Savatage

Savatage, A Melhor Banda Americana de Heavy Metal

Porque poucas bandas conseguiram unir, durante tanto tempo, peso, melodia, narrativa, teatralidade e humanidade. Os irmãos Oliva não escreveram apenas canções; escreveram personagens, tragédias e actos de redenção. A discografia dos Savatage parece menos uma sucessão de álbuns do que um romance em capítulos. Da fúria de Sirens à promessa de Curtain Call, esta é a história da banda que transformou o heavy metal numa forma de teatro.

Há títulos que parecem nascer para gerar discórdia. Savatage: ‘A Melhor Banda Americana de Heavy Metal’ é um deles. Primeiro, a sugestão só faz sentido se assumirmos os Van Halen como uma banda de hard rock. Depois, para muitos, a simples hipótese de colocar os irmãos Oliva acima de Metallica, Slayer ou Pantera será suficiente para encerrar qualquer debate antes mesmo de ele começar. Afinal, como comparar uma banda que nunca conquistou o estrelato mundial com grupos que redefiniram a música pesada e venderam dezenas de milhões de discos?

A resposta depende dos critérios. Se o objectivo for identificar a banda americana mais influente, mais popular ou mais bem-sucedida comercialmente, dificilmente haverá discussão. Os Metallica ocupam um lugar praticamente inexpugnável, enquanto Slayer, Megadeth e Pantera moldaram diferentes linguagens do metal moderno. Mesmo os Queensrÿche, com Operation: Mindcrime, produziram um dos álbuns conceptuais mais celebrados da história do género. Mas a arte raramente se deixa medir apenas por números. Há bandas que mudam a história pela força do seu impacto; outras transformam-na pela profundidade da sua obra. E é precisamente aí que os Savatage entram na discussão.

Porque aquilo que distingue os Savatage nunca foi a dimensão da sua fama, mas a consistência da sua visão artística. Ao longo de quase vinte anos, produziram uma discografia onde cada álbum parece responder ao anterior, aprofundando uma linguagem que unia o peso do heavy metal americano à teatralidade da ópera, ao dramatismo da música clássica, à narrativa literária e a uma humanidade pouco comum num género tantas vezes dominado pela exibição técnica ou pela agressividade gratuita.

Jon Oliva nunca foi apenas um vocalista. Era um contador de histórias. Criss Oliva nunca foi apenas um guitarrista virtuoso. Tocava como quem escrevia diálogos, alternando momentos de violência e delicadeza com uma naturalidade quase desconcertante. E quando Paul O’Neill entrou definitivamente na equação, encontrou na banda o veículo ideal para desenvolver uma ambição rara no heavy metal: fazer discos que funcionassem como verdadeiras peças de teatro musical.

Por isso, avaliar os Savatage apenas pelo número de discos vendidos é tão redutor como julgar um romance apenas pelo número de exemplares impressos. A verdadeira questão é outra: que banda americana conseguiu construir a obra mais completa?

Uma obra que atravessou o heavy metal tradicional, o power metal, o hard rock, a ópera rock, o metal progressivo e a música sinfónica sem nunca perder identidade. Uma obra que sobreviveu a mudanças de formação, a pressões comerciais, à morte trágica de um dos seus principais compositores e ao desaparecimento do seu produtor e mentor. Uma obra onde quase não existem discos feitos por obrigação. Uma obra que continua hoje a revelar novos pormenores a cada audição.

Talvez nunca seja possível provar objectivamente que os Savatage são a melhor banda americana de heavy metal. A música não funciona como uma prova matemática. Mas talvez seja possível demonstrar que poucas bandas produziram uma discografia tão rica, tão coerente e tão emocionalmente devastadora. É essa viagem que importa fazer. E, curiosamente, ela começa antes de existir uma banda chamada Savatage.

Avatar: Antes de Existirem os Savatage

Muito antes de Hall of the Mountain King, de Gutter Ballet ou de Streets, havia apenas dois irmãos da Florida apaixonados por música. Jon e Criss Oliva cresceram numa família de origem italiana onde a música fazia parte do quotidiano, mas dificilmente alguém poderia imaginar que daqueles ensaios juvenis surgiria uma das bandas mais singulares da história do heavy metal americano.

No final da década de 1970, a cena musical dos Estados Unidos encontrava-se num momento de transição. O punk abalara as estruturas do rock clássico, enquanto a explosão da New Wave of British Heavy Metal começava lentamente a atravessar o Atlântico. Iron Maiden, Saxon e Def Leppard demonstravam que o metal podia ser simultaneamente técnico, melódico e comercial. Em cidades como Los Angeles, Nova Iorque ou Tampa, uma nova geração de músicos procurava encontrar a sua própria voz. Foi nesse contexto que Jon e Criss, já depois de um período de dois anos sob a designação Metropolis U.S.A., fundaram os Avatar, por volta de 1979, ao lado do baterista Steve Wacholz e do baixista Keith Collins.

O nome parecia adequado: evocava fantasia, poder e um certo imaginário épico que combinava naturalmente com o heavy metal da época. Durante vários anos, os Avatar construíram lentamente uma reputação nos clubes da Florida, desenvolvendo um repertório próprio e aperfeiçoando uma química que rapidamente começava a distingui-los de muitas bandas locais. Quem assistia a esses primeiros concertos via já aquilo que mais tarde se tornaria evidente.

Jon Oliva possuía uma presença de palco quase teatral, alternando momentos de agressividade explosiva com uma expressividade emocional pouco habitual. Criss, por sua vez, impressionava não apenas pela velocidade, mas pela capacidade de construir solos memoráveis. Enquanto muitos guitarristas procuravam apenas tocar mais depressa, ele parecia interessado em fazer a guitarra cantar. Essa diferença revelou-se decisiva.

