O lançamento de “Kid A”, em 2000, representou um ponto de inflexão não apenas na discografia dos Radiohead, mas na própria trajectória da música popular. Ao abandonar parcialmente as guitarras e abraçar um som experimental e atmosférico, a banda britânica desafiou as convenções do rock alternativo e pavimentou o caminho para um novo som que influenciaria gerações de artistas.
Após o sucesso estrondoso de “OK Computer”, os Radiohead, como muitas bandas antes de si, viram-se diante de um dilema: repetir a fórmula ou arriscar tudo num novo som? A banda, como muito poucas outras antes de si, optou pela segunda opção, mergulhando num processo criativo intenso e introspectivo. As gravações foram longas e complexas, envolvendo experimentações com diversos instrumentos e softwares. O resultado foi um álbum que soava futurista e, ao mesmo tempo, profundamente humano.
Uma das características mais marcantes de “Kid A” é a sua instrumentação eclética. As guitarras, presentes em “OK Computer”, foram relegadas para segundo plano pelos Radiohead, dando lugar a sintetizadores, pianos, cordas e uma variedade de instrumentos electrónicos. Jonny Greenwood, guitarrista da banda, explorou novos territórios, utilizando instrumentos como a ondes martenot, que conferiu um som etéreo e onírico a várias canções. A criação de “Kid A” foi um processo longamente gestado e intensamente colaborativo, que transcendeu os limites tradicionais da composição musical. Especialmente Jonny Greenwood e Thom Yorke mergulharam num universo de experimentação sonora, buscando novas formas de expressão e desafiando os seus próprios limites.
Guillaume Tell, em Paris, Medley, em Copenhaga e o Radiohead studio, em Oxfordshire. A banda optou por se isolar em estúdios longe das distrações da vida urbana, para permitir que os membros se dedicassem integralmente à criação musical e fomentar a exploração de novas sonoridades e ideias. Muitas das ideias para as músicas de “Kid A” surgiram de jam sessions, nas quais os membros da banda exploravam diferentes instrumentos e texturas sonoras. Essa abordagem espontânea e livre permitiu que a criatividade dos Radiohead fluísse de forma natural.
As técnicas de produção também foram cruciais para o resultado final. Os Radiohead trabalharam com o produtor Nigel Godrich, que utilizou diversas técnicas de gravação e mistura para criar um som simultaneamente coeso e atmosférico. Aliás, mistura e a masterização do álbum foram processos longos e complexos, nos quais Godrich utilizou diversas técnicas para criar um som espacial e envolvente. A manipulação de samples, a criação de loops e a utilização de efeitos sonoros foram elementos-chave na construção das paisagens sonoras do álbum. À semelhança do que os Beatles, notoriamente, fizeram em “Revolver”.
Thom Yorke & Stanley Donwood
As letras de “Kid A” são marcadas por um forte lirismo e por uma atmosfera de incerteza e angústia. Temas como a alienação, a solidão e a ansiedade permeiam as canções, reflectindo as inquietações de uma geração marcada pelas transformações tecnológicas e sociais.
A voz de Thom Yorke, com sua intensidade e fragilidade, transcende as palavras, transmitindo uma emoção profunda e visceral. As melodias criadas por Yorke eram muitas vezes complexas e desafiadoras, exigindo uma grande interpretação vocal. O vocalista também experimentou com diferentes técnicas vocais, como falsetes e sussurros, para criar texturas sonoras absolutamente únicas, que ao fim de um quarto de século continua a desafiar convenções e a influenciar a música moderna.
Depois, a estética visual de “Kid A” não é apenas uma capa bonita ou um conjunto de imagens aleatórias. Ela é um elemento fundamental da obra, profundamente interligado com a música e com a atmosfera que os Radiohead queriam transmitir. A arte de Stanley Donwood, em colaboração com Thom Yorke, criou um universo visual que complementa e amplifica a experiência auditiva, criando uma imersão completa para o ouvinte. As paisagens oníricas e surrealistas presentes nas obras de Donwood reflectem a atmosfera etérea e atmosférica da música, com as suas paisagens sonoras complexas e camadas de instrumentação.
