O Diabo do Entrudo

O Diabo do Entrudo

“O Diabo do Entrudo” e o resgate da identidade de Lazarim. O documentário de Diogo Varela Silva é mais do que um registo visual; é uma imersão nos rituais de inversão e na arte milenar das máscaras de madeira que definem a vila do concelho de Lamego.

Nas montanhas do concelho de Lamego, o som do cinzel a bater na madeira de amieiro dita o ritmo dos meses de Inverno. Não é um som qualquer: é o nascimento de um “diabo”. Este processo, onde a matéria bruta ganha expressões grotescas, satíricas e profundamente humanas, é o coração pulsante de O Diabo do Entrudo, o documentário realizado por Diogo Varela Silva que tem vindo a coleccionar prémios internacionais, incluindo o prestigiado Gold Award nos Florence Film Awards.

O Diabo do Entrudo, que teve a sua estreia mundial no DocLisboa em Outubro de 2024, não se limita a filmar uma festa de Carnaval. Ele propõe uma viagem ao um dos Entrudos mais autênticos de Portugal, onde a tradição não é uma encenação para turistas, mas um rito de passagem e uma catarse social necessária à sobrevivência daquela comunidade. A narrativa de Diogo Varela Silva afasta-se do documentário puramente expositivo para adoptar uma linguagem mais sensorial. O filme acompanha o ciclo de criação das máscaras, desde a escolha da árvore até ao momento em que estas ganham vida nas ruas.

O espectador é introduzido no quotidiano dos artesãos de Lazarim — homens e mulheres que, com as mãos calejadas, perpetuam um saber que não se ensina em livros. A câmara detém-se nos pormenores: o cheiro da madeira fresca, a poeira que dança na luz das oficinas e o silêncio concentrado que antecede o caos do Entrudo. Em Lazarim, o Carnaval começa meses antes, no acto solitário de esculpir a própria “outra identidade”.

Para compreender a força de O Diabo do Entrudo, é preciso compreender o Entrudo de Lazarim. Ao contrário do Carnaval brasileiro ou dos desfiles urbanos, Lazarim mantém uma ligação umbilical com as festas pagãs de inverno e os rituais de fertilidade.

O centro da acção são os Caretos. Estas figuras, vestidas com trajes de lã e cobertas pelas icónicas máscaras de madeira, representam a suspensão da ordem estabelecida. Durante os dias de Entrudo, o Careto é anónimo e, por isso, livre. Pode saltar, assustar, brincar e, acima de tudo, dizer as verdades que a sobriedade do resto do ano proíbe.

O Diabo do Entrudo explora com mestria a divisão entre os “Compadres” e as “Comadres”. Este é um dos aspetos mais singulares de Lazarim: a guerra satírica de sexos. Na Terça-feira de Carnaval, leem-se os “Testamentos”. Dois jovens, empoleirados em estruturas de madeira, leem em voz alta os pecados e as “vergonhas” dos solteiros e solteiras da aldeia, num exercício de sátira comunitária que Diogo Varela Silva capta com uma crueza e humor notáveis.

O grande protagonista visual do filme é, sem dúvida, a máscara de madeira de amieiro. O amieiro é uma madeira leve, fácil de esculpir quando fresca, mas resistente após secar — uma metáfora perfeita para o povo da região. Cada máscara é única. Algumas têm chifres, outras dentes de animais, outras expressões de uma ironia mordaz. No documentário, vemos como estas máscaras funcionam como um escudo psicológico.

Quando um habitante de Lazarim coloca a máscara, ele deixa de ser o agricultor, o mecânico ou a dona de casa; ele torna-se o “Diabo”, uma entidade ancestral que liga o mundo dos vivos ao mundo das energias indomadas da natureza.

Diogo Varela Silva e a Memória do Povo Banhados em Ouro

O sucesso de O Diabo do Entrudo em festivais internacionais — passando por Roma, Milão, Nova Iorque e Bulgária — demonstra que a “aldeia global” tem sede de “aldeias reais”. O júri dos Florence Film Awards destacou a capacidade do filme de elevar uma tradição local ao estatuto de obra de arte universal.

A vitória nos Estados Unidos (Silver Award nos New York Movie Awards) é particularmente significativa, revelando que a estética dos caretos portugueses possui um impacto visual que comunica para além das barreiras linguísticas. O público de Santarém, ao atribuir-lhe o Prémio do Público, confirmou o que os júris técnicos já suspeitavam: o filme emociona porque é verdadeiro.

«’O Diabo do Entrudo’ não é apenas sobre o passado; é sobre a vitalidade do presente. Mostra-nos que, enquanto houver alguém em Lazarim a empunhar um cinzel, a alma de Portugal continuará a ter rosto — mesmo que seja um rosto de diabo».

Diogo Varela Silva consolida-se com esta obra como um dos mais importantes guardiões da memória imaterial portuguesa no cinema contemporâneo. Depois de ter explorado o Fado e a vida nos bairros históricos de Lisboa, o realizador subiu ao Norte para provar que a identidade nacional é plural e profunda. A sua lente evita o folclore “para exportação”. Pelo contrário, O Diabo do Entrudo é um filme de texturas, de rostos suados e de vozes roucas. É um documento histórico que serve de baluarte contra a descaracterização cultural.

O Diabo do Entrudo, A Alma do Amieiro

O documentário culmina com a queima do “Burro do Entrudo”, o momento em que as tensões da comunidade são purificadas pelo fogo. Mas, como o filme tão bem demonstra, algo permanece. Permanecem as máscaras, guardadas como relíquias nas casas de Lazarim, e permanece agora este registo cinematográfico que garante que a voz do povo de Lamego nunca será silenciada pelo tempo.

O Diabo do Entrudo é um triunfo do cinema documental, provando que as melhores histórias não precisam de efeitos especiais — apenas de um bom artesão, de um pedaço de amieiro e da coragem de olhar o diabo nos olhos.

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