Os primeiros anos dos Avatar não produziram grandes sucessos nem contratos milionários. Produziram algo mais importante: uma identidade. Os irmãos Oliva absorviam influências muito diversas — dos riffs monumentais de Tony Iommi ao dramatismo de Ronnie James Dio, passando pela sofisticação harmónica de Queen e pela teatralidade de Alice Cooper. Em vez de imitarem qualquer uma dessas referências, começaram lentamente a combiná-las numa linguagem própria.

Ao contrário de muitas bandas da época, que viam o heavy metal sobretudo como uma demonstração de força, os Avatar pareciam interessados em criar atmosferas. Mesmo nas composições mais rápidas havia espaço para mudanças de dinâmica, melodias inesperadas e um sentido dramático que acabaria por se tornar uma assinatura da banda. Em 1983, quando finalmente surgiu a oportunidade de gravar o álbum de estreia, apareceu também um problema inesperado. Já existia na Europa uma banda chamada Avatar, o que levantava questões legais e comerciais impossíveis de ignorar. A solução foi adoptar um novo nome: SAVATAGE.

A origem da palavra continua a alimentar alguma especulação. Durante muitos anos repetiu-se que resultava da fusão entre savage e avatar, preservando simbolicamente o passado enquanto anunciava uma identidade mais agressiva. A explicação faz sentido, embora os próprios membros da banda tenham alimentado diferentes versões ao longo dos anos. Independentemente da etimologia exacta, o novo nome acabaria por revelar uma coincidência curiosa: possuía uma sonoridade quase mítica, como se sempre tivesse pertencido ao universo que Jon e Criss Oliva estavam prestes a construir.

A mudança aconteceu poucos meses antes da edição de Sirens. Hoje, olhando retrospectivamente para a história da banda, é tentador pensar que aquele contratempo burocrático marcou também uma transformação artística. Os Avatar eram uma excelente banda regional (ou um período em que Jon e Criss tocaram nos Avatar, Metropolis, Alien e Tower), cheia de potencial. Os Savatage tornaram-se algo muito mais raro: uma banda que nunca deixou de evoluir, mesmo quando essa evolução significava desafiar as expectativas da indústria, do público e, por vezes, deles próprios. O resto da história provaria que mudar de nome foi o menor dos desafios que teriam de enfrentar.

★★★★★

Sirens (1983) | Quando Sirens chegou às lojas, em Maio de 1983, o heavy metal encontrava-se num dos momentos mais férteis da sua história. A Nova Vaga do Heavy Metal Britânico continuava a irradiar influência para todo o mundo, enquanto, do outro lado do Atlântico, começavam a ganhar forma linguagens muito mais agressivas que, poucos anos depois, dariam origem ao thrash metal. Era uma época em que praticamente todas as semanas parecia nascer uma nova banda promissora, e destacar-se no meio daquela avalanche de talento exigia muito mais do que competência técnica.

Os Savatage ainda eram, em muitos aspectos, uma banda profundamente americana. Havia nos seus riffs um peso herdado de Black Sabbath, mas também a urgência do hard rock setentista e a energia crua das bandas que viviam sobretudo dos concertos. Ao contrário dos Iron Maiden ou dos Judas Priest, cujo metal possuía frequentemente uma elegância quase aristocrática, os Savatage soavam mais viscerais, mais terrenos, como se as suas canções tivessem sido forjadas nos clubes fumacentos da Florida e não nas grandes arenas europeias. Mas Sirens distingue-se precisamente porque, mesmo antes de a banda encontrar a sua identidade definitiva, já deixa escapar inúmeras pistas sobre o futuro. A primeira delas chama-se Criss Oliva.

É impossível escutar hoje este disco sem ficar impressionado com a maturidade do jovem guitarrista. Aos vinte anos, Criss já possuía uma linguagem muito própria. Enquanto muitos dos seus contemporâneos procuravam impressionar através da velocidade, ele parecia preocupar-se sobretudo com a expressividade. Os seus solos nunca interrompem as canções; prolongam-lhes a emoção. Há neles qualquer coisa de profundamente melódico, quase vocal, como se cada frase procurasse contar uma história em vez de servir apenas como demonstração de virtuosismo.

Também Jon Oliva ainda não é o intérprete que deslumbraria em Gutter Ballet ou Streets, mas a sua personalidade já é impossível de confundir. A voz oscila entre a agressividade quase selvagem e uma vulnerabilidade inesperada, antecipando o actor que mais tarde faria de cada canção uma pequena peça de teatro. Mesmo quando exagera ou força determinados registos, percebe-se que existe ali um intérprete muito mais interessado em transmitir emoções do que em respeitar convenções.

Musicalmente, Sirens vive da tensão entre tradição e promessa. Temas como “Sirens”, “Holocaust” ou “Rage” revelam uma banda apaixonada pelo heavy metal mais musculado, mas é em composições como “I Believe” que surge algo verdadeiramente singular: a capacidade de desacelerar, criar espaço e deixar que a melodia transporte o peso emocional da música.

É precisamente por isso que Sirens continua a envelhecer tão bem. Não porque seja o melhor disco dos Savatage — está longe disso — mas porque documenta o nascimento de uma linguagem. A maior parte das grandes bandas encontra a sua identidade depois de vários álbuns. Os Savatage começaram a procurá-la desde o primeiro dia. Escutado quarenta anos depois, Sirens permanece menos como uma obra acabada do que como uma promessa extraordinariamente cumprida.

★★★★★

The Dungeons Are Calling (1984) | Há EPs que funcionam apenas como complemento de um álbum. The Dungeons Are Calling pertence à categoria oposta. Apesar da sua duração reduzida, representa um passo decisivo na afirmação artística dos Savatage, ao ponto de muitos fãs o considerarem uma extensão natural de Sirens e não uma simples edição intermédia.

