Rick Davies

Rick Davies (1944-2025), O Chão dos Supertramp

Rick Davies não era apenas o homem que fez os Supertramp soarem únicos. Era a prova viva de que a música, quando tratada com inteligência, emoção e integridade, nunca morre.

Rick Davies, fundador e alma dos Supertramp, morreu no dia 6 de Setembro de 2025, aos 81 anos, na sua casa em Long Island. E com ele vai-se uma das vozes mais importantes do rock progressivo britânico, um músico que soube ser, ao mesmo tempo, discreto e determinante, arquitecto sonoro de uma banda que ensinou ao mundo como a sofisticação pode conviver com a simplicidade. A notícia caiu com enorme estrondo. Rick Davies resistira durante uma década a um mieloma múltiplo, mas desta vez a música calou-se. O choque, ainda que anunciado pela doença, tem o peso da despedida a um dos arquitectos mais singulares do prog: o homem que segurava o chão.

Os Supertramp sempre foram uma banda dual — dois pólos criativos, duas vozes que se completavam e desafiavam-se: Roger Hodgson, o anjo etéreo; Rick Davies, o cronista grave, pé na terra, cigarro no canto da boca. Se Hodgson parecia pairar, Davies segurava o chão. E o chão, em Supertramp, não era banal: era feito de teclas.

Wurlitzer, Rhodes & Piano Acústicos

Rick Davies não foi apenas um teclista; foi o homem que fez do Wurlitzer uma identidade. O timbre cortante e metálico desse piano eléctrico, sobretudo o modelo 200A, corre como veia principal em canções como School, Dreamer ou Bloody Well Right, declarando logo de início que Supertramp não se confundia com ninguém. Esse timbre metálico e cortante, obtido através de palhetas metálicas amplificadas por colunas de válvulas, dava-lhe uma rugosidade quente, quase bluesy, mas com ataque seco. O Wurlitzer de Davies não era apenas um instrumento: era um personagem dentro das canções, uma voz paralela à sua própria. Mas não parava aí.

O Fender Rhodes, mais redondo e acolhedor, era a sua segunda pele, perfeito para baladas introspectivas ou atmosferas mais suaves. O Rhodes surgia sempre que procurava um contraste mais macio, mais líquido, capaz de envolver o ouvinte numa atmosfera sonhadora. Onde o Wurlitzer punha ferro e nervo, o Rhodes trazia redondez e contemplação.

E quando era necessário dar escala sinfónica, o piano acústico — frequentemente um Steinway — entrava em cena com acordes cheios e dinâmicas vastas, conduzindo narrativas inteiras, onde a formação clássica de Davies explodia em peças ambiciosas como em Fool’s Overture ou Crime of the Century. Rick não usava o piano como adereço: nele reencontrava as raízes clássicas que moldaram o seu fraseado, capaz de ser simultaneamente lírico e percussivo.

Três instrumentos, três vozes, sempre escolhidas com precisão quase cirúrgica para servir a emoção certa. É por isso que falar de Rick Davies não é apenas falar de um vocalista de timbre rouco e inconfundível. É falar de um maestro oculto, um engenheiro de som emocional, que sabia colocar um Wurlitzer a rasgar, um Rhodes a embalar ou um piano de cauda a elevar. Se os Supertramp soavam tão próprios, era porque Davies fazia do teclado uma extensão da narrativa.

Ao lado desta tríade essencial, usou também órgãos Hammond e sintetizadores Oberheim ou Prophet, mas sempre como pano de fundo, nunca como veículo de exibição. A sua mão esquerda ancorava-se em riffs de blues e jazz, sólidos, quase obstinados, enquanto a direita alternava entre acordes incisivos e frases curtas, preferindo sempre a clareza à ornamentação gratuita. Em vez de encher o espaço de notas, Davies criava respiro, espaço vital, e nesse espaço os Supertramp encontraram uma identidade inconfundível.

