Retimbrar, Levantar do Chão

Como bem nos é dito, “Levantar do Chão” é uma colecção de canções moldadas ao longo de uma década, com a colaboração de 80 pessoas. Uma celebração do TugaBeat – as canções e os ritmos tradicionais portugueses feitos novos. Um disco quase perfeito dos Retimbrar.

Não consigo evocar exactamente o contexto, mas há uns anos, a propósito dos Gaiteiros de Lisboa e das suas origens, o Carlos Guerreiro dizia em entrevista que um dos primeiros catalisadores foi ter dado de caras com a música dos Hedningarna e ficado a ouvir de boca aberta. Porquê mencionar isto? Porque os Retimbrar também fazem uma fusão das raízes da música popular com a pop e porque, acima de tudo, ouvir este “Levantar do Chão” me deixa de boca aberta…

Os primeiros sons deste disco chegaram com “Coisas da Minha Terra”, tema que celebra o encontro entre Retimbrar, o Grupo Folclórico Tradições Baixo Douro e os centenários Mareantes do Rio Douro, a quem se deve o ritmo que deu chão à canção. Depois fez-se ouvir “Vai Não Vai”. É uma cantiga de pergunta e resposta, directamente inspirada na estrutura de rima e música, da tradicional canção de trabalho. A descrição é tecida pela banda: «’Ó que lindos olhos tem a padeirinha’ que nos foi dada a conhecer no festival BONS SONS 2010 pelas Adufeiras de Monsanto. São elas as eternas guardiãs da tradição do toque e das cantigas de adufe; mulheres e figuras de fé em quem reconhecemos a resiliência como uma atitude perante a vida. “Vai Não Vai” é o desejo de ver retratado aquele que é, muitas vezes, o intervalo que sentimos estar entre os tempos de espera e as tomadas de decisão, quando o ímpeto se apodera de nós. E de um verso seu, se deu nome ao disco: ‘Se aguentar da queda, vai levantar do chão’». Esta é uma abertura explosiva do álbum.

“Pastor À Paisana” e as suas complexas camadas de harmonização coral, cheia de frenéticas síncopes que são tão atraentes quanto disruptivas. Será chuva, será jazz? Gente não é certamente, pois só o TugaBeat bate assim! E neste País das Maravilhas que sempre se abriu ao mundo, há ventos mornos da lusofonia africana em “Maneio”, noutra vibrante colaboração com o Grupo Folclórico Tradições Baixo Douro. Dá-se a acalmia com a pungente “Saudades Do Futuro”, cuja doçura vocal faz-nos pensar na nossa diva Maria João, multiplicada depois num coro, que na verdade é o Rancho Folclórico de Sta. Eufémia de Pé de Moura) de dinâmica tão suave como as cordas da guitarra de Miguel Arruda.

E estas dinâmicas, a amplitude de cada um dos instrumentos e preenchimento vocal, merecem que se refira o meticuloso e uber equilibrado trabalho de Quico Serrano, que fez gravação, produção, mistura e masterização deste “Levantar do Chão”. É verdadeiramente sublime numa canção como “Rosa Tirana”, já mais perto do final. Mais convencimento fosse necessário, a esse respeito, e o veludo dos baixos de “Maçãzinha” seriam o bastante.

Os Retimbrar enquadram-na assim: «Conhecida do álbum de 1977 “Dança das Romarias da Beira-Baixa” do Rancho Folclórico de Silvares (Fundão) e, por variadíssimas vezes, ouvida no leitor de cassetes da carrinha onde a banda tanto viajou – a melodia-base desta canção foi cantada e reescrita pelos Retimbrar, pela primeira vez, para o aniversário da amiga Helena Oliveira, durante o primeiro recolher obrigatório da pandemia, em Março de 2020. Desde então que passou a fazer parte do repertório e teve muitas formas, mas sempre falou, e fala ainda, de afectos e do sentimento de cuidar, sob o olhar de duas gerações. Uxía surge como convidada a assumir o lugar de anciã desta “Maçãzinha” que é dedicada a Isabel Silvestre, especial cuidadora e defensora das nossas raízes e figura dianteira das tradições de (en)cantar da região de Manhouce».

A doçura tem desfecho em “Lindo Par”, com Rifo e o Rancho Folclórico As Padeirinhas de UI, uma enamorada e cândida desgarrada antes de regressar o folguedo e os Gaiteiros e os Hedningarna no vibrante instrumental que é “Montes”. Já que estamos a atirar referências levianamente (e lembrem-se de que apontar referências diz sempre mais do ouvinte que da música), “Festa de Gostei” faz-me pensar no saudoso João Aguardela, nas cores mais contrastantes que era capaz de conciliar na sua reinvenção da música popular, aqui retimbradas.

“Vai De Centro Ao Centro” transporta consigo a emocionante honestidade do quão simples, tão congregadora e comunitária pode ser a música, ouvi-la, fazê-la e cantá-la. Logo na primeira escuta desta linda melodia, dos seus calmos ciclos ritmícos e harmoniosos, damos por nós a trauteá-la, a batucá-la, a improvisar sobre o acorde menor aberto de base. Na verdade, é o final perfeito, antes do pitoresco “Baile Mandado”, para um disco também próximo da perfeição. Ficam a saber que já está no nosso rascunho do artigo dos Melhores do Ano.

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