A banda continua a mover-se dentro dos limites do heavy metal tradicional, mas algo começa claramente a mudar. As canções respiram melhor, os arranjos tornam-se mais sofisticados e a composição revela uma confiança que dificilmente se encontrava no disco de estreia. É como se os meses passados na estrada tivessem ensinado aos irmãos Oliva que a verdadeira força não reside apenas na velocidade ou no volume, mas na forma como se constrói tensão. O próprio título revela muito da imaginação da banda.

Enquanto grande parte do metal americano da época privilegiava temas urbanos, rebeldia juvenil ou violência explícita, os Savatage começavam a explorar um universo quase medieval, povoado por reis, masmorras, batalhas e figuras maiores do que a vida. Não se tratava de escapismo gratuito, mas da procura de uma linguagem simbólica que lhes permitisse falar de poder, ambição, medo ou redenção sem recorrer ao realismo imediato. Canções como “The Dungeons Are Calling” ou “By the Grace of the Witch” demonstram essa crescente ambição narrativa.

O heavy metal deixa lentamente de ser apenas uma sucessão de riffs para se transformar num espaço de representação dramática. Ainda não existe a sofisticação conceptual dos anos seguintes, mas já se sente que Jon Oliva escreve como alguém fascinado por personagens e conflitos interiores. Também Criss continua a crescer de forma impressionante. A sua guitarra ganha cada vez mais subtileza, alternando passagens violentas com melodias quase elegíacas. Há momentos em que parece antecipar guitarristas muito posteriores, precisamente porque nunca confunde técnica com exibicionismo.

É curioso verificar que, apesar da importância deste EP, ele permanece frequentemente esquecido quando se fala da história dos Savatage. Talvez por não ser um álbum propriamente dito, talvez porque a sombra gigantesca dos discos seguintes tenha acabado por o eclipsar. No entanto, quem quiser compreender a evolução da banda encontrará aqui uma peça fundamental. Entre Sirens e Power of the Night, os Savatage deixam definitivamente de ser apenas uma excelente banda regional para começarem a pensar como autores.

★★★★★

Power of the Night (1985) | Se Sirens representa o nascimento e The Dungeons Are Calling o primeiro amadurecimento, Power of the Night é o disco onde os Savatage demonstram que pertencem definitivamente à primeira linha do heavy metal americano. A produção, assinada por Max Norman, desempenha aqui um papel decisivo. Conhecido pelo trabalho realizado com Ozzy Osbourne, Norman consegue finalmente dar à banda um som mais poderoso e definido, permitindo que as composições respirem com uma clareza até então inédita. Pela primeira vez, a guitarra de Criss Oliva surge com toda a profundidade que o seu talento exigia, enquanto a secção rítmica ganha um peso muito mais convincente.

Mas a verdadeira evolução acontece na escrita. Os Savatage começam finalmente a dominar a arquitectura das canções. Os refrães tornam-se memoráveis sem resvalarem para a facilidade, os riffs adquirem maior personalidade e Jon Oliva revela uma crescente confiança como compositor. Há uma maturidade nova na forma como as músicas se desenvolvem, evitando tanto a repetição como a dispersão.

A faixa-título continua a ser um dos grandes clássicos da primeira fase da banda, concentrando toda a energia que caracterizava os seus concertos. No entanto, o álbum vale sobretudo pela sua consistência. Não procura reinventar o heavy metal; procura aperfeiçoá-lo. E consegue-o através de um equilíbrio notável entre agressividade, melodia e dramatismo.

É também neste período que os Savatage começam a conquistar reconhecimento para lá do circuito underground. Ainda estavam longe do sucesso comercial, mas deixavam de ser um segredo bem guardado da Florida. A crítica especializada começava a reconhecer que existia naquela banda algo diferente do habitual, mesmo que ainda fosse difícil definir exactamente o quê.

Olhando hoje para Power of the Night, percebe-se que o disco encerra um paradoxo interessante. É provavelmente o álbum mais convencional da primeira metade da carreira dos Savatage, mas essa aparente convencionalidade permitiu-lhes consolidar as bases sobre as quais edificariam toda a sua obra futura. Sem este disco dificilmente existiriam Hall of the Mountain King ou Gutter Ballet.

Este é o último momento da sua discografia em que os Savatage podem ser descritos simplesmente como uma excelente banda de heavy metal. Com excepção do álbum seguinte, essa definição tornar-se-ia demasiado pequena para aquilo que os irmãos Oliva tinham em mente.

★★★★★

Fight for the Rock (1986) | Na história de quase todas as grandes bandas existe um momento em que a pressão da indústria entra em conflito directo com a identidade artística. Na discografia dos Savatage, esse momento chama-se Fight for the Rock.

Em meados da década de oitenta, o heavy metal vivia uma fase de enorme expansão comercial. O sucesso de bandas como Bon Jovi, Mötley Crüe ou Ratt alimentava a convicção, por parte das editoras, de que qualquer grupo suficientemente pesado podia conquistar as rádios se limasse as arestas certas. Os Savatage, ainda longe de serem um nome estabelecido, tornaram-se vítimas dessa lógica.

A Atlantic Records pretendia um disco mais acessível, mais imediato e, sobretudo, mais vendável. Os irmãos Oliva aceitaram o desafio sem grande entusiasmo. O resultado foi um álbum que, embora contenha alguns momentos interessantes, nunca consegue esconder a sensação de compromisso forçado. Não se trata de um mau disco no sentido absoluto. Existem boas ideias, riffs eficazes e interpretações competentes. O problema é outro: falta-lhe convicção. Pela primeira vez, os Savatage parecem tocar música escrita para corresponder às expectativas de terceiros e não para responder à própria necessidade criativa. É uma diferença subtil, mas decisiva.

