Porto Drum Show

Porto Drum Show 2026: A Bateria Toma Conta da Alfândega

Cada vez mais firmado no panorama internacional, o Porto Drum Show 2026 regressa à Alfândega do Porto em Novembro, reunindo grandes bateristas, formação e educação, marcas e uma comunidade em torno da bateria.

De 21 a 22 de Novembro, a Alfândega do Porto volta a transformar-se num ponto de encontro para bateristas, percussionistas, músicos, professores, fabricantes, escolas e público, com mais uma edição do Porto Drum Show. Criado em 2004 por Hugo Danin, o evento começou como uma iniciativa dedicada à bateria e à percussão num contexto em que ainda não existia em Portugal uma plataforma com esta dimensão e foi crescendo, ao longo de mais de duas décadas, até se tornar uma referência internacional.

A edição de 2026 reúne alguns dos nomes mais reconhecidos da bateria contemporânea, mas a dimensão do Porto Drum Show ultrapassa há muito a ideia de uma sucessão de clínicas e demonstrações de virtuosismo.

A história é importante porque ajuda a perceber aquilo que o Porto Drum Show é hoje. Nas primeiras edições, realizadas no CACE Cultural do Porto, a organização teve de construir praticamente tudo de raiz, desde as condições técnicas e a separação dos espaços à própria dinâmica de acolhimento do público e dos artistas. Duas décadas depois, a Alfândega do Porto oferece uma escala muito diferente e o evento apresenta-se já como uma plataforma que cruza espectáculo, educação, exposição e contacto entre profissionais. A própria organização contabiliza mais de oito edições, mais de 60 artistas internacionais e mais de 10 mil visitantes.

É também por isso que chamar-lhe simplesmente um festival de bateria será redutor. A bateria está no centro, evidentemente, mas o que se construiu à sua volta é uma pequena comunidade cultural com várias portas de entrada. Há quem vá para ver um dos grandes nomes internacionais, quem esteja interessado em aprender, quem procure equipamento, quem trabalhe no sector ou quem simplesmente queira perceber melhor um instrumento que, apesar da sua importância na história da música popular, raramente tem um espaço próprio desta dimensão.

O Main Stage, instalado na Sala dos Despachantes da Alfândega, concentra a dimensão espectacular do evento. Em 2026, a programação já anunciada coloca no mesmo cartaz músicos provenientes de universos bastante diferentes, o que é talvez uma das características mais interessantes do Porto Drum Show. El Estepario Siberiano sobe ao palco a 21 de Novembro, acompanhado no mesmo dia por Todd Sucherman e Noah Fürbringer. No dia seguinte chegam Matt Garstka, Miguel Lamas Trio e Nathan. A programação final ainda está a ser completada, mas o conjunto anunciado permite desde já perceber a amplitude estética procurada pela organização.

El Estepario Siberiano representa uma das transformações mais evidentes na relação entre bateria, performance e cultura digital. A extraordinária velocidade, resistência física e capacidade técnica que fizeram do baterista espanhol uma das figuras mais populares das redes sociais colocaram o instrumento diante de uma audiência que muitas vezes o conhece primeiro através do ecrã. O fenómeno é interessante precisamente porque a bateria sempre teve uma dimensão espectacular, mas as plataformas digitais transformaram essa espectacularidade numa linguagem autónoma, capaz de circular muito para além do contexto de uma banda.

Todd Sucherman chega de uma tradição diferente, embora igualmente marcada pela exigência técnica e pela musicalidade. O baterista dos Styx construiu uma carreira longa dentro do rock de arena e tornou-se uma referência entre bateristas precisamente pela capacidade de fazer a técnica trabalhar ao serviço da canção. Ao lado dele estará Noah Fürbringer, representante de uma geração mais recente e de uma linguagem onde jazz, groove, improvisação e cultura digital convivem com naturalidade.

