From The Dark

From The Dark, IOMMI

Mais de duas décadas depois, Tony Iommi regressa a solo com From The Dark. Um álbum homogéneo e arrasador, com oito malhões, enriquecido pela voz de Jørn Lande a evocar Dio e pela vitalidade de um dos grandes arquitectos do heavy metal.

Há guitarristas cuja importância histórica acaba por se tornar um obstáculo à avaliação da música que ainda fazem. TONY IOMMI, aos 78 anos, tem razões de sobra para viver confortavelmente à sombra do seu próprio legado: ajudou a inventar a gramática do heavy metal, assinou alguns dos riffs mais influentes da história da música pesada e atravessou quase seis décadas sem perder a capacidade de fazer uma guitarra soar imediatamente reconhecível.

No entanto, From The Dark, o seu primeiro álbum a solo desde Fused, de 2005, não chega como uma simples celebração dessa herança. É um disco de oito malhas que procura explorar as possibilidades de uma linguagem bem conhecida, agora com Jørn Lande na voz, Becky Baldwin no baixo, Karl Brazil na bateria e Mike Exeter a partilhar a produção com Iommi. O resultado tem os seus momentos de familiaridade absoluta, mas também uma amplitude dramática que lhe permite ir além do exercício de reverência.

A carreira a solo de Iommi nunca foi inteiramente independente da história dos Black Sabbath. Basta recordar que Seventh Star, concebido como um projecto centrado no guitarrista, acabou por ser editado em 1986 sob a designação Black Sabbath Featuring Tony Iommi. O álbum Iommi, de 2000, reuniu uma impressionante variedade de vocalistas convidados, enquanto The 1996 DEP Sessions e Fused, ambos associados a Glenn Hughes, exploraram diferentes possibilidades dentro do hard rock pesado.

Depois, os Sabbath voltaram a ocupar o primeiro plano, (sem esquecer a breve reunião com Dio) culminando no aceitável 13 e numa última celebração pública da formação clássica. Com o ciclo da banda encerrado, From The Dark oferece a Iommi um espaço próprio, sem a necessidade de responder às expectativas de uma reunião ou de reproduzir a química de uma formação histórica.

A génese do álbum ajuda a compreender o seu carácter. Como o guitarrista explicava em artigo publicado na ROMA INVERSA sobre o processo de criação do disco, a ideia inicial passava por um trabalho instrumental. Iommi chegou a desenvolver quatro ou cinco peças antes de decidir que queria introduzir uma voz e explorar outra direcção. O seu método manteve-se fiel àquilo que sempre o distinguiu: partir do riff, experimentar estruturas e alterar secções à medida que as canções ganham forma.

A colaboração com Lande não consistiu, portanto, em colocar um cantor sobre composições acabadas; a música foi sendo ajustada em função das melodias e das letras, num processo que beneficiou da ausência de prazos rígidos e da cumplicidade de Mike Exeter. A própria escolha do vocalista nasceu de uma relação anterior, estabelecida quando Lande participou numa homenagem a Ronnie James Dio. A familiaridade com aquela tradição era evidente, mas a decisão acabou por produzir uma identidade que não se esgota na comparação com o passado.

A presença de Lande é, aliás, determinante para a personalidade de From The Dark. A sua voz tem a amplitude, a articulação e o peso dramático que associamos a Dio, embora apresente uma aspereza própria, menos operática em certos momentos e mais próxima de uma interpretação terrena. A afinidade com a linhagem Sabbath/Dio é muito mais evidente do que com a abordagem Sabbath/Ozzy: as canções pedem uma voz capaz de acompanhar os riffs sem se limitar a ornamentá-los, alguém que transforme as imagens sombrias das letras em pequenas narrativas.

Em muitos momentos, este disco soa como uma fusão de Tyr e Dehumanizer. Isso faz sentido quando surgiu a informação de que Tony Martin chegou a gravar demos para o projecto antes de Iommi optar por Lande torna a escolha ainda mais interessante. Martin foi uma voz importante numa fase frequentemente subvalorizada dos Sabbath; a decisão não apaga esse legado, mas indica a direcção que Iommi queria para este álbum. Lande partilha os créditos de composição nas oito faixas, tendo escrito as letras e as melodias vocais, e essa contribuição ajuda a explicar a unidade do conjunto.

Os Oito Malhões de From The Dark

“Over The Violent Sun” abre o álbum com uma declaração de princípios. Bastam os primeiros segundos para reconhecermos a assinatura de Iommi: a guitarra desce sobre a secção rítmica com uma autoridade que não depende de virtuosismo exibicionista, mas da relação entre o peso do acorde, a sua colocação e o espaço que deixa à música. A produção confere ao som uma definição contemporânea, sem lhe retirar a aspereza necessária, enquanto Lande entra com a confiança de quem compreende a dimensão do material que tem nas mãos.