Jon Oliva nunca escondeu o desconforto que sentia em relação ao álbum. Durante anos falou dele quase como uma experiência traumática, símbolo de tudo aquilo que a banda não queria voltar a ser. Muitos fãs acabaram por adoptar a mesma posição, relegando Fight for the Rock para um lugar marginal dentro da discografia. Contudo, essa leitura é injusta.

A importância histórica do disco reside precisamente no seu fracasso. Ao perceberem que a tentativa de aproximação ao mercado descaracterizava a banda, os Savatage regressaram ao estúdio determinados a recuperar o controlo absoluto sobre a sua música. Poucas vezes uma derrota produziu consequências tão férteis. Sem Fight for the Rock, talvez nunca tivesse existido Hall of the Mountain King. Às vezes, um artista descobre quem é apenas depois de perceber, com dolorosa clareza, quem nunca poderá voltar a ser.

★★★★★

Hall of the Mountain King (1987) | Depois das cedências impostas no álbum anterior, os Savatage regressaram ao estúdio com uma determinação quase feroz. Já não se tratava apenas de gravar um bom disco; tratava-se de recuperar a própria identidade. Essa urgência atravessa o álbum do princípio ao fim e explica a extraordinária sensação de unidade que continua a impressionar quase quarenta anos depois.

A produção de Max Norman revela-se decisiva. Ao contrário do que acontecera nos primeiros discos, a música ganha finalmente a escala que sempre reclamara. Cada instrumento encontra o seu espaço, a guitarra de Criss Oliva adquire uma presença monumental e a voz de Jon Oliva emerge com uma intensidade quase teatral. Tudo soa maior, mais seguro e mais ambicioso. Mas é na composição que acontece o verdadeiro milagre.

Criss Oliva atinge aqui um dos momentos mais inspirados da sua carreira. O seu estilo permanece profundamente melódico, mas ganha uma agressividade nova, sem nunca cair na tentação do virtuosismo vazio. Os seus solos continuam a impressionar pela técnica, mas ficam sobretudo na memória porque parecem prolongar a narrativa das canções. Em vez de interromperem a música, completam-na.

Jon Oliva, por seu lado, começa finalmente a assumir plenamente a dimensão dramática da sua voz. Há uma teatralidade crescente na forma como interpreta cada verso, mas nunca se transforma em caricatura. Pelo contrário: percebe-se que o cantor está menos interessado em exibir alcance vocal do que em dar vida às personagens que habitam as suas letras.

A própria faixa-título resume tudo aquilo que distingue os Savatage da esmagadora maioria das bandas americanas da época. Inspirada livremente na obra de Edvard Grieg e na peça Peer Gynt de Henrik Ibsen, “Hall of the Mountain King” demonstra que era possível dialogar com a tradição clássica sem sacrificar um único grama de peso. O riff tornou-se um dos mais reconhecíveis da história do heavy metal, mas é a atmosfera quase cinematográfica da composição que continua verdadeiramente impressionante.

O resto do álbum mantém um nível notável. “24 Hours Ago”, “Legions” ou “Devastation” mostram uma banda que domina finalmente a relação entre melodia, velocidade e emoção. Já não existem momentos supérfluos. Tudo parece servir um propósito maior. Escutado hoje, Hall of the Mountain King não representa apenas o primeiro grande clássico dos Savatage. Representa o instante exacto em que a banda deixa de seguir tendências para começar a criar uma linguagem própria. É o disco onde os Savatage descobrem quem realmente são.

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Gutter Ballet (1989) | Se Hall of the Mountain King consolidou uma identidade, Gutter Ballet redefiniu completamente os limites daquilo que uma banda de heavy metal podia fazer. No final dos anos oitenta, poucos esperariam que um grupo americano de metal introduzisse o piano como elemento central da sua música sem perder intensidade. Ainda menos imaginariam que essa escolha produziria um dos álbuns mais influentes e originais da década.

A parceria entre Jon Oliva e Paul O’Neill atinge aqui uma maturidade decisiva. O’Neill percebe que os Savatage possuem um potencial muito mais vasto do que o simples heavy metal de arena. Em vez de limitar essa ambição, incentiva-a. O resultado é um disco onde as canções passam a desenvolver-se quase como cenas de uma peça de teatro.

A abertura com “Of Rage And War” é insuspeita. Aqueles riffs staccato de Criss, peso e sentido prog na secção rítmica e a estridência feroz de Jon. Então, ela surge. A malha que partilha o título com o quinto trabalho da discografia dos Savatage continua a provocar arrepios. O piano solitário que introduz “Gutter Ballet” não funciona como mera introdução; anuncia desde os primeiros segundos que o ouvinte entrou num território novo. Quando a banda explode finalmente, percebe-se que nada foi perdido. O peso permanece intacto. Apenas adquiriu novas cores.

Jon Oliva realiza talvez a sua melhor interpretação até esse momento da carreira. A sua voz torna-se mais expressiva, mais vulnerável e infinitamente mais humana. Já não canta apenas sobre personagens; parece habitá-las. Criss Oliva acompanha essa transformação com uma inteligência extraordinária. Os seus solos tornam-se menos exuberantes e mais narrativos. Cada nota parece escolhida para servir o clima emocional da composição, revelando uma maturidade pouco comum entre guitarristas de heavy metal.

Também a escrita das letras dá um salto qualitativo evidente. A fantasia medieval começa lentamente a dar lugar a personagens reais, marcadas por fracassos, dúvidas e desejos contraditórios. Os Savatage descobrem que a verdadeira épica pode existir nas ruas, nos becos e nas vidas aparentemente comuns.

Hoje é fácil perceber por que motivo Gutter Ballet ocupa um lugar tão especial na história do género. Muito antes de o metal sinfónico ganhar popularidade ou de o progressivo regressar ao centro das atenções, os Savatage demonstravam que o heavy metal podia dialogar com a música clássica, o teatro e a literatura sem deixar de soar feroz.

