Uma das mais aclamadas bandas do pós-hardcore, os Planes Mistaken for Stars editaram o álbum “Do You Still Love Me?”, o trabalho final de Gared O’Donnell e um pungente e angustiante documento de vida, morte e transcendência da banda nascida em Peoria, Illinois.
Os Planes Mistaken For Stars regressaram com “Do You Still Love Me?”, o seu quinto álbum e aquele que será o último, editado já depois da morte do guitarrista/vocalista Gared O’Donnell, que faleceu em 2021, após uma batalha contra um cancro no esófago, aos 44 anos. Escrito em Peoria, Illinois, durante o confinamento pandémico, o trabalho foi gravado por Sanford Parker (Yob, Spirit Adrift) em Chicago.
“Do You Still Love Me?” é o segundo álbum dos Planes Mistaken For Stars na Deathwish Records e sucede ao fabuloso “Prey” (2016), disco feroz, melódico e intenso, com uma tremenda sonoridade e que quebrou também, na altura, um hiato que durava desde 2006, quando lançaram “Mercy”. Desta vez, o hiato obedeceu às forças mais inexoráveis do destino.
Escritas em Peoria, no meio do isolamento forçado de uma pandemia global, e gravadas por Sanford Parker em Chicago, estas treze canções fazem arder os ouvidos. A abertura do álbum, “Matthew is Dead”, não perde tempo com simpatias enquanto os Planes Mistaken for Stars choram a morte em 2017 do guitarrista fundador Matt Bellinger – a voz de Gared, rasgada na garganta, eclode como se se provocasse a si próprio: You’re dead, you’re dead, you’re dead – gritos humanos guturais descarnados e vidros partidos estilhaçados como meditação transcendental e catarse musical, tanto para a banda como para o ouvinte.
Estes momentos agudos e crus encontram-se em todo o disco, feridas audíveis que se podem ouvir, ver, saborear e quase tocar. Só nos resta a noite, como Gared sabia, pregava e vivia. Só uma última bebida, vamos começar?
“Do You Still Love Me?” prossegue a evolução natural dos Planes para além do post-hardcore e do rock ‘n’ roll com toques de metal, revelando novas camadas a cada audição. Vocais entrelaçados e melodias contagiantes fervilham sob a superfície e ocasionalmente transbordam, estilhaços de guitarra atingem como um relâmpago enquanto a secção rítmica bate as suas ordens de marcha. Seja agredindo sem piedade ou cuidando com ternura, “Do You Still Love Me?” mostra uma banda sem medo de se perder num turbilhão musical.
Os Planes Mistaken For Stars ficarão na história como uma das melhores bandas da cena post-hardcore. Mas isso não os dispensou de um percurso cheio de chagas. “Do You Still Love Me?” não só foi lançado depois da morte Gared O’Donnell, como o seu diagnóstico de cancro pairou fortemente sobre a gravação. No entanto, a quimioterapia e a radiação não impediram O’Donnell de criar esta obra-prima, na qual a banda se encontra a sentir os horrores angustiantes da ausência inimaginável do seu líder, cujo espírito pairou sobre a finalização (mistura e masterização). Dessa forma, este é um documento angustiante de vida, morte e transcendência.
O’Donnell só ouviu as primeiras misturas deste disco. Apesar de ter conseguido gravar as suas malhas e ajudar a determinar quais as canções que fariam parte do disco e qual a ordem em que deveriam ser colocadas, morreu antes de a mistura estar concluída.
São os Planes Mistaken For Stars que deixam o testemunho. «A sua partida deixou-nos a todos com uma tarefa assustadora: completar a nossa visão partilhada deste disco sem ele, ao mesmo tempo que processávamos a dor existencial que inevitavelmente acompanha a perda de um irmão, um amigo, um pai, um marido. A sua voz assombrou-nos em cada passo, em cada reprodução, em cada mistura, em cada decisão. Fizemos o nosso melhor para honrar a sua memória e para transformar este disco em algo que pensámos que ele iria adorar e de que se orgulharia. Esperamos tê-lo feito bem…
A maioria das ideias para as canções deste disco tiveram origem na casa do Gared e da Becca, em Peoria, IL, pouco depois de o Gared ter recebido o diagnóstico de cancro e enquanto o Neil estava isolado aí, durante a pandemia da COVID. O Neil e o Gared criaram e documentaram inúmeras horas de música juntos durante esse período, algumas das quais resultaram nas gravações de Blunt Razors. As músicas selecionadas para os Planes Mistaken For Stars foram partilhadas com o Mongo e o Chuck e as demos foram preparadas antes de serem gravadas com o Sanford, em Chicago».
Este método de arranjos foi uma enorme e estranha novidade para os Planes Mistaken For Stars, como confessam os póprios mas deu à banda uma possibilidade para experimentar e tentar coisas novas, que se traduzem no disco que, ainda assim, transporta a energia bruta e a magia que sempre foi para produzida por estes músicos.
Não é uma audição fácil, mas oferece imensas recompensas com o tempo, concretizando de modo alquímica uma beleza singular, a partir da dor e da tragédia da sua criação. É um derramamento de sangue emocional para os Planes Mistaken for Stars e a sua família alargada em todo o mundo, um grito primordial colectivo de lidar com a vida e os últimos suspiros, e a prova eterna de que a morte não é verdadeiramente o fim.
P.S.: Será este o fim dos Planes Mistaken for Stars? Em suma, sim… O Gared foi a força motriz original dos Planes Mistaken for Stars. [A banda] era o seu bebé e todos nós ajudámos a dar à luz. Com a morte do Gared, nunca lhe poderíamos fazer justiça. Dito isto, ele deixou-nos com uma riqueza de músicas não lançadas e inacabadas que nós (como seus companheiros de banda e amigos) continuaremos a trabalhar e a lançar em sua homenagem. Embora este possa ser o último disco dos Planes Mistaken For Stars que o Gared veio a ouvir, esperamos que não seja o último do nosso legado.
