Iommi

IOMMI & Fused

Criminalmente subvalorizados, os dois álbuns solo de Tony Iommi, no início do segundo milénio, são dois fulgurantes exercícios de peso e groove da “Mão do Doom”, o grande génio do heavy metal.

“Iommi”, lançado em 2000, foi um marco significativo na carreira de Tony Iommi, o lendário guitarrista dos Black Sabbath. Os titãs de Birmingham cavalgavam uma nova era de reconhecimento, com a presença em algumas edições do Ozzfest, uma digressão com os Pantera e os emblemáticos concertos “Reunion”, na sua cidade natal, que acabariam por ter uma poderosa edição discográfica. Então, este álbum de estreia a solo não só mostrou o talento excepcional de Iommi como músico, mas também lhe permitiu explorar novos territórios musicais, em alguns casos, além dos limites habituais do heavy metal.

De facto, “Iommi” apresenta uma gama diversificada de estilos musicais, reflectindo a vontade de Iommi em forçar as fronteiras a que muitos o delimitavam (e muitos outros o delimitam ainda). O álbum inclui colaborações com uma variedade de artistas, mostrando a versatilidade de Iommi como músico e a sua capacidade de se adaptar a diferentes ambientes musicais. Faixas como “Laughing Man (In The Devil Mask)” e “Goodbye Lament” exemplificam o som de guitarra caraterístico de Iommi, riffs para lá de pesados, enquanto músicas como “Meat” e “Black Oblivion”, por exemplo, exploram elementos mais experimentais e progressivos.

O processo de gravação de “Iommi” foi um esforço de colaboração, com Iommi a trabalhar de perto com uma lista impressionante de músicos convidados, incluindo Phil Anselmo, Henry Rollins, Peter Steele, Dave Grohl e Billy Corgan, entre outros. Esta abordagem permitiu a Iommi inspirar-se numa gama diversificada de influências musicais, resultando num álbum que desafia uma categorização fácil. A qualidade da produção de “Iommi” é de alto nível, , sempre com a nova era do high gain como revestimento sónico, graças em parte às contribuições de produtores de renome como Bob Marlette e Matt Chidgey, que ajudaram a dar vida à visão de Iommi.

Sumarizando cada uma das malhas, “Laughing Man (In The Devil Mask)” arranca o disco com um poderoso riff e um groove vicioso. A intensidade vocal de Henry Rollins acrescenta uma tremenda crudeza energética à canção, onde se percebe o estilo de assinatura de Iommi e a sua vontade em revitalizá-la. Dizer que esta malha estabelece a toada do álbum é um understatement!

E logo de seguida, duas malhas favoritas nestas latitudes: “Meat” e “Goodbye Lament”. Formam um arco de negrume industrial e de enorme densidade e peso sónico. Na primeira delas, a dinâmica vocal de Skin faz acrescer um sentido de agressão e urgência que redimensionam o lisérgico som de guitarra. Na segunda, a voz e, principalmente, a inconfundível batida de Dave Grohl emprestam um poder visceral a uma malha de maior abertura melódica e alcance emocional.

“Time Is Mine”, com Phil Anselmo, remete-nos para a gloriosa era de “Master Of Reality”, com um riff esmagador e uma atmosfera sombria. Anselmo gravou três malhas com Iommi, apesar de só esta ter surgido no corte final, e é fácil perceber porque tinha criado dos Down, anos antes. Por puro fanatismo devocional aos Sabbath. “Patterns” também assenta numa base que parece extraída aos Sabbath da década de 70, todavia o amplo espectro vocal de Serj Tankian e o seu exotismo estético balcânico redimensionam emocionalmente a malha, acrescentando camadas melódicas sob a textura sónica. É outro dos momentos maiores do álbum.

Em “Black Oblivion”, ao lado de Billy Corgan, Iommi torna a socorrer-se do seu percurso nos Black Sabbath, mas desta feita na era mais hard rocker dos anos 80, ao lado de Tony Martin e Cozy Powell, com mais texturas de sintetização para uma aproximação ao carácter etéreo da voz de Corgan. A canção, a maior do álbum, desenvolve-se num lento crescendo, e depois, sensivelmente a meio, entra no seu extraordinário epílogo com um tribalismo rítmico que transporta reminiscências de “Children Of The Grave”, antes do vibrante solo de guitarra ao melhor estilo shredder de Iommi em “The Eternal Idol” e o regresso à lisérgica densidade atmosférica. Esta malha épica é a jóia da coroa do álbum.