Foi um acto de coragem artística. E, como todos os grandes actos de coragem, alterou para sempre o destino da banda.

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Streets: A Rock Opera (1991) | Há discos conceptuais. E depois há Streets. Aquilo que Jon Oliva e Paul O’Neill construíram em 1991 aproxima-se mais da literatura ou do teatro musical do que do formato tradicional de um álbum de heavy metal. Inspirando-se parcialmente nas experiências vividas por O’Neill em Nova Iorque, Streets acompanha a ascensão, queda e possível redenção de DT Jesus, um músico consumido pelos excessos, pela dependência e pela dificuldade em distinguir sucesso de felicidade.

Seria tentador resumir o disco a uma simples ópera rock. Mas essa designação é insuficiente. Ao contrário de muitos álbuns conceptuais, onde a narrativa serve apenas de pretexto para unir canções independentes, em Streets tudo parece obedecer a uma lógica dramática. As personagens evoluem, os conflitos intensificam-se e cada composição desempenha uma função específica dentro da história. O álbum exige ser escutado do princípio ao fim, como um romance ou um filme.

Musicalmente, os Savatage atingem aqui um equilíbrio extraordinário. O peso continua presente, mas convive naturalmente com baladas, passagens acústicas, piano, coros e momentos quase cinematográficos. Poucas bandas conseguiram integrar tantos elementos distintos sem perder identidade.

Jon Oliva realiza, provavelmente, a interpretação mais impressionante da sua carreira. Já não é apenas um cantor. É um actor. Cada inflexão da voz parece revelar o estado psicológico de DT Jesus, transformando a audição numa experiência profundamente emocional. Criss Oliva, por sua vez, oferece uma das suas últimas grandes demonstrações de génio criativo. A sua guitarra deixa definitivamente de funcionar como instrumento de exibição técnica para assumir um papel quase narrativo. Em muitos momentos, parece comentar silenciosamente aquilo que as personagens não conseguem dizer por palavras.

É também impossível ignorar a influência crescente de Paul O’Neill. A sua visão teatral encontra finalmente a banda capaz de lhe dar corpo. Mas seria injusto atribuir-lhe sozinho o mérito do álbum. Streets funciona precisamente porque junta três sensibilidades muito diferentes: a imaginação dramática de O’Neill, a intensidade emocional de Jon Oliva e o lirismo inconfundível de Criss Oliva.

Comercialmente, o disco ficou muito aquém das expectativas. O mundo preparava-se para receber o grunge, e um álbum conceptual de heavy metal parecia quase um anacronismo. Mas a História tem um estranho sentido de justiça. Décadas depois, Streets continua a crescer. Cada nova audição revela ligações, símbolos e emoções que passam despercebidos numa primeira escuta. Não é apenas um dos melhores discos dos Savatage. É uma das maiores obras conceptuais alguma vez produzidas pelo heavy metal americano.

E talvez seja aqui, mais do que em qualquer outro momento da carreira da banda, que a afirmação no título deste artigo começa verdadeiramente a fazer sentido.

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Edge of Thorns (1993) | Há discos cuja importância transcende inevitavelmente a música. Edge of Thorns é um deles. Quando Jon Oliva decidiu abandonar o lugar de vocalista principal para se concentrar na composição e nos teclados, muitos recearam que os Savatage tivessem perdido a sua identidade. Afinal, a voz áspera, imprevisível e profundamente teatral de Jon era uma das imagens de marca da banda.

A escolha de Zak Stevens, praticamente desconhecido fora do circuito regional norte-americano, foi recebida com curiosidade, mas também com uma dose inevitável de cepticismo. O tempo acabaria por dar razão à banda. Em vez de procurar um imitador de Jon Oliva, os Savatage escolheram alguém que oferecia precisamente aquilo de que a música precisava naquele momento: uma voz mais limpa, mais ampla e capaz de explorar novas nuances melódicas. Stevens não substitui Jon; complementa-o. A sua interpretação confere às canções uma luminosidade inesperada, sem nunca diluir a carga emocional que sempre caracterizou o grupo.

Musicalmente, Edge of Thorns representa a síntese de tudo o que os Savatage tinham aprendido na segunda metade dos anos oitenta. O peso de Hall of the Mountain King, a sofisticação de Gutter Ballet e a ambição narrativa de Streets convivem agora com uma escrita mais directa e surpreendentemente acessível. Não porque a banda tenha procurado simplificar a sua linguagem, mas porque finalmente domina todos os seus recursos.

A faixa-título permanece uma das composições mais perfeitas de toda a discografia. O riff inicial, simultaneamente elegante e ameaçador, conduz uma canção onde melodia e intensidade convivem sem esforço aparente. “He Carves His Stone”, “Lights Out” ou “Follow Me” confirmam um grupo que atravessava um dos períodos mais inspirados da sua carreira. Mas existe uma dimensão impossível de ignorar quando hoje regressamos a este álbum. Edge of Thorns é o último disco gravado por Criss Oliva.

A 17 de Outubro de 1993, poucos meses após o lançamento do álbum, Criss morreu tragicamente num acidente de viação provocado por um condutor alcoolizado. Tinha apenas trinta anos. A notícia abalou profundamente o universo do heavy metal. Morria não apenas um guitarrista extraordinário, mas um compositor cuja evolução parecia longe de ter atingido o seu limite.

Escutado hoje, Edge of Thorns tornou-se involuntariamente um testamento artístico. Cada solo, cada frase melódica, cada diálogo entre guitarra e voz ganhou um significado impossível de prever no momento da gravação. Não porque o disco fale da morte, mas porque passou a representar tudo aquilo que Criss Oliva ainda poderia ter criado. É um álbum de transição. Sem que ninguém o soubesse, também era um álbum de despedida.