As figuras humanas distorcidas e fragmentadas presentes nas obras de arte (vejam a capa de “The King Of Limbs” também) evocam os sentimentos de alienação e isolamento presentes nas letras de Thom Yorke. Em “Kid A”, particularmente, a predominância de cores frias e opacas contribui para a atmosfera melancólica e introspectiva do álbum. E a presença de elementos naturais contrasta com a atmosfera tecnológica e industrial presente em algumas músicas, criando uma sensação de desconexão e desorientação.
Idioteque
“Idioteque” é, sem dúvida, um dos pontos altos de “Kid A” e um dos exemplos mais emblemáticos do experimentalismo sonoro do Radiohead. A sua construção complexa e atmosfera futurista tornaram-na num hino para uma geração marcada pelas transformações tecnológicas. De resto, a ideia para a canção surgiu de uma reflexão sobre a cultura pop e o impacto da tecnologia na sociedade.
A palavra “idioteque” é um neologismo que combina “idiot” e “discothèque”, sugerindo um futuro distópico onde a música é consumida de forma passiva e alienante. Presciente, hein? Os Radiohead foram influenciados pela música electrónica e pela cultura club, incorporando elementos como batidas fragmentadas, samples de rádio e sintetizadores. Apesar do caráter de base da música, as guitarras dissonantes de Jonny Greenwood desempenham um papel fundamental, unindo os elementos electrónicos e criando uma atmosfera tensa e frenética.
Tornando-se claustrofóbica, “Idioteque” previu a ansiedade criada pela definição de ansiedade num mundo fragmentado e cada vez mais virtual, uma crítica à sociedade contemporânea, marcada pela alienação e pela obsessão por tecnologia, que transmite uma sensação de desespero e impotência do indivíduo diante destas transformações. A questão é que o fez no ano 2000…

Talvez por isso, o lançamento de “Kid A” tenha sido recebido com opiniões divergentes. Enquanto alguns críticos e fãs celebraram a ousadia da banda, muitos sentiram-se desorientados com a mudança de direcção. Muitos ainda sentem. No entanto, com o passar do tempo, o álbum consolidou-se como uma obra-prima pop rock e uma das mais importantes da história da música contemporânea. “Kid A” é uma obra de arte que desafia as convenções e explora as possibilidades infinitas da música.
Kid A Mnesia
“Amnesia” foi editado logo no ano seguinte, extraído das mesmas sessões. Na altura os Radiohead clnsideraram que um álbum duplo seria excessivamente denso. No entanto, no Outono de 2021, foram reeditados conjuntamente sob a designação “Kid A Mnesia”, acompanhados de um LP de excertos gravados durante as sessões de 1999 e 2000, “Kid Amnesiae”.
Nessa altura, os Radiohead juntaram-se também à Epic Games para criar uma exposição digital numa plataforma online. Nela, o universo digital/analógico criado a partir da arte gráfica de Thom Yorke e Stanley Donwood conta com sound design de Nigel Godrich.
“The KID A MNESIA Exhibition” é um espaço onírico, um edifício construído a partir de artes, criaturas, letras e gravações dos álbuns “Kid A” e “Amnesiac”, dos Radiohead, resgatados, reconstruídos e transmutados 20 anos depois do seu lançamento. A arte e as letras perversamente ansiosas que Stanley Donwood e Thom Yorke conceberam para acompanhar as melodias de “Kid A” e “Amnesiac” do Radiohead ganham vida numa construção escondida numa floresta feita a lápis. A ideia pré-concebida do que seria uma exposição é levada ao limite… Ou transformada em algo completamente novo.
As gravações multifaixas de “Kid A” e “Amnesiac” são fragmentadas e reconstituídas numa série de espaços possíveis e impossíveis habitados por criaturas igualmente possíveis e impossíveis e cercados pela arte criada na virada do milênio por Stanley Donwood e Thom Yorke. «Para marcar os 21 anos da saída de “Kid A” e “Amnesiac”, de dentro de um celeiro do interior de Oxfordshire para um mundo desavisado, criámos… algo. Não sabemos ao certo o que é..», escreveram Thom Yorke e Stanley Donwood.
KID A MNESIA EXHIBITION está disponível gratuitamente para a PlayStation 5 (HERE), PC e Mac na EPIC GAMES STORE. Carrega no play para ouvir “KID A MNESIA”.
