“Diary Of A Madman” é a obra-prima de Randy Rhoads, onde mesmo sobre pressão de prazos o guitarrista conseguiu, ao lado de Bob Daisley e Lee Kerslake, aperfeiçoar o seu som de marca, a fusão entre o heavy metal e a música clássica, criando o álbum mais complexo de Ozzy Osbourne.
Como muitos sabem, Randy Rhoads era um guitarrista de formação clássica. Nesse sentido, este álbum é a sua obra-prima e um tremendo testamento do seu talento, particularmente na canção que partilha o título com o disco, “Diary Of A Madman”. As pistas para a sua genialidade encontram-se logo nos incomuns 174 bpms (ou a sua metade a 87 bpms), em tónica D♯/E♭ e modo menor.
Tal como sucede na quase totalidade do álbum, Bob Daisley escreveu a letra, inspirado por um esgotamento que sofreu na adolescência, e Randy Rhoads desenvolveu a maioria da estrutura musical, com a banda a finalizar o tema em conjunto. Os compassos parecem “quadrados”, pelos brilhantes dedilhados de Rhoads, mas “Diary Of A Madman” é executada em 4/3, mas sincopada em 4/7 o que brilhantemente traduz a confusão do estado mental narrado: «Entries of confusion /Dear diary, I’m here to stay […] Sanity now is beyond me / There’s no choice».
Desde a enteogénica “Over The Mountain”, uma insana projecção astral que nos remete para o pomposo Zarathustra de Nietzsche no alto da sua montanha, com os complexos bombos duplos e tom rolls de Kerslake, estamos diante de um tipo de metal que os Black Sabbath nunca tinham tentado. “Over The Mountain” é uma aula magistral de heavy metal do início dos anos oitenta que não é nem thrash, nem NWOBHM, nem um precursor do hair metal ou do glam. É simplesmente heavy metal no sentido mais clássico, temperado com um riff verdadeiramente luciferino durante a bridge antes do solo.
Depois “Flying High Again”, mais acessível, mas nunca esvaziada de sangue efervescente, com aquele insinuante riff. O solo de Rhoads nesta malha é um dos seus melhores e coloca-o ao lado Eddie Van Halen, nessa tão célebre disputa na época. Uma das duas canções que Ozzy intitulou neste álbum foi “You Can’t Kill Rock and Roll”. Depois de uma deslumbrante introdução acústica, a canção floresce ao longo de sete minutos numa balada poderosa e sentida. Uma vez mais, uma prova do amadurecimento da fusão neo-clássica tão característica de Randy.
O lado um termina com “Believer”e os baixos ameaçadores de Bob Daisley. O lado dois começa, uma vez mais, com Lee Kerslake a mostrar o seu talento para o peso demolidor no drumkit. Depois dessa declaração de força bruta, a banda entra a esmagar com o seu groove Neandertal em “Little Dolls”. Daisley sempre disse que é uma música sobre voodoo que não contém a palavra voodoo.
Randy Rhoads teve muito pouco tempo para desenvolver os seus solos neste álbum e “Little Dolls” foi uma das malhas que mais sofreu com isso. Randy adorava duplicar ou triplicar as suas pistas, uma assinatura importante. Esta canção tem claramente uma única guitarra no solo. Diz-se que foi apenas a “pista guia” inicial de Rhoads que chegou à versão final do álbum. O produtor Max Norman refuta isso, tendo sempre afirmado que foi um último take, mas que não houve tempo para colocá-lo em camadas. “Tonight” é outra balada linda, com um solo imponente de Rhoads que abre clarões de luz entre as nuvens densas a pairar sobre a voz de Ozzy.
Depois “S.A.T.O.” e até ao épico coro final de “Diary Of A Madman”, este álbum transmite uma aura desconfortável, de que as coisas não estão exactamente arredondadas, como o valor de π. No fundo, uma espiral e, talvez por isso, este álbum não agradou tanto aos fãs que eventualmente esperariam o heavy metal mais imediatista de “Blizzard Of Ozz”.
Enquanto álbum, em cada uma das músicas, “Diary Of A Madman” muito mais difícil de antecipar. Como Bob Daisley refere em entrevista à plataforma Songfacts: «O Ozzy ia e vinha para os ensaios. Um dia chegou e tocámos-lhe ‘Diary Of A Madman’ e, devido aos seus compassos estranhos, ele não conseguia atinar com a malha. Disse-nos. ‘Quem caralho pensam que sou? O Frank Zappa?’ Explicámos-lhe ‘Cantas aqui e nesta parte não cantas. O compasso é este, etc.’ Só então ele começou a apreciar a malha».
A banda está tão coesa, o som de estúdio é tão bom, que é uma pena que esta formação fundamental não tenha conseguido fazer um terceiro álbum junta. Bob Daisley (baixo) e Lee Kerslake (bateria) foram pivotais na criação de “Diary Of A Madman”, ao lado de Randy Rhoads. Talvez pela sua preponderância tenham sido descartados obscenamente pelo management de Ozzy, sendo removidos dos créditos na edição norte-americana (trocados até nas fotografias por Rudy Sarzo e Tommy Aldridge) e, após uma longa disputa legal, para os privar de maiores royalties, Ozzy regravou as baterias e os baixos de “Diary Of A Madman” em 2002, com Robert Trujillo e Mike Bordin a desempenharem essas tarefas.
Sinceramente, é algo que nunca ser percebeu muito bem. Quanto a Randy Rhoads, era impossível tentar “apagar” a sua identidade deste disco que é a sua obra-prima. Infelizmente, foi poucos meses depois da edição de “Diary Of A Madman”, durante a digressão promocional do álbum, que o Príncipe da Guitarra Eléctrica conheceu o seu trágico destino.