No Domingo, Matt Garstka traz para o Porto uma das linguagens mais sofisticadas da bateria contemporânea. O seu trabalho com os Animals as Leaders tornou-o uma figura central do actual universo do metal progressivo e da fusão, onde polirritmia, precisão e independência dos membros deixam de ser exercícios meramente técnicos para passarem a constituir parte da própria composição. A presença de Miguel Lamas Trio introduz uma perspectiva diferente e particularmente relevante para um evento realizado em Portugal: a possibilidade de colocar músicos nacionais e internacionais dentro da mesma programação, sem que uns apareçam simplesmente como complemento dos outros. Nathan completa o cartaz anunciado para o segundo dia.

Mas talvez a parte mais reveladora do Porto Drum Show esteja fora do palco principal. A Education Zone nasceu como espaço para apresentar músicos emergentes e trabalhos ligados ao ensino, mas foi evoluindo para uma área mais abrangente de partilha, onde pedagogia, experiência profissional e desenvolvimento artístico se encontram. Workshops e masterclasses permitem que aquilo que normalmente vemos à distância — o músico no palco, atrás do instrumento — seja desmontado e discutido com quem está a aprender. A bateria deixa de ser apenas espectáculo e passa a ser também conhecimento transmitido de uma geração para outra.

Há depois o Showroom, onde a relação com o instrumento assume uma dimensão quase física. Marcas, lojas, distribuidores, artesãos, escolas, professores, músicos independentes, editoras e outros projectos ligados à música podem apresentar produtos e trabalho directamente ao público. Num tempo em que grande parte da descoberta de equipamento acontece através de vídeos, lojas online e redes sociais, existe alguma importância em voltar a colocar instrumentos diante de pessoas que podem vê-los, experimentá-los, compará-los e conversar com quem os constrói ou representa.

Essa dimensão de indústria não é um acrescento artificial ao evento. Faz parte da própria história do Porto Drum Show. A organização identifica no showroom uma tentativa de recuperar em Portugal um conceito de exposição de equipamento musical que tinha desaparecido durante mais de duas décadas, criando um espaço onde marcas e público possam estabelecer uma relação directa.

Em 2026 há ainda uma aposta explícita na próxima geração através do PDS Best New Drummer, competição destinada a novos bateristas. É uma iniciativa que completa o círculo: o Porto Drum Show não se limita a trazer ao Porto músicos que já construíram uma carreira; procura também criar condições para que aqueles que hoje estão a começar possam ser vistos e reconhecidos. É uma evolução coerente com a própria natureza da bateria. Poucos instrumentos têm uma relação tão evidente entre aprendizagem, corpo e comunidade. Aprende-se através da repetição, da observação e da escuta, mas também através da convivência com outros músicos.

Uma boa parte da história da bateria moderna fez-se precisamente assim: em salas de ensaio, escolas, lojas, clínicas, concertos e encontros onde um baterista vê outro fazer qualquer coisa que ainda não consegue fazer e passa depois meses a tentar perceber como diabos aquilo se faz. O Porto Drum Show nasceu dessa necessidade de criar um espaço para o instrumento e acabou por construir uma plataforma muito maior do que a que inicialmente lhe deu origem.

O crescimento do evento acompanha, de certa forma, a própria transformação da bateria na cultura musical contemporânea: de instrumento que muitas vezes permanecia escondido atrás dos restantes músicos para protagonista, objecto de estudo, ferramenta tecnológica, espectáculo visual e território de experimentação.

Durante dois dias, portanto, a Alfândega não será apenas um lugar onde alguns dos melhores bateristas do mundo vão tocar. Será uma espécie de cidade temporária construída à volta do ritmo: com músicos, alunos, professores, fabricantes, técnicos, coleccionadores, curiosos e público a circular pelo mesmo espaço. E talvez seja essa a melhor maneira de entender o Porto Drum Show depois de mais de vinte anos de existência: não como uma celebração de bateristas, mas como uma celebração de tudo aquilo que acontece à volta da bateria.

O programa continua a ser actualizado à medida que novos artistas, sessões e actividades são anunciados. Consulta o site oficial do Porto Drum Show para mais detalhes.

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