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Handful of Rain (1994) | Poucas bandas sobreviveriam à perda de um músico como Criss Oliva. Nos meses que se seguiram ao acidente, a hipótese de terminar definitivamente os Savatage foi seriamente considerada. A morte do guitarrista não representava apenas uma perda afectiva; parecia destruir o próprio centro criativo da banda.

Jon Oliva encontrava-se devastado. Paul O’Neill também. Continuar parecia, em muitos aspectos, uma impossibilidade. Foi precisamente dessa impossibilidade que nasceu Handful of Rain. Mais do que um novo capítulo da discografia, este é um disco escrito a partir da ausência. A tristeza atravessa praticamente todas as composições, mas nunca assume a forma de sentimentalismo. Pelo contrário, Jon Oliva transforma o luto numa energia criativa extraordinária. Em vez de esconder a dor, decide habitá-la.

Musicalmente, o álbum possui uma serenidade invulgar. As explosões de agressividade continuam presentes, mas são equilibradas por momentos de enorme delicadeza, como se a banda compreendesse que certas emoções não podem ser expressas apenas através da força. A faixa-título constitui um dos momentos mais comoventes da carreira dos Savatage. Não porque fale explicitamente de Criss, mas porque toda ela parece construída sobre a consciência da fragilidade humana.

Também “Chance”, uma das composições mais ambiciosas alguma vez escritas pelos Savatage, demonstra até onde podia chegar a combinação entre complexidade estrutural e intensidade emocional. As diferentes vozes entrelaçam-se quase como personagens de uma tragédia grega, revelando uma maturidade composicional impressionante.

Zak Stevens confirma definitivamente que não era um substituto de circunstância. A sua interpretação revela uma empatia notável com o universo emocional das canções de Jon Oliva e Paul O’Neill, enquanto Alex Skolnick, convidado para gravar vários solos, demonstra enorme inteligência ao evitar qualquer tentativa de imitar Criss Oliva. Em vez de preencher um vazio impossível, respeita-o. É precisamente isso que faz de Handful of Rain um disco tão especial. Não tenta apagar a perda. Ensina-nos a viver com ela.

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Dead Winter Dead (1995) | Se Handful of Rain procurava compreender a dor individual, Dead Winter Dead alarga o olhar para uma tragédia colectiva. Inspirado pela guerra que devastava a antiga Jugoslávia, o álbum representa um dos momentos mais ousados da carreira dos Savatage.

Num género frequentemente acusado de escapismo, Jon Oliva e Paul O’Neill escolhem abordar um conflito contemporâneo marcado pelo ódio étnico, pela intolerância religiosa e pela destruição de comunidades inteiras. Mais do que tomar partido, o disco procura compreender o sofrimento humano produzido pela guerra. As personagens deixam de ser heróis ou vilões absolutos. Tornam-se vítimas de circunstâncias históricas que ultrapassam qualquer indivíduo.

Essa maturidade reflecte-se também na música. Os elementos sinfónicos deixam de surgir como ornamentação para se integrarem organicamente na composição. Tudo parece pensado em função da narrativa, antecipando de forma ainda mais evidente o trabalho que Jon Oliva e Paul O’Neill desenvolveriam paralelamente com a Trans-Siberian Orchestra.

É impossível falar deste álbum sem mencionar “Christmas Eve (Sarajevo 12/24)”. Concebida inicialmente como uma breve peça instrumental, a composição acabaria por adquirir vida própria, tornando-se um dos maiores fenómenos inesperados da música contemporânea e abrindo caminho ao sucesso gigantesco da Trans-Siberian Orchestra.

O curioso é que, dentro do contexto de Dead Winter Dead, a peça funciona sobretudo como símbolo da persistência da esperança no meio da devastação. Por vezes, a popularidade dessa composição faz esquecer a riqueza do restante álbum. É uma injustiça.

Dead Winter Dead constitui uma das reflexões mais maduras alguma vez produzidas pelo heavy metal sobre os mecanismos da guerra, da memória e da reconciliação. Sem discursos panfletários nem soluções fáceis, os Savatage demonstram que o metal podia abordar os grandes dramas do seu tempo com inteligência, sensibilidade e enorme dignidade.

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The Wake of Magellan (1997) | Se existe um álbum onde a maturidade artística dos Savatage atinge o seu ponto máximo, esse álbum talvez seja The Wake of Magellan. Inspirado livremente na história verídica de Veronica Guerin e, sobretudo, numa antiga decisão judicial relacionada com um salvamento marítimo, o disco utiliza o mar como metáfora para explorar temas como responsabilidade moral, coragem e sacrifício.

Estes elementos entrelaçam-se na história do lendário em torno de Fernão de Magalhães, que decidiu pôr fim à sua vida navegando com o seu pequeno barco para o Atlântico até que este se afundasse. Na sua mente, idealizou esta decisão como uma forma gloriosa e ao estilo dos vikings de morrer. Quando os ventos do oceano o empurram para uma grande tempestade e ele acredita que o seu desejo está prestes a ser concedido de forma grandiosamente dramática, de repente avista um homem a afogar-se no oceano.

Num instante, o famoso marinheiro português “desperta” e dá por si a retratar todos os desejos de abraçar a morte e luta para salvar essa alma. Após muitas reviravoltas, consegue salvar o clandestino que tinha sido atirado ao mar. Ao regressar à terra, percebe agora que não só cada vida é preciosa, mas também cada hora dessa vida.

