Um exercício de beleza do caos, “private music” equilibra a familiaridade entre as novas composições e malhas clássicas e a capacidade dos Deftones reinventarem-se e, simultaneamente, revelarem extraordinária consistência musical e estética.
Antes de mergulhar em private music, um meio disclaimer. Não é fácil falar de uma banda com mais de 30 anos e que, durante parte da sua existência, esteve associada a um movimento musical que nos levava a vestir calças largas, a ostentar pilosidade facial duvidosa (as vulgares pêras) e a usar chapéus dos New York Yankees.
Em 2000, já com dois discos que mostravam algumas fugas ao género (recordamo-nos de “Fist”, canção extra-bónus de Adrenaline em 1996, ou da direcção mais melódica de Around The Fur), os Deftones, liderados por Chino Moreno, conseguiram distanciar-se desse paradigma com White Pony. O disco, marcante para a carreira dos californianos, combinava num caldeirão de sonoridades: shoegaze, metal alternativo, texturas eletrónicas, sensualidade e agressividade. Seria este o Dark Side of The Moon dos Deftones? Não sabemos. Mas há, sem dúvida, uns Deftones antes e outros depois de White Pony.
Seguiu-se o regresso à fórmula segura em 2003, com o disco homónimo (mais agressividade e ambientes dreamy), e Saturday Night Wrist, trabalho conflituoso e pouco inspirado de 2006. Num período turbulento de relações criativas e pessoais, agravado pelo trágico desaparecimento de Chi Cheng, as gravações de Eros (produzidas por Bob Ezrin) foram guardadas na gaveta, iniciando-se uma nova fase com Sergio Vega (Quicksand) no baixo. Diamond Eyes (2010) e Koi No Yokan (2012), produzidos por Nick Raskulinecz, mostraram um grupo renovado, atmosférico e exploratório nas sonoridades mais pesadas.
Após um Gore incompreendido (2016) e um Ohms pandémico – entusiasmante, mas sem oportunidade de ser apresentado ao vivo –, os Deftones sofrem mais uma vez alterações na formação. Com a saída de Vega, junta-se Fred Sablan (Marilyn Manson, Chelsea Wolfe, etc.), mas agora contamos com um Stephen Carpenter em modo intermitente nas digressões fora dos EUA. (Olá, chalupice?)
Moby Kick
No entanto, num dos períodos mais consensuais da sua história, os Deftones, que agora estão nas graças do mundo – seja pela renovação do público (um ciclo de nostalgia?), seja pelo TikTok – fazem-nos chegar private music. Vinte e cinco anos após o panteão do metal alternativo que foi White Pony, a banda de Sacramento mostra-se tão relevante como nunca. Com Raskulinecz novamente na produção, o novo disco ergue-se como mais um capítulo notável, que encontra no caos das guitarras a beleza da melodia.
Da cavalgante “My Mind Is A Mountain”, com Chino Moreno a debitar gritos de ordem entre paranoia e indícios de tempestades, à trepidante “Locked Club” – riffalhão abusador –, destaca-se “Ecdysis” como uma das canções mais refrescantes deste private music. Com Fred a solar no baixo, a bateria de Abe Cunningham entra numa disputa sincronizada (recordamo-nos de uma “Feiticeira” com pozinhos à Around the Fur) com os sintetizadores absolutamente épicos de Frank Delgado e um Chino a emprestar a sua sensualidade para cantar sobre paixões escaldantes.
Em “Infinite Source” (possível canção de despedida de algo, segundo os fãs online), o imaginário é cinematográfico e transporta-nos para um descapotável numa qualquer praia californiana, com riffs à Sleigh Bells e uma inesperada vibe Morrissey. As influências estão sempre lá. Não tivessem eles excelentes reinterpretações de clássicos de Sade, Depeche Mode, The Cure, entre outros. Há ecos de Duran Duran em “Souvenir”, entre um delicioso, mas melancólico outro, em fade out, que prepara a possante “CXZ”, remetendo-nos ao clássico “Passenger”. Reforçamos que, ao longo de private music, as canções soam interligadas por transições e interlúdios que agigantam a cadência e a suavidade das entradas.
Para fazer salivar os fãs e equilibrar a intensidade dos malhões, não foi esquecida a balada: “I Think About You All the Time”, que arriscamos dizer ser de private music a “Cherry Waves” de Saturday Night Wrist ou a “Sextape” de Diamond Eyes. Doce devastador, afirmamos. E é aqui que a porca torce o rabo…
Numa sequência absolutamente avassaladora, “Milk of the Madonna” invoca os Smashing Pumpkins de “Bodies” e a energia de “Swerve City”. Sentimos todas as memórias não vividas que os Deftones ainda são capazes de nos proporcionar e regressamos a 1996 com “Cut Hands”, canção em que Chino cospe umas barras old school entre grooves à Faith No More e samples de Frank à “Firestarter” dos Prodigy.
Viajamos depois a uma dimensão cool e trippy de “Metal Dream”, até aterrar em “Departing the Body”. Canção clímax e espiritual de private music, em que Chino, num spoken word inicial contido, nos conduz a um território que evoca Mark Lanegan ou Leonard Cohen. A partir daí, num crescendo sónico épico e sludgy, consolida (com facilidade) os Deftones como figuras ímpares nas explorações deste tipo de ambientes e saltos para o desconhecido.
A Beleza do Caos
private music é um perfeito exemplo disso. Sem limites, a banda mantém Chino como eixo central – essencial na flexibilidade entre melodia e agressividade – e um Steph renovado, sempre à procura do riff perfeito. Sentimos ainda um Fred a complementar com precisão o groove de Abe e Frank a assumir um papel cada vez mais decisivo nas texturas, enriquecendo os ambientes das canções dos Deftones.
Com um lugar cimeiro em termos de consistência, dentro de um género que tanto abraça o shoegaze como as sonoridades mais pesadas, ambientais e atmosféricas, a evolução dos Deftones há muito deixou para trás o rótulo depreciativo do início dos anos 2000 e cimentou-os como banda de referência no panorama do metal alternativo. Será private music o canto do cisne dos Deftones? Não sabemos. O que sabemos é que os Deftones continuam intocáveis na beleza do caos.
No player em cima, podes disparar a playlist com a versão integral de private music. O texto é da autoria do Nuno Dias.

Um pensamento sobre “private music, Deftones”