasceu de uma circunstância que o guitarrista sublinha várias vezes: desta vez, não havia prazos apertados, compromissos de digressão ou a pressão de ter de terminar um disco dentro de um calendário previamente definido.
Questionado sobre quando começou a tomar forma a ideia de um novo álbum a solo, Iommi respondeu: «Bem, tenho estado ocupado a fazer muitas outras coisas, claro, quando estávamos a trabalhar nos Sabbath, e também fiz alguns outros projectos. Por isso, pensei: bom, sim, seria bom fazer outro álbum a solo. Já passaram 21 anos. [Risos.] Portanto, sim, gostei de o fazer e levei o meu tempo».
«Quando fazemos um álbum dos Sabbath, temos sempre um determinado prazo para o fazer, depois é preciso gravá-lo e, a seguir, vamos para a estrada. Neste caso, não há pressão. Tenho podido fazê-lo quando quero. Tenho o meu próprio estúdio aqui [em casa]. Por isso, basta vir até cá e começar a trabalhar nas ideias», conclui.
A diferença em relação ao funcionamento de uma banda com a dimensão histórica dos Black Sabbath é significativa. Em vez de organizar a criação em função das exigências de uma gravação e de uma digressão subsequente, Iommi pôde trabalhar de forma mais intuitiva, regressando às composições quando sentia que havia algo a desenvolver. Essa liberdade foi particularmente importante porque From The Dark nem sequer começou por ser o álbum que acabou por se tornar.
Jørn Lande
O plano inicial era fazer um disco instrumental. Iommi chegou a desenvolver quatro ou cinco peças sem voz, mas acabou por sentir que queria explorar outra direcção. A decisão de introduzir um vocalista alterou a natureza do projecto e levou-o a começar a escrever riffs pensados especificamente para uma voz. Foi nesse processo que Jørn Lande se tornou a escolha natural. O cantor norueguês, conhecido pelo trabalho com os Masterplan e pela sua carreira no heavy metal e no hard rock, não era um desconhecido para Iommi. Os dois já se tinham cruzado numa homenagem a Ronnie James Dio, em Londres, na qual Lande interpretou temas dos Black Sabbath, acompanhado por músicos como Glenn Hughes.
Questionado sobre o que continuava a atraí-lo na voz do cantor, Iommi explicou: «Bem, o Jørn fez algum trabalho connosco na homenagem a [Ronnie James] Dio. Depois de o Ronnie morrer, fizemos uma homenagem ao Dio em Londres. E tivemos o Jørn a cantar duas ou três canções dos Sabbath, assim como Glenn Hughes. Por isso, gosto da voz do Jørn. Também é uma pessoa simpática — damo-nos bem. E pareceu-me a escolha ideal. A voz dele combina, de certa forma, com aquilo que eu toco, e gosto dessa ideia».
A escolha não se resume, portanto, à admiração por uma voz capaz de acompanhar a dimensão dos riffs de Iommi. Há também uma compatibilidade musical e pessoal que facilita o trabalho em conjunto. Lande partilha os créditos de composição de todas as canções de From The Dark e é responsável pelas letras, enquanto a música nasceu das ideias desenvolvidas pelo guitarrista.
A combinação permite que o álbum mantenha a guitarra no centro da sua identidade, mas lhe dê uma presença vocal constante, em vez de recorrer ao modelo de convidados diferentes que marcou Iommi, o primeiro álbum a solo do músico, editado em 2000. A colaboração não implicou, contudo, que as composições fossem entregues ao vocalista já fechadas. Iommi descreve um processo em que as ideias iniciais funcionavam como matéria em aberto, sujeita a alterações à medida que ambos trabalhavam nelas.
Quando lhe perguntaram se a abordagem à composição tinha mudado ao longo dos anos, respondeu: «Bem, acho que é mais ou menos a mesma forma como sempre escrevi. Ponho as ideias no papel e, depois, quando trouxemos o Jørn, porque ele vive na Suécia, voámo-lo até cá e mostrámos-lhe algumas das ideias. Depois fomos ajustando-as à medida que avançávamos. Posso mudar a parte da estrofe ou podemos acrescentar uma nova parte para o refrão. Foi a mesma coisa que fiz em tudo o que gravei no passado. A mesma ideia».





É uma descrição simples, mas esclarecedora do método de Iommi: os riffs são o ponto de partida, não necessariamente uma estrutura definitiva. A presença de um vocalista altera a forma como as secções se relacionam, como a música respira e como se constrói o refrão. Em vez de impor uma fórmula rígida às composições, o guitarrista trabalha sobre elas até encontrar a forma que melhor serve a canção. A experiência acumulada não elimina essa abertura à mudança; torna-a parte natural do processo.
O Tempo Como Ferramenta de Composição
A liberdade de trabalhar sem uma data-limite foi igualmente importante para a própria génese de From The Dark. O projecto começou com a ideia de um álbum instrumental, mas só ganhou a sua forma definitiva quando Iommi decidiu que queria trabalhar com um vocalista. Ao contrário do que acontece numa produção sujeita a prazos apertados, não teve de abandonar as primeiras ideias nem de escolher imediatamente entre diferentes caminhos.