Mais uma vez, Jon Oliva e Paul O’Neill recusam respostas simples. Interessa-lhes menos o acontecimento em si do que os dilemas éticos que dele emergem. Musicalmente, a banda encontra um equilíbrio quase perfeito entre todas as fases anteriores da sua carreira. O peso continua presente, mas nunca sufoca a melodia. As passagens orquestrais surgem com absoluta naturalidade. As mudanças de dinâmica deixam de surpreender porque parecem inevitáveis.

Zak Stevens realiza provavelmente a melhor prestação da sua carreira nos Savatage. A segurança adquirida ao longo dos anos permite-lhe interpretar personagens complexas sem recorrer ao excesso dramático. A emoção nasce da contenção. Também Jon Oliva, embora menos visível como vocalista principal, continua a exercer uma influência decisiva na escrita. A sua capacidade para construir melodias permanece intacta, enquanto Paul O’Neill garante à narrativa uma fluidez invulgar.

Sem pretensões de inovação, The Wake of Magellan impressiona pela sabedoria. É o trabalho de uma banda que já não sente necessidade de provar nada a ninguém. Em vez de procurar surpreender através da novidade, prefere aperfeiçoar uma linguagem construída ao longo de quase duas décadas. Talvez por isso muitos fãs o considerem o último grande monumento artístico dos Savatage. Não lhes falta razão.

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Poets and Madmen (2001) | No início do novo milénio, o panorama do heavy metal tinha mudado profundamente. O nu metal dominava as tabelas de vendas, a internet começava a transformar a indústria discográfica e a Trans-Siberian Orchestra absorvia uma parte crescente da energia criativa de Jon Oliva e Paul O’Neill. Seria fácil compreender se os Savatage optassem por um disco mais acessível ou nostálgico. Fizeram exactamente o contrário.

Poets and Madmen é talvez o álbum mais sombrio de toda a carreira dos Savatage. O regresso de Jon Oliva ao papel de vocalista principal devolve à música uma intensidade quase perturbadora, enquanto a escrita mergulha em temas como a loucura, a obsessão, a criação artística e os limites da razão. Longe de representar um simples exercício de regressão ao passado, o álbum procura reunir todas as linguagens desenvolvidas pela banda ao longo da década anterior.

O peso dos primeiros discos, a teatralidade de Gutter Ballet, a sofisticação narrativa de Streets e a maturidade filosófica de The Wake of Magellan coexistem aqui de forma surpreendentemente orgânica. Talvez lhe falte a unidade conceptual dos seus predecessores mais celebrados. Talvez não possua um clássico imediato da dimensão de “Hall of the Mountain King” ou “Edge of Thorns”. Mas seria profundamente injusto vê-lo como um epílogo menor na discografia dos Savatage. Pelo contrário.

Poets and Madmen soa como a obra de artistas completamente libertos de expectativas comerciais. Já não existe qualquer tentativa de seguir tendências ou conquistar novos públicos. Os Savatage escrevem apenas para permanecerem fiéis àquilo que sempre foram. Durante muitos anos, ninguém sabia que este seria o último álbum de estúdio da banda (pelo menos, o último por tanto tempo). Hoje, escutado retrospectivamente, possui uma estranha serenidade.

Não parece uma despedida deliberada. Parece antes um ponto final colocado por quem acreditava que ainda haveria tempo para escrever novos capítulos. O silêncio que se seguiu acabaria por durar muito mais do que qualquer um poderia imaginar.

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O Longo Silêncio

Quando Poets and Madmen foi editado, em 2001, como referimos atrás, ninguém imaginava que aquele seria o último álbum de estúdio dos Savatage durante mais de duas décadas. Não houve qualquer comunicado a anunciar o fim da banda, nem uma digressão de despedida que encerrasse oficialmente a história. Houve, simplesmente, um silêncio que se foi prolongando até parecer definitivo. Mas esse silêncio nunca significou inactividade.

Na verdade, os Savatage começaram lentamente a transformar-se noutra coisa. Desde Dead Winter Dead que Jon Oliva e Paul O’Neill vinham desenvolvendo uma linguagem onde o heavy metal convivia naturalmente com a música clássica, a tradição natalícia americana e a dimensão teatral que ambos sempre ambicionaram. O êxito inesperado de “Christmas Eve (Sarajevo 12/24)” abriu uma porta que ninguém previra. Quando a Trans-Siberian Orchestra nasceu oficialmente, em 1996, parecia apenas um projecto paralelo. Poucos anos depois, tornar-se-ia um fenómeno cultural nos Estados Unidos.

Seria injusto olhar para esse sucesso como um simples desvio de percurso. A Trans-Siberian Orchestra representa, em muitos aspectos, a continuação lógica daquilo que os Savatage haviam começado a construir em Gutter Ballet, Streets, Dead Winter Dead e The Wake of Magellan. O que mudou foi a escala. As ideias que antes cabiam num álbum de heavy metal passaram a exigir orquestras, coros, espectáculos multimédia e produções gigantescas.

Paradoxalmente, o triunfo da Trans-Siberian Orchestra acabou por contribuir para que os Savatage permanecessem em suspenso. Jon Oliva, Zak Stevens, Al Pitrelli, Johnny Lee Middleton e Jeff Plate continuavam ligados entre si, mas a prioridade artística e financeira deslocara-se inevitavelmente para o projecto de Paul O’Neill. Os anos foram passando e a hipótese de um novo disco parecia cada vez mais remota. Entretanto, o tempo cobrava o seu preço.

Em Abril de 2017, Paul O’Neill morreu inesperadamente, vítima de uma overdose acidental de medicamentos. A notícia caiu como um golpe devastador. Mais do que produtor ou empresário, O’Neill era o grande arquitecto conceptual da segunda metade da carreira dos Savatage. Fora ele quem acreditara que o heavy metal podia dialogar com a ópera, o teatro e a música sinfónica sem perder autenticidade. A sua morte parecia fechar definitivamente qualquer possibilidade de continuação.

