Not Here Not Gone afirma-se como o trabalho mais ambicioso das Blackwater Holylight, até à data: um álbum rico e imersivo onde a luz encontra inevitavelmente o seu caminho para fora da sombra.
Quando deixaram a sua cidade natal de Portland, no estado norte-americano do Oregon, há três anos, as Blackwater Holylight tinham um objectivo claro: escapar à melancolia do Noroeste do Pacífico e ao conforto acomodado da familiaridade. Na procura de um clima mais solarengo em Los Angeles, a banda encontrou não apenas um ambiente mais quente, mas também uma folha em branco — sem empregos, sem os grupos de amigos de longa data e sem o refúgio fácil dos velhos hábitos.
Foi neste contexto, livres da segurança do conhecido, que Sunny Faris (voz e guitarra), Mikayla Mayhew (baixo) e Eliese Dorsay (baixo) começaram a trabalhar afincadamente no seu quarto álbum de estúdio, Not Here Not Gone. Durante este esforçou juntou-se-lhes Camille Getz, nos violinos, e Sarah McKenna, nas sintetizações.
À semelhança dos trabalhos anteriores, Not Here Not Gone explora a dualidade entre a luz e a escuridão. Riffs ameaçadores servem de base a melodias cativantes, densas camadas de guitarras shoegaze cruzam-se com sintetizadores etéreos e temas pesados são interpretados através de vozes sedutoras. Ao longo do disco, a banda alterna entre momentos de força e vulnerabilidade.
Como explica a baterista Eliese Dorsay, «há canções em que somos o predador e outras em que somos a presa». A mudança para Los Angeles intensificou precisamente esse jogo de contrastes, levando a banda a explorar novos extremos em Not Here Not Gone. O título do álbum reflecte esse período de adaptação. «É como ter um pé de cada lado», explica a vocalista e guitarrista Sunny Faris. «Fala da forma como podemos perder pessoas nas nossas vidas, mas continuar a sentir a sua presença e energia».
E, de facto, ao ouvir Not Here Not Gone, fica a sensação de que as Blackwater Holylight transportaram parte da melancolia do Noroeste para o Sul da Califórnia. Os acordes iniciais de “How Will You Feel” estão mergulhados na densidade cinzenta dos céus permanentemente nublados de Portland. No entanto, através das guitarras saturadas emerge um raio de luz conduzido pela voz delicada de Faris e pelos sintetizadores atmosféricos de Sarah McKenna, guiando o ouvinte para fora da escuridão.


Mesmo nos momentos mais pesados, como “Bodies” e “Spades”, a banda molda o peso e a sujidade sonora em composições de carácter quase transcendental. O primeiro single, “Heavy, Why?”, representa talvez o ponto máximo dessa dualidade. O riff fúnebre de Mikayla Mayhew e a bateria poderosa de Dorsay poderiam facilmente integrar o repertório de uma banda habitual do festival neerlandês Roadburn, mas a interpretação frágil de Faris transforma a composição numa reflexão delicada, onde a beleza e a graça equilibram a agressividade instrumental.
Uma das maiores mudanças estilísticas do álbum surge com “Giraffe”, um tema instrumental que combina teclados alucinantes e linhas de baixo pulsantes sobre uma batida assinada por David Andrew Sitek (TV on the Radio, Run the Jewels, Solange). A malha funciona como um ponto de transição para uma segunda metade ainda mais subtil e textural. Segundo a banda, a principal transformação relativamente aos discos anteriores foi o tempo dedicado à composição. Enquanto os primeiros trabalhos nasceram de uma urgência criativa mais imediata, Not Here Not Gone foi desenvolvido de forma muito mais paciente.
«Se houvesse um tema para este álbum, seria a paciência», afirma Sunny Faris. «Trabalhámos em algumas destas canções durante três anos, dando-lhes tempo para respirar e evoluir enquanto explorávamos um novo lugar e uma nova vida». Essa abordagem torna-se particularmente evidente na segunda metade do disco, com temas como “Void to Be”, “Fade” e “Mourning After”, que trocam o impacto imediato dos riffs por melodias oníricas e instrumentação cuidadosamente sobreposta.
Sem nunca abandonar o gosto pelo contraste, o álbum termina com “Poppyfields”, composta apenas alguns dias antes da entrada em estúdio. A canção relata a história de um amigo que perdeu a casa nos incêndios florestais de Los Angeles, sobre uma base de blast beats, bombos duplos, sintetizadores sinfónicos e guitarras inspiradas no black metal. O tema funciona como um lembrete de que nenhum paraíso é permanente e de que tudo acaba por renascer das cinzas.
Not Here Not Gone foi gravado nos Sonic Ranch Studios, nos arredores de El Paso, no Texas, sob produção, gravação e mistura de Sonny Diperri (Narrow Head, DIIV, Emma Ruth Rundle), permitindo à banda voltar a sair da sua zona de conforto e concentrar-se exclusivamente na criação artística. A assistência de mistura ficou a cargo de Zach Capittifenton, a assistência de engenharia foi assegurada por Felipe Aldana, enquanto a masterização foi realizada por Howie Weinberg. Foi editado a 30 de Janeiro de 2026.
