Roddy Bottum vai lançar “The Royal We”, a sua biografia. O teclista e cofundador dos Faith No More, tornou-se um ícone queer nas últimas décadas. O influente músico aborda os desafios da sua geração, que enfrentou humilhação, violência e homofobia extrema, até ganhar coragem de assumir a sua sexualidade.
Em entrevista com a Wall Of Sound da Austrália, o cofundador dos Faith No More, pioneiro musical e ícone queer Roddy Bottum — que está a promover o lançamento do seu livro de memórias “The Royal We” — falou sobre assumir-se gay na década de 1990, sem ter nenhum modelo a seguir. «Foi uma época difícil. Olhando para trás e reflectindo sobre essa atitude, é algo difícil imaginar que as pessoas fossem tão fóbicas em relação aos gays naquela época, mas o mundo era realmente assim. E grande parte do livro é sobre isso, sobre o julgamento da grande cultura em relação aos homens gays e a reacção dos homens gays, e como lidamos com isso. E particularmente a minha geração».
Roddy Bottum prossegue, num tom confessional e desarmante: «Não havia outra opção para a minha geração, falando da minha perspectiva, não havia outra opção que não fosse ser reservado e esconder as coisas, porque, digo-o muito no meu livro, não havia muitos modelos a seguir. Não havia ninguém que pudesse admirar, especialmente no mundo da música. Quando comecei a assumir-me nos anos 90, não havia realmente ninguém no meu mundo que tivesse uma voz gay. A única pessoa que conhecia e que é uma das minhas melhores amigas [agora], era a Patty Schemel, das Hole».
Claro que havia mais pessoas, além da baterista das Hole, mas completamente fora do círculo dos Faith No More, por mais que a banda fosse provocadora e estivesse em ascensão, e de Roddy Bottum, que explica que realmente não conhecia pessoas queer no rock. «Quando era muito jovem, era um grande fã do Elton John e lembro-me de ouvi-lo no rádio e ele falar sobre casar e essas coisas. Era aquela fase em que ele estava a esconder a sua sexualidade. E, quando era criança, sabia que ele era gay, mas depois, ao vê-lo esconder isso ou ter a perspectiva ‘Oh, aqui está um ícone ao qual me posso agarrar’ tirada de mim dessa forma, e ele a fechar-se e a insistir ‘Não, sou heterossexual. Vou casar com uma mulher’, foi uma enorme chapada na cara para mim, que era criança».
Roddy Bottum aborda outros exemplos na entrevista e no livro, explicando que «tudo o que queria era uma orientação e uma pessoa que dissesse: ‘Sim, está tudo bem. Podes ser assim’. Mas simplesmente não havia isso. Até mesmo os Queen, que também falo no meu livro, [o Freddie] não se assumia e não falava sobre ser gay. Lembro-me de ter lido uma referência a isso em algum lugar, que dizia algo como: ‘A nossa banda chama-se Queen e basicamente cantamos ópera. Então tirem as vossas conclusões?. Ok, eles estavam a dizer que eram gays, mas não estavam a dizer isso. Tudo o que era dito a esse respeito era cauteloso, velado e apresentado de uma forma meio envergonhada. Era difícil concordar com isso».
O teclista dos Faith No More refere ainda The Village People. «Quando era criança, percebia claramente que se tratava de uma representação gay, mas lembro-me de eles não querem dizer se eram gays ou heterossexuais, porque não queriam perder fãs. E o que é que isso diz a uma criança? Significa que se disser que é gay as pessoas não vão gostar de si. Era exactamente essa a mensagem. Então, vindo desse mundo, era definitivamente um lugar difícil. Mesmo quando fiquei mais velho, como sempre digo, o Michael Stipe não era gay quando eu saí do armário. Essa não era uma direcção que pudesse seguir. Mesmo o Bob Mould, que agora é abertamente gay. Essas duas vozes, que são bastante fortes na comunidade queer actualmente, não eram opções para mim. Então, senti-me muito sozinho ao assumir-me naquele ambiente, naquele grupo de pessoas, quando não havia vozes como essas», confessa Roddy Bottum.
Como se as coisas, por si só, não fossem difíceis, Roddy Bottum abordar o período em que surgiu um pesadelo. A percepção do HIV como uma “doença gay” alimentou a homofobia, a violência e a intolerância na década de 1980. «Foi certamente um quadro completo de humilhação e vergonha. Naquele momento, reforçou a noção de que ser gay é mau. Não só é mau, como é tóxico. Não é apenas tóxico, é venenoso, é mortal. E se és gay, vais morrer. Então, sim, foi muito difícil lidar com isso quando era miúdo. Mas, ao mesmo tempo, não quero parecer chorão. Isso criou um tipo de pessoa muito específico que sou, e sou grato por isso. Foi difícil passar por essa estranheza geracional, mas, ao mesmo tempo, é uma força que tenho e que muitas pessoas gays que não eram da minha geração não entendem».
Quando questionado sobre se a sua sexualidade era um problema dentro dos Faith No More e se isso o impediu de se assumir mais cedo, Roddy Bottum nega: «Acho que era apenas algo inerente. Se me tivesses perguntado ou a qualquer um dos membros da banda: ‘É um problema o Roddy ser gay?’, a resposta seria: ‘Não, de forma alguma’. Vivíamos em São Francisco. Todas as pessoas da banda eram muito abertas, todas me incentivavam, mas na minha cabeça era algo diferente e, simplesmente, não estava disposto a assumir. E isso é culpa minha. Falo muito sobre isso no livro».
«O Billy [Gould, baixista de Faith No More] e eu éramos melhores amigos desde muito jovens, desde que éramos crianças. E, sim, o facto de não ter sido capaz de ser aberto com ele sobre a minha sexualidade ainda é algo que me incomoda. Não é fixe. Gostaria de ter tido a capacidade de ser aberto. Quero dizer, ele era um dos meus melhores amigos. Então, entre os membros da banda, a culpa não era deles, era minha