O guitarrista explicou como tudo começou e como organizou o trabalho com Mike Exeter, o seu colaborador de longa data, com quem divide a produção do álbum: «Bem, a forma como isto começou, na realidade, foi eu ter começado a fazer uma peça instrumental. Ia fazer um álbum instrumental, por isso preparei cerca de quatro ou cinco faixas instrumentais. Depois pensei: “Oh, não sei. Acho que gostava de fazer um álbum com um vocalista.” Por isso, pus essas faixas de lado e comecei a escrever riffs para um vocalista. E foi assim que tudo começou, mais ou menos. Depois foi avançando».
«A coisa boa deste álbum é que não houve pressão. Não tive de sair em digressão. Não tive de o terminar até determinada data. Por isso, pude levar o meu tempo e conviver com algumas das ideias. O que fazia era dizer ao Mike Exeter, que trabalha comigo há uns 30 anos: “Vamos trabalhar à segunda e à terça-feira”, porque ele também está, obviamente, a produzir outras coisas», acrescenta.
«Por isso, reservávamos sempre a segunda e a terça-feira de cada semana e, se surgisse alguma coisa, não trabalhávamos, caso ele ou eu estivéssemos ocupados ou a fazer outra coisa. Íamos ajustando o trabalho à disponibilidade de cada um e depois entrávamos no estúdio e começávamos a desenvolver as ideias. Foi tudo muito descontraído», conclui Iommi.
Mike Exeter, que acompanha Iommi há cerca de três décadas, desempenha aqui um papel que ultrapassa a simples função técnica. A relação de confiança entre ambos permite que o trabalho tivesse avançado sem a necessidade de transformar cada sessão numa etapa obrigatória de um calendário de produção. As ideias podem amadurecer, ser revistas ou ficar temporariamente de lado, sem que isso comprometa o processo. Para um músico cuja obra está tão associada a riffs imediatamente reconhecíveis, esta disponibilidade para regressar ao material e alterá-lo é uma parte importante da composição.
O título do álbum nasceu também da atmosfera das canções. Iommi ficou responsável pela música, enquanto Lande escreveu as letras, e From The Dark acabou por lhe parecer uma designação adequada ao universo que ambos estavam a construir. «É realmente o ambiente do álbum», explicou o guitarrista. «O Jørn ficou responsável por toda a parte das letras. Eu tinha feito a música. Mas From The Dark pareceu-me um título apropriado para o álbum».
World Alone & Stormwatcher
Os dois singles já divulgados permitem começar a perceber como essa colaboração se traduz em música. “World Alone”, lançado a 29 de Julho, foi o primeiro avanço de From The Dark. A canção assenta num riff pesado e incisivo, sustentado por uma secção rítmica vigorosa, enquanto Jørn Lande assume a melodia com uma interpretação poderosa, de dimensão quase operática. A guitarra de Iommi mantém-se no centro da composição, mas a presença vocal dá-lhe uma direcção mais próxima do hard rock e do heavy metal melódico.
O vídeo acompanha a canção com uma narrativa de ficção científica, num cenário retrofuturista e distópico em que a personagem central, The Believer, é lançada para um jogo perverso, no qual precisa de sobreviver e encontrar uma forma de salvação. O imaginário visual reforça a dimensão dramática do tema e afasta-o da nostalgia directa, mesmo quando a música recupera elementos familiares do vocabulário de Iommi.
“Stormwatcher”, lançado em Setembro, explora uma vertente mais sombria e cinematográfica. O riff assume um carácter ameaçador, enquanto a interpretação de Lande transforma a imagem de um navio em plena tempestade numa metáfora para a travessia da vida, a incerteza e a resistência perante aquilo que não conseguimos controlar. O vídeo animado prolonga essa atmosfera marítima, acompanhando uma canção que privilegia o dramatismo e a construção de tensão.
Os dois singles mostram facetas complementares do álbum: “World Alone” privilegia a energia directa e a afirmação vocal; “Stormwatcher” dá mais espaço à atmosfera e ao desenvolvimento dramático. Em ambos, a guitarra de Iommi continua a ser o eixo em torno do qual a composição se organiza, mas é a presença constante de Lande que permite transformar as ideias instrumentais iniciais num disco com uma identidade própria.
O regresso a solo acontece depois de um período particularmente significativo para Iommi, marcado pela despedida dos Black Sabbath dos palcos em Back To The Beginning, em Birmingham, em Julho de 2025. Mas, nas palavras do guitarrista, From The Dark não nasceu da necessidade de prolongar essa despedida nem de preencher um vazio deixado pela banda. Nasceu porque quis voltar a gravar, porque tinha ideias para desenvolver e porque, desta vez, podia fazê-lo sem pressa.
A história dos Black Sabbath é inseparável da guitarra de Iommi, mas o seu percurso a solo permite observar outras possibilidades dentro da mesma linguagem musical. A ROMA INVERSA abordou essa dimensão em IOMMI & Fused, revisitando os dois álbuns anteriores e a forma como o guitarrista experimentou diferentes vozes e ambientes. Com From The Dark, 21 anos depois, Iommi regressa a esse território sem a obrigação de repetir o que já fez. Desta vez, teve tempo para começar por uma ideia, mudar de direcção e descobrir, com Jørn Lande e Mike Exeter, aquilo em que o álbum se poderia transformar.
