Pedro Neves lança Northern Train, álbum em quarteto e inspirado em viagens e contemplação. Uma vez mais, o selo Carimbo Porta‑Jazz está estampado num disco seu.
O pianista e compositor português Pedro Neves acaba de lançar o seu mais recente álbum, Northern Train, em formação de quarteto, através do selo Carimbo Porta-Jazz da Associação Porta-Jazz. É a edição n.º 118 deste catálogo, que se mantém como um dos projectos discográficos mais coerentes e enriquecedores do jazz nacional. Com Pedro Neves ao piano, o álbum gravado nos Arda Recorders conta com Javier Pereiro no trompete, Miguel Ângelo no contrabaixo e José Marrucho na bateria.
Desde o seu primeiro disco, Ausente (2013), Pedro Neves tem-se destacado por uma escrita sensível e lírica, sempre com uma clara capacidade de conjugar composição estruturada e improvisação. A sua discografia já inclui títulos como 5:21 (2016), Murmuration (2019) e Hindrances (2022), todos editados pela Porta-Jazz. O recente Northern Train surge, assim, como um novo elo numa cadeia de obras que exploram a introspecção, o espaço e a paisagem emocional, sempre com uma forte identidade pianística.
Pedro Neves descreve a inspiração do álbum de forma poética: «É nesta pausa imposta da natureza que reside a inspiração para a viagem deste comboio», escreve. A imagem da janela do comboio, das paisagens que se sucedem enquanto o tempo parece suspenso, traduz-se numa «jornada de contemplação, que absorve a liberdade de cada imagem captada na moldura da janela». É uma «pausa irrequieta, em movimento constante» — uma sensação de quietude e urgência ao mesmo tempo, uma urgência tranquila. «Nada é urgente. Aguardo. Chegar».
Musicalmente, Northern Train conjuga a firmeza da escrita de Pedro Neves com a flexibilidade sonora típica de um quarteto bem ensaiado. A presença de Javier Pereiro acrescenta profundidade tímbrica: o trompete introduz camadas melódicas e momentos de diálogo com o piano, ao passo que o contrabaixo de Miguel Ângelo e a bateria de José Marrucho fornecem não apenas suporte rítmico, mas também impulso e dinâmica nos momentos mais contemplativos. A escolha deste quarteto indicia maturidade do pianista: ele sabe que a sua música ganha potência quando cercada por músicos que compartilham a mesma sensibilidade.
A concepção de Northern Train parece reflectir tanto uma viagem interior quanto exterior: há no disco uma sensação de climatologia, com paisagens auditivas que evocam frio, paragem, movimento e espera. É como se este comboio imaginário estivesse constantemente a atravessar zonas de transição — entre o silêncio e o som, entre o instante e a memória, entre o presente e aquilo que ainda vai chegar.
Este novo álbum foi já apresentado ao vivo: no dia 29 de Outubro, Pedro Neves estreou Northern Train no Auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), numa actuação em que o público teve a oportunidade de ouvir as composições ao vivo com os mesmos músicos do disco. Segundo Neves, a gravação foi realizada em Janeiro, num ambiente climático de inverno, «com a chuva lá fora», o que reforça ainda mais a ideia de que a paisagem física e meteorológica influenciou diretamente a criação musical.
Para o ouvinte, Northern Train oferece mais do que meras canções: é um convite à contemplação, à reflexão, ao desacelerar. Num mundo em que tudo parece urgente, Pedro Neves propõe uma pausa — urdindo uma música em que a espera não é vazia, mas cheia de significado. A sensação de “aguardar” não é resignada, mas activa: é o momento antes do chegar, e esse “chegar” pode ser tanto físico quanto emocional. O lançamento de Northern Train não é apenas mais um disco no catálogo Porta-Jazz: representa a continuidade de um projecto de autor que constrói com cuidado, ano após ano, uma música profundamente pessoal, mas com capacidade de ressoar colectivamente.
A Associação Porta-Jazz, sem fins lucrativos, tem sido precisamente esse suporte essencial para músicos como Neves — promovendo concertos, produzindo álbuns e mantendo uma plataforma comprometida com a criatividade e a inovação jazzística em Portugal.
