«A pior coisa que aconteceu aos músicos», é como Björk se refere ao Spotify. A icónica artista islandesa descreve o modelo de streaming como um ecossistema que sufoca a nova geração e destrói o mistério necessário à grande arte.
Björk sempre foi vista como uma ponte viva entre a natureza primordial e a tecnologia mais avançada. No entanto, numa reviravolta que está a ecoar por toda a indústria musical, a “fada da eletrónica” deixa-nos um aviso severo, sobre uma realidade cada vez mais latente: o actual modelo de consumo digital está a falhar com aqueles que criam.
Sentada para promover a versão condensada do seu épico visual Cornucopia — agora disponível como o filme de concerto Apple Music Live: Björk — a artista não se limitou a falar de pixéis ou de acústica. Em vez disso, dissecou a economia da música moderna com a precisão de um cirurgião. Ao falar ao jornal Dagens Nyheter, Björk foi inequívoca sobre o papel da plataforma liderada por Daniel Ek.
«Sou sortuda porque já não tenho de angariar dinheiro em digressões, algo que os músicos mais jovens são frequentemente forçados a fazer», confessou. «Nesse aspeto, o Spotify é provavelmente a pior coisa que aconteceu aos músicos. A cultura do streaming mudou uma sociedade inteira e uma geração inteira de artistas».
Para Björk, o problema não é apenas a escassez de cêntimos por reprodução; é a erosão da liberdade criativa. No passado, um álbum podia sustentar um artista, permitindo-lhe desaparecer no estúdio para o projecto seguinte. Hoje, sem a receita das vendas directas, o músico tornou-se um trabalhador nómada, forçado a viver numa estrada perpétua para pagar as contas.
Um dos pontos mais fascinantes da crítica de Björk reside na filosofia da criação. A artista, que passou cinco anos a desenvolver o conceito de Cornucopia, defende que a visibilidade total e instantânea do streaming é tóxica para a génese da arte. «Para que a semente cresça e se torne uma planta saudável, precisas de privacidade», explicou. «Precisas de alguns anos sem que ninguém saiba o que estás a fazer».
Esta “escuridão” criativa — o direito de errar e de experimentar longe do olhar público e das métricas de desempenho em tempo real — está a desaparecer. No ecossistema do Spotify, o artista é incentivado a alimentar o algoritmo com uma frequência que não respeita o tempo biológico da inspiração. Se não publicares, não existes; se não fizeres digressão, não comes.
Esta não é a primeira vez que a islandesa entra em rota de colisão com o gigante sueco de streaming. Já em 2015, Björk reteve o álbum Vulnicura da plataforma por vários meses. Na altura, a sua lógica era simples e quase romântica: «Trabalhas num álbum durante dois ou três anos e depois… ‘aqui está, de graça’». Onze anos depois, a sua previsão parece ter-se concretizado de forma mais sombria. Enquanto o streaming salvou a indústria da pirataria desenfreada do início do milénio, criou uma nova elite de bilionários tecnológicos enquanto a classe média dos músicos desaparecia.
Ironia
Alguns críticos apontaram a ironia de Björk lançar estas críticas enquanto promovia um filme numa plataforma concorrente, a Apple Music. No entanto, para a equipa da artista, há uma distinção qualitativa. A Apple tem tentado posicionar-se como uma “curadora” de alta fidelidade (através do Áudio Espacial e de pagamentos ligeiramente superiores por stream), contrastando com a abordagem de “utilitário de massa” do Spotify.
O filme Cornucopia, gravado em Lisboa, é em si um acto de rebeldia. É uma experiência imersiva, complexa e cara, que Björk admite que só a conseguiu realizar porque já tinha uma base de fãs sólida antes da era do streaming gratuito. A grande questão deixada pela entrevista de Björk não é sobre o seu futuro — que está assegurado pelo seu estatuto de lenda — mas sobre quem será a “próxima Björk”.
Se os novos génios da vanguarda forem obrigados a passar 300 dias por ano numa carrinha de digressão para sobreviver, onde encontrarão o silêncio para compor a próxima revolução sonora? Para a islandesa, a resposta é clara: o sistema actual está configurado para o consumo, não para a criação. Resta saber se a indústria ouvirá o aviso da mulher que, há décadas, antevê o futuro antes de todos nós.
Na imagem que abre o artigo, Björk, fotografada por Vidar Logi em Londres, Novembro de 2024.

Um pensamento sobre “Björk, Manifesto Anti-Spotify a Partir de Lisboa”