Letras & Contraponto

A relação com Roger Hodgson deu ao grupo a sua dinâmica icónica: um diálogo entre a leveza etérea e a gravidade terrena. Hodgson apontava ao céu; Davies mantinha os pés na terra. Longe da candura quase angelical de Hodgson, Davies trazia sarcasmo, ironia, comentário social. Era ele quem cantava Bloody Well Right com aquele sorriso cínico, quem puxava pela crueza de Goodbye Stranger ou pelo peso existencial de Crime of the Century. Juntos, os dois compunham um diálogo: luz e sombra, leveza e gravidade.

O auge dessa alquimia ficou cristalizado em discos como Crime of the Century (1974), Even in the Quietest Moments… (1977) e, claro, Breakfast in America (1979), esse colosso que vendeu milhões, mas que não pode ser reduzido a mero pop de rádio. Rick Davies ajudou a vestir canções com arranjos de uma sofisticação rara, onde nada era deixado ao acaso — cada compasso, cada escolha de timbre, cada contraste vocal.

E foi ao vivo que se percebeu melhor o seu papel central. Basta lembrar o concerto em Paris de 1979 — felizmente registado em disco e vídeo — onde a banda soa com uma nitidez quase absurda. A review na ROMA INVERSA já dizia isso: o Live in Paris mostra uma máquina no auge, mas também um Rick Davies no comando, discreto e firme, conduzindo a maré. Não era um frontman espalhafatoso; era um pilar.

A separação criativa com Hodgson, consumada na década de 1980, não apagou Davies. Pelo contrário: ele manteve vivos os Supertramp como um organismo próprio, ainda que menos explosivo. Os álbuns seguintes, os concertos em salas mais pequenas, as revisitações do repertório clássico — tudo isso testemunha a tenacidade de um homem que não desistia da sua própria música. Mas não eram os mesmos Supertramp; faltava a contraparte etérea, o contraponto que fazia o diálogo entre céu e chão. E mesmo assim, Rick Davies resistiu, provando que a gravidade também pode ser poética.

A década de 2010 trouxe-lhe uma batalha diferente: o mieloma múltiplo interrompeu planos de digressão, adiou projectos, limitou o corpo, mas não a mente. Ele continuou a compor, a conversar sobre música, a orientar músicos mais jovens. A sua presença, mesmo reduzida fisicamente, mantinha a autoridade moral e estética que os Supertramp sempre exigiram. Para fãs de longa data, cada aparição era um lembrete de que Rick Davies era, acima de tudo, o coração pragmático da banda — alguém que sabia equilibrar talento e disciplina, emoção e técnica, humor e ironia.

I’ll Give a Little Bit of My Life For You

O legado de Rick Davies vai além das estatísticas de vendas ou dos troféus. Ele foi a ponte entre o pop acessível e o progressivo ambicioso, entre letras que dialogavam com a sociedade e melodias que atravessavam gerações. Não há como ouvir Breakfast in America, Crime of the Century ou o Live in Paris ’79 sem reconhecer a marca dele: aquele toque de Wurlitzer, aquele assomo de Rhodes, o piano acústico que explode na grandeza, e sempre a voz grave a contar a história com convicção.

Ao lembrar Rick Davies, estamos a despedir-nos de um contador de histórias, de um construtor de mundos sonoros, de um homem cuja música definiu o som de uma era. Ele deixa uma discografia que ainda respira, que ainda se ouve nas casas, nos carros, nos auscultadores, que ainda faz rir, pensar, estremecer. Como os Supertramp diziam: «Well, I’m not the one who’s gonna stay/Goodbye, stranger».

Olhando para trás, é impossível não sentir uma pontada de gratidão e nostalgia. Quem cresceu com os Supertramp sabe que Rick Davies ensinou-nos algo essencial: a música pode ser sofisticada sem ser pretensiosa, crítica sem ser cruel, emocional sem perder o sentido do humor. E fez isso enquanto mantinha os pés firmes no chão, com uma postura quase silenciosa, sempre focado naquilo que realmente importava: o som, a canção, a emoção que atravessa a espinha.

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