É um lugar-comum dizê-lo, mas a canção estabelece a atmosfera do álbum e apresenta uma combinação eficaz entre a tradição do riff pesado e uma abordagem vocal mais expansiva. Não é uma tentativa de surpreender o ouvinte com uma nova linguagem; é antes uma demonstração de que Iommi continua a saber construir uma canção a partir dos elementos fundamentais do seu vocabulário.

“Black Times” aprofunda essa identidade, mas fá-lo através de uma construção mais paciente. O andamento inicial, relativamente contido, dá a impressão de uma tempestade que se aproxima, com os riffs a acumularem tensão até a música ganhar uma dimensão mais ameaçadora. O que distingue a faixa não é apenas a força da guitarra, mas a maneira como Iommi organiza a progressão e permite que a composição respire.

Há espaço para uma passagem instrumental mais introspectiva, que introduz uma inesperada elegância no meio da densidade sonora, antes de a canção recuperar a sua intensidade e atingir um clímax particularmente vigoroso. É um bom exemplo de como o peso, quando trabalhado com sentido de dinâmica, pode ser muito mais expressivo do que uma sucessão de riffs esmagadores. Iommi conhece tão bem a matéria-prima que não precisa de a sobrecarregar.

Em “World Alone”, o primeiro single do álbum, o ritmo acelera e a música ganha uma energia mais imediata. A secção rítmica de Becky Baldwin e Karl Brazil sustenta a composição com firmeza, deixando espaço para os solos e para os ganchos melódicos que tornam a canção particularmente acessível. A guitarra não perde a sua identidade sombria, mas o andamento confere-lhe uma sensação de movimento que contrasta com a cadência mais arrastada de “Black Times”. Lande está aqui no seu elemento, conjugando potência e clareza numa interpretação que acompanha a determinação expressa pela letra.

“World Alone” é uma das composições mais directas do alinhamento e demonstra que Iommi não depende exclusivamente da lentidão ou da atmosfera para criar impacto. Como o próprio guitarrista explicou, quis experimentar um riff mais rápido, em contraste com a tendência natural para se encaminhar para os territórios mais arrastados.

“Beyond The Dead” muda de escala. A composição abandona parte da urgência anterior e desenvolve-se através de um riff solene, de arranjos orquestrais e de uma atmosfera que se expande gradualmente. A dimensão cinematográfica poderia facilmente resvalar para o excesso, mas a interpretação de Lande mantém um elemento humano no centro da grandiosidade. Em vez de competir com os arranjos, a voz acompanha a evolução da música, permitindo que cada secção encontre o seu espaço.

A paciência da construção é fundamental: a canção não procura conquistar o ouvinte num único momento espectacular, preferindo revelar progressivamente as suas diferentes camadas. É uma das faixas em que a combinação entre Iommi e Lande se revela mais produtiva, porque a guitarra oferece a arquitectura e a tensão, enquanto a voz introduz uma dimensão narrativa que não existiria da mesma forma numa composição instrumental.

Essa amplitude dramática encontra uma espécie de contraponto em “Stormwatcher”, uma das peças centrais do álbum, uma metáfora sobre a luta contra os próprios demónios e a procura de esperança num mundo em declínio. Lande interpreta estas imagens com uma mistura convincente de desgaste e determinação, sem transformar o tema numa sucessão de gestos teatrais.

Iommi, por sua vez, não procura dominar cada passagem através da guitarra; acompanha a narrativa, usando o riff e os momentos melódicos como elementos de orientação. A malha beneficia dessa contenção relativa, porque a grandiosidade nasce da relação entre a música e a voz, não de uma acumulação permanente de intensidade.

Em “Death Wake”, a contenção e a atmosfera continuam a ser importantes, embora a malha introduza um elemento adicional de interesse. Nos créditos, a indicação é sucinta: Additional guitar on Death Wake: Sir Brian May. Iommi e May desenvolveram linguagens muito distintas, apesar de partilharem uma posição singular na história do rock britânico. O primeiro construiu grande parte da sua identidade através da densidade dos riffs e de uma abordagem sombria à guitarra; o segundo tornou-se conhecido pela construção melódica, pela articulação das harmonias e por um timbre imediatamente reconhecível.

Em “Death Wake”, essa diferença acrescenta cor à composição, sem desviar o centro de gravidade da música. O tema desenvolve-se com uma melancolia persistente, privilegiando a acumulação de tensão em vez da agressividade imediata. A intervenção de May no solo (marca dos 3:18 minutos) introduz uma voz instrumental complementar, um diálogo entre dois músicos que não precisam de competir para demonstrar aquilo que os distingue.

Depois da solenidade das duas malhas anteriores, “Return Of The Arbalist” surge como uma descarga de energia. Um autêntico banger hard rocker!

O título evoca um imaginário de fantasia e combate, e a música acompanha essa ideia com um andamento mais vivo, riffs que avançam sem hesitação e uma secção rítmica particularmente dinâmica. Baldwin e Brazil merecem aqui destaque. O baixo e a bateria não se limitam a sustentar a guitarra; contribuem activamente para a sensação de movimento, dando à composição uma elasticidade que a distingue do restante alinhamento.

Iommi parece divertir-se com a liberdade que o tema lhe oferece, alternando riffs e frases de guitarra com a naturalidade de quem não precisa de demonstrar a cada instante que é um dos grandes arquitectos do heavy metal. A canção tem uma energia quase lúdica, sem deixar de ser pesada, e constitui uma das melhores provas de que a familiaridade da linguagem não significa necessariamente estagnação. Um riff eficaz, um groove sólido e uma banda a tocar com convicção continuam a ser ingredientes difíceis de substituir.

“Legacy” encerra o álbum com mais de sete minutos de música e a responsabilidade simbólica que o título inevitavelmente sugere. Seria fácil transformar a malha numa declaração explícita sobre o lugar de Iommi na história do metal, mas a composição funciona melhor porque não precisa de o fazer. O desenvolvimento é paciente, uma vez mais, alternando momentos introspectivos com passagens de grande intensidade, harmonizações ominiosas e algumas inflexões que remetem naturalmente para os Black Sabbath, mas também para IOMMI.

Não são referências inseridas à força para despertar a nostalgia dos ouvintes; fazem parte da linguagem musical de um guitarrista cuja identidade foi construída ao longo de décadas. Lande responde à dimensão da canção com uma interpretação emotiva, capaz de acompanhar a evolução da música sem perder a clareza, e Iommi mantém o equilíbrio entre a autoridade do riff e a expressividade dos solos. A malha reúne ainda vários dos elementos explorados ao longo do álbum — peso, melodia, atmosfera e grandiosidade — e oferece-lhes uma conclusão coerente.

“Legacy” merece o título não por funcionar como monumento à carreira do seu autor, mas porque a música – épica em vários momentos – consegue sustentar a dimensão simbólica que lhe foi atribuída.

Legado, Precisamente

From The Dark deixa uma impressão que ultrapassa a satisfação de reencontrar uma sonoridade familiar. É verdade que não há aqui uma ruptura radical com o passado, nem ninguém o desejaria, nem seria razoável exigir que Tony Iommi abandonasse os princípios que definiu e aperfeiçoou ao longo da carreira. O que importa é perceber se esses princípios continuam a produzir música com identidade, e a resposta é maioritariamente afirmativa.

As oito malhas formam um conjunto coeso e super homogéneo sonicamente, mas suficientemente variado para alternar entre a contundência de “Black Times”, a energia de “World Alone”, a amplitude de “Beyond The Dead” e “Stormwatcher” e o impulso mais directo de «Return Of The Arbalist». A produção de Iommi e Mike Exeter mantém a guitarra no centro, sem reduzir os restantes músicos a acompanhantes.

Jørn Lande é essencial para o resultado. A sua proximidade estilística a Ronnie James Dio ajuda a explicar a afinidade do álbum com essa fase dos Sabbath, mas a interpretação não se limita a imitar uma referência histórica. Lande possui a força, a aspereza e a capacidade melódica necessárias para dar corpo às composições, e o seu contributo para as letras e melodias vocais assegura uma continuidade que o modelo de convidados diferentes, usado em Iommi, não teria permitido.

Há também algo de admirável na vitalidade do próprio guitarrista. Se nos cingirmos à “Santíssima Trindade” do hard rock e do heavy metal, surgindo no final da década de 1960 no Reino Unido, Jimmy Page tem privilegiado a preservação e a celebração do legado dos Led Zeppelin, enquanto Ritchie Blackmore se afastou há muito do hard rock e do metal que ajudou a definir. Iommi escolheu outro caminho: continua a tocar música pesada com uma presença física, uma precisão e uma autoridade que não parecem depender apenas do prestígio acumulado.

Não se trata de estabelecer uma competição entre músicos ou de medir carreiras por critérios de produtividade. Trata-se de reconhecer que, aos 78 anos, Iommi permanece envolvido no acto de criar, tocar e organizar riffs em torno de canções novas. Num universo musical em que a nostalgia se tornou tantas vezes um produto de consumo, essa disponibilidade para continuar a fazer música tem um valor próprio.

From The Dark não reinventa Tony Iommi, mas também não precisa de o fazer. O álbum confirma a força de uma linguagem que continua a admitir variações, revela uma parceria vocal particularmente feliz e demonstra que o guitarrista ainda tem instinto para reconhecer o que uma composição exige. Há momentos mais convencionais, e a familiaridade de certas soluções poderá limitar o impacto para quem procura uma transformação radical.

Mas essa reserva não apaga a qualidade do conjunto. O legado de Iommi não se mede apenas pelos discos que ajudou a criar no passado; mede-se também pela capacidade de continuar a fazer com que uma guitarra, um riff e uma canção tenham peso no presente. Em From The Dark, o riff continua vivo.

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