Um Corpo Estranho

Um Corpo Estranho, Grifo

Os sadinos Um Corpo Estranho estrearam “Grifo”, single que nos introduz ao álbum Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar, a editar no dia 26 de Outubro com o selo da Malafamado Records.

O duo Um Corpo Estranho apresenta “Grifo”, primeiro single de Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar, novo disco com edição marcada para o dia 26 de Outubro 2026, através da Malafamado Records, com o apoio da Fundação GDA. A canção parte de uma criatura mitológica para construir uma alegoria sobre a ganância, o exercício do poder e a exploração dos recursos, colocando desde logo no centro algumas das inquietações que atravessam o novo trabalho de João Mota e Pedro Franco.

O grifo, criatura híbrida com corpo de leão e cabeça e asas de águia, esteve historicamente associado à força, à vigilância e à protecção de tesouros. Em “Grifo”, essa simbologia é deslocada para um presente marcado por uma abundância que convive cada vez mais de perto com a escassez. A canção parece interessar-se precisamente por essa contradição: a acumulação de uns e a falta de outros, o poder exercido sobre aquilo que é comum e a exploração dos recursos como extensão de uma lógica de domínio.

É um ponto de partida que se enquadra naturalmente na escrita dos Um Corpo Estranho, habituada a procurar na imagem, na alegoria e na narrativa formas de falar do presente sem o descrever de maneira literal. Na música de João Mota e Pedro Franco, a estranheza apensa à designação é coisa de uma fugacidade momentânea. Não se juntaram por acaso – escolheram-se.

Tiveram suficientes bandas, passaram por experiências musicais q.b. para que, no momento de, qual ritual de acasalamento, seleccionarem o parceiro ideal o fizessem com o saber acumulado responsável por: a) olharem para trás e verem no outro a cumplicidade que nunca tinham conseguido repetir daí em diante; b) terem o discernimento de perceber que a música se pode fazer a dois e não obrigatoriamente a quatro ou cinco.

Pedro e João conheceram-se aos 15 anos, altura em que a vontade de pegar numa guitarra partia do mesmo movimento ascendente de querer trepar até sonhos de reconhecimento, feitos artísticos, plateias em delírio e rendidas a canções tão importantes quanto a própria vida. Quando, passado um longo hiato em que a amizade ficou em lume brando, os dois voltaram a encontrar-se, foi também esse lastro de sonho amparado agora pela maturidade a reacender nos dois e a grudar-se nas canções nascentes. Depois, com orgulho de pais, foi adubar-lhes o caminho a essas canções e vê-las crescer, quererem sair de casa, resmungarem a toda hora, tornarem-se autónomas e só já precisarem deles para que o mundo não as estranhe em demasia.

Desde então, os Um Corpo Estranho foram construindo uma discografia onde a canção nunca aparece desligada da narrativa. Depois de De Não Ter Tempo, editado em 2014, surgiu Pulso, em 2016, um trabalho onde a dupla aprofundava uma linguagem própria, feita de canções de forte componente imagética e de uma instrumentação que tanto pode soar íntima como assumir uma dimensão quase teatral. Homem Delírio, de 2019, levou ainda mais longe essa relação entre música, narrativa e representação, nascendo de um espectáculo concebido em torno de uma humanidade confrontada com as consequências da guerra, do consumo e da exploração dos recursos.

A relação dos Um Corpo Estranho com outras linguagens artísticas não é, por isso, uma novidade desta nova fase. A dupla tem desenvolvido trabalho para teatro e cinema e, em 2021, cruzou-se com Saturnia em O Místico Orfeão Sónico, numa colaboração que reforçou essa disponibilidade para deslocar a sua música para outros territórios. Mais recentemente, O Ferroviário, editado em 2024, partiu da música criada para acompanhar o universo cinematográfico de Buster Keaton, acabando por ganhar vida própria num álbum instrumental de dezasseis temas.

É neste percurso que Fábulas Mundanas e outros Contos de Cantar encontra o seu lugar. O título não esconde a intenção de contar histórias, mas acrescenta-lhes uma dimensão simultaneamente mundana e fabular. Se “Grifo” funciona como primeira porta de entrada, a escolha de uma criatura mitológica para falar de ganância, poder e recursos naturais confirma uma tendência que atravessa a obra da dupla: olhar para o presente através de histórias que parecem pertencer a outro tempo, encontrando nessas personagens, símbolos e imagens uma forma de falar de coisas demasiado contemporâneas para precisarem de ser nomeadas directamente.

Produzido pelos próprios João Mota e Pedro Franco, o novo álbum foi misturado e masterizado por Sérgio Mendes e será editado pela Malafamado Records a 26 de Outubro, com o apoio da Fundação GDA.

Leave a Reply