“Gutter Ballet”, “Edge of Thorns” e “Hall of the Mountain King”, três das mais imponentes malhas dos Savatage ao vivo no triunfal concerto no Wacken Open Air 2026.
Há qualquer coisa de particularmente feliz no facto de o vídeo disponibilizado pela Wacken TV recuperar precisamente três canções que atravessam momentos fundamentais da história dos Savatage (abre o colossal artigo da ROMA INVERSA). As imagens foram captadas a 30 de Julho de 2026, durante a actuação dos norte-americanos no Wacken Open Air, e mostram “Gutter Ballet”, “Edge of Thorns” e “Hall of the Mountain King”, num excerto com audiovisual profissional que permite perceber não apenas a força do actual espectáculo, mas também a forma como o repertório continua a organizar a identidade da banda.
O alinhamento completo dos Savatage no Wacken Open Air 2026 foi bastante mais extenso. Os Savatage tocaram dezassete temas, começando com uma introdução de Morphine Child e passando por Dead Winter Dead, Jesus Saves, Lights Out, Handful of Rain, Chance, Miles Away, Tonight He Grins Again, Sirens, Strange Wings, Taunting Cobras e The Wake of Magellan. Antes do bloco final surgiu ainda uma introdução de Believe, com Jon Oliva a aparecer através de vídeo. Depois vieram Gutter Ballet, Edge of Thorns, Power of the Night e, finalmente, Hall of the Mountain King.
Foi este último segmento que a Wacken TV escolheu para o seu vídeo. E a selecção acaba por ser bastante reveladora, primeiro porque agrega quiçá as três malhas mais aclamadas da banda, depois porque junta três fases diferentes dos Savatage sem necessidade de qualquer explicação adicional.
“Gutter Ballet”, de 1989, pertence ao momento em que a banda começou a afastar-se da ideia mais convencional de uma formação de heavy metal para construir uma linguagem muito mais teatral. O piano, as mudanças de dinâmica, a influência crescente de Paul O’Neill e a forma como Jon Oliva começou a tratar a voz como uma ferramenta dramática foram elementos decisivos nessa transformação. A canção continua a ser uma das melhores portas de entrada para essa fase dos Savatage: começa contida, quase frágil, e vai ganhando dimensão até ao refrão, enquanto a guitarra de Criss Oliva funciona menos como demonstração técnica do que como parte da própria narrativa musical.
Quatro anos depois, “Edge of Thorns” representa outro ponto de viragem. O álbum foi o primeiro com Zak Stevens como vocalista principal e acabaria por ser também o último trabalho de estúdio gravado com Criss Oliva, antes da sua morte, em Outubro de 1993. A canção-título conserva a capacidade melódica e dramática desenvolvida nos anos anteriores, mas apresenta uma banda mais madura, mais controlada e menos dependente da exuberância teatral de Jon Oliva. Ao vivo, a presença de Zak dá-lhe ainda uma dimensão diferente: não se trata de reproduzir o passado, mas de recuperar uma composição que nasceu numa formação que já não pode existir.
Essa questão é inevitável quando se vêem estas imagens. Criss Oliva não está ali, nem Jon Oliva está em palco. A actual formação de digressão é composta por Zak Stevens, Al Pitrelli, Chris Caffery, Johnny Lee Middleton e Jeff Plate. Jon continua a ser uma figura central nos Savatage e participou na preparação do regresso, mas problemas de saúde impediram-no de acompanhar a digressão europeia de 2025 e continuam a mantê-lo afastado dos palcos.
Chris Caffery, que conhece intimamente a história da banda e que integrou os Savatage desde a segunda metade dos anos 80, tem insistido num ponto importante: a banda nunca se separou oficialmente. Simplesmente deixou de tocar ao vivo. Depois de mais de duas décadas praticamente ausentes dos palcos, o regresso começou a ganhar forma em 2025, quando o interesse dos festivais coincidiu com a vontade de Jon Oliva em fazer mais um disco dos Savatage. A primeira digressão europeia desde 2002 acabou por acontecer nesse ano e teve continuidade em 2026, com uma extensa passagem pelos festivais europeus.
A actuação dos Savatage no Wacken Open Air 2026 aconteceu já no centro dessa segunda fase do regresso. A banda tocou no Faster Stage, entre as 20h30 e as 22h00, no mesmo dia em que passaram pelo festival nomes como Yngwie Malmsteen, Europe e Def Leppard. E depois de “Edge of Thorns”, “Power of the Night” preparou o terreno para a última canção da noite: “Hall of the Mountain King”. O icónico tema de 1987 continua a ser um dos momentos em que os Savatage conseguem condensar melhor aquilo que os tornou diferentes. O riff pesado, a teatralidade, a melodia e a dimensão quase operática estão todos presentes, mas sem que a canção pareça hoje uma peça de museu.
Savatage no Wacken Open Air 2026: A Questão em Aberto
“Gutter Ballet”, “Edge of Thorns” e “Hall of the Mountain King” não são apenas três clássicos recuperados para um alinhamento de 2026. São três momentos de uma banda que mudou de pele várias vezes, perdeu o seu principal guitarrista, atravessou uma longa ausência e regressou sem poder recuperar integralmente a formação que construiu aquele legado.
Há ainda uma questão em aberto. O regresso dos Savatage esteve desde o início associado à possibilidade de um novo álbum, Curtain Call, pensado por Jon Oliva como aquele que poderá ser o último disco de estúdio da banda. Para já, só a edição do disco ao vivo “Madness Reigns From the Gutter (1990)”, em Junho passado. Chris Caffery também reconhece que não existe ainda uma certeza absoluta quanto ao futuro depois desta fase de concertos.
Por enquanto, o que existe é este regresso aos palcos e a possibilidade de voltar a ouvir estas canções tocadas por músicos que conhecem profundamente o seu significado. No Wacken Open Air 2026, os Savatage não tentaram reconstruir o passado. Fizeram aquilo que uma banda com esta história pode fazer quando regressa: tocar as canções que sobreviveram às pessoas, às mudanças e ao tempo, e deixá-las voltar a falar por si.