Também Jon Oliva enfrentava problemas de saúde cada vez mais sérios. Lesões na coluna, múltiplas fracturas, esclerose múltipla e a doença de Ménière limitaram progressivamente a sua mobilidade, afastando-o dos palcos. Durante muito tempo, o próprio “Mountain King” admitiu que dificilmente voltaria a actuar regularmente.

Tudo parecia apontar para um fim silencioso. Mas poucas bandas desafiaram tantas vezes o destino como os Savatage.

O Regresso: Contra Todas as Expectativas

A história dos Savatage está cheia de regressos improváveis. Depois de Fight for the Rock, regressaram com Hall of the Mountain King. Depois da morte de Criss Oliva, responderam com Handful of Rain. Depois da erosão comercial dos anos noventa, produziram alguns dos discos mais ambiciosos da sua carreira. Talvez por isso não seja totalmente surpreendente que também tenham desafiado aquilo que parecia inevitável.

Em 2024 começaram finalmente a surgir sinais claros de que o nome Savatage voltava a ocupar um lugar central na vida dos seus músicos. Aquilo que durante anos parecera apenas um desejo dos fãs transformou-se gradualmente num projecto concreto. A banda anunciou o regresso à actividade ao vivo, preparando uma série de concertos para 2025, incluindo o Hellfest, a aguardada participação no Monsters of Rock, no Brasil, e uma presença de enorme significado no Wacken Open Air, na Alemanha, já em 2026.

Não se tratava apenas de uma reunião nostálgica. Os membros da banda repetiram várias vezes que este regresso pretendia celebrar toda a história dos Savatage, preservando simultaneamente o legado de Criss Oliva e de Paul O’Neill. Jon Oliva, apesar de impossibilitado de assumir um papel regular em palco devido ao seu estado de saúde, participou activamente na preparação do regresso, acompanhando os ensaios, orientando os restantes músicos e reafirmando que a banda continuava a existir enquanto entidade criativa. Essa distinção é importante.

Os Savatage nunca dependeram exclusivamente da presença física dos seus membros. Desde Streets que a banda funciona quase como uma comunidade artística, onde diferentes músicos entram e saem, mas a visão permanece surpreendentemente intacta. Talvez seja essa a razão pela qual o reencontro foi recebido com uma emoção invulgar por parte dos fãs. Não representava apenas o regresso de uma banda. Representava a sobrevivência de uma ideia. Uma ideia segundo a qual o heavy metal pode ser simultaneamente poderoso e sensível, grandioso e profundamente humano.

Curtain Call e o Futuro de uma Obra Inacabada

Durante anos, sempre que surgia uma entrevista com Jon Oliva, a mesma pergunta acabava inevitavelmente por aparecer: haverá um novo álbum dos Savatage? A resposta foi mudando ao longo do tempo. Por vezes parecia um sonho distante. Noutras ocasiões, Jon revelava que possuía dezenas de composições inacabadas, algumas delas escritas ainda em colaboração com Paul O’Neill. Lentamente começou a tornar-se claro que existia, de facto, material suficiente para um novo disco.

Esse disco tem, há muito, um título: Curtain Call. É um nome carregado de simbolismo. No teatro, a curtain call corresponde ao momento em que os actores regressam ao palco, depois da última cena, para receberem o aplauso do público. Difícil imaginar metáfora mais apropriada para uma banda cuja carreira sempre viveu entre a teatralidade, a tragédia e a capacidade de renascer quando tudo parecia perdido.

Ao longo dos últimos anos, Jon Oliva confirmou repetidamente que pretende concluir esse álbum. Algumas canções remontam aos primeiros anos do século XXI; outras nasceram muito mais tarde. Algumas foram escritas com Paul O’Neill, outras desenvolvidas já depois da sua morte. Independentemente da forma final que venha a assumir, Curtain Call transportará inevitavelmente o peso de toda a história da banda. Será impossível escutá-lo sem pensar em Criss Oliva. Será impossível ouvi-lo sem sentir a ausência de Paul O’Neill. Mas talvez seja precisamente essa a essência dos Savatage.

Desde Handful of Rain que aprenderam a transformar a perda em criação. Desde Dead Winter Dead que compreenderam que as maiores tragédias podem gerar actos de beleza inesperada. E desde The Wake of Magellan que nos lembram que nenhuma viagem termina verdadeiramente enquanto existir alguém disposto a contar a história.

Se Curtain Call vier efectivamente a tornar-se realidade, será recebido como um acontecimento histórico. Não apenas porque marcará o regresso de uma das bandas mais amadas do heavy metal, mas porque representará o último capítulo de uma narrativa iniciada ainda quando Jon e Criss Oliva ensaiavam sob o nome Avatar, nos clubes da Florida. Se, pelo contrário, esse disco nunca chegar a existir, a obra permanecerá extraordinariamente completa.

Poucos grupos conseguiram construir uma discografia tão coerente e, ao mesmo tempo, tão diversa. Poucos atravessaram duas décadas de transformações profundas sem perderem identidade. Poucos foram capazes de unir riffs memoráveis, melodias inesquecíveis, virtuosismo instrumental, ambição literária, teatralidade, reflexão filosófica e uma humanidade tão desarmante.

Ainda menos bandas conseguiram transformar a própria vida numa história tão próxima daquelas que escreveram nas suas canções. Como as personagens de Streets, Dead Winter Dead ou The Wake of Magellan, também os Savatage conheceram o sucesso e o fracasso, a glória e a perda, o silêncio e a redenção. É por isso que, mais de quarenta anos depois da sua fundação, continuam a ocupar um lugar absolutamente singular na história da música pesada.

E é por isso que o título deste artigo talvez já não pareça uma provocação. Talvez pareça apenas uma hipótese que merece, finalmente, ser levada a sério.

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