Aqui chegados, poderiam pensar que Iommi preencheria o resto do álbum com uns quantos fillers, mas a realidade é totalmente oposta. A poderosa e xamânica voz de Ian Astbury ocupa o lugar central de “Flame On”, um petardo hard rocker que exsuda energia e vitalidade. Em “Just Say No To Love” é difícil perceber quem está a beber as influências de quem. É certo que os Type O Negative nunca esconderam o seu fascínio pelos Black Sabbath, mas Iommi também aproveita todo o carisma e idiossincrasias vocais de Peter Steele para uma colagem ao magnetismo sónico da banda de “Bloody Kisses”. A atmosfera sombria, o hipnotismo das programações rítmicas e as melodias assombrosas deixam uma impressão indelével.

“Who’s Fooling Who” é Sabbath clássico. Não podia ser de outra forma, com a voz de Ozzy e as baterias de Bill Ward. Já referimos Dave Grohl. John Tempesta é devastador em “Meat” e Matt Cameron é camaleónico em temas como “Time Is Mine”, “Flame On” e “Just Say No To Love”, mas Ward é um martelo a bater na bigorna. No solo, uma vez mais, sente-se “Children Of The Grave”. É a melhor malha de Black Sabbath clássico, digamos assim, desde “Sabotage”, o longínquo álbum da formação original em 1975. Só assim se pode entender que “Into The Night”, malha com Billy Idol que fecha majestosamente o disco, possa ter ficado algo obscurecida.

Após o seu lançamento em 2000, “Iommi” foi amplamente aclamado pela crítica, com muitos elogiando o trabalho de guitarra de Iommi e a mistura eclética de estilos do álbum. Apesar de não ter alcançado sucesso comercial, “Iommi” solidificou a reputação de Tony Iommi, pelo menos para uma nova geração, como um dos maiores génios do rock e do heavy metal. Que este disco seja quase incógnito nos nossos dias – não existe oficialmente nas plataformas de streaming digital e boa sorte para encontrarem uma cópia física (além do Discogs) – é um dos maiores crimes de subvalorização na história da música.

Glenn Hughes

“Fused”, lançado em 2005, procurou capitalizar a aclamação crítica de “Iommi”. Aliás, Bob Marlette foi novamente chamado a produzir, de modo a manter um sentido de continuidade. Todavia, o insucesso comercial do álbum anterior ditou um alinhamento mais espartano. Marlette assumiu o baixo e a sintetização, Kenny Aronoff foi o único baterista a transitar do disco de 2000 – até por ser aquele mais low profile – e, desta vez, apenas um vocalista gravou todas as canções: Glenn Hughes.

De certa forma, este parecia um regresso de Iommi a “Seventh Star”, o álbum dos Sabbath de ’86 que, toda a gente sabe, é o primeiro verdadeiro álbum a solo de Iommi, apesar da nomenclatura na capa. E, na verdade, a voz de Hughes, como nesse referido álbum, casa bem com a guitarra de Iommi. Juntos, eles criam uma paisagem sónica cativante e emocionalmente ressonante. Desde a abertura “Dopamine” até ao fecho épico “I Go Insane”, “Fused” leva os ouvintes numa viagem através de uma gama diversificada de estilos musicais e emoções, mostrando, uma vez mais, a versatilidade de Iommi como músico. Todavia, cortesia de Hughes, o álbum soa mais uniformemente blue eyed soul.

As sessões de gravação de “Fused” tiveram lugar no Monnow Valley Studio, no País de Gales, e no Townhouse Studios em Londres. Glenn Hughes também contribuiu com o baixo, além do trabalho de Marlette cuja engenharia, mistura e produção uniformizou o álbum que, sem os vertiginosos contrastes dinâmicos de “Iommi”, soa talvez menos rico, mas mais coerente. De qualquer forma, a sua energia crua e profundidade emocional é palpável em cada momento. E, tal como no primeiro disco, o som é simultaneamente poderoso e polido. O desprezo editorial e comercial deste trabalho, ao longo dos anos, não foi menor ao que sofreu o primeiro. Felizmente, Iommi corrigiu isso…

Um pensamento sobre “IOMMI & Fused

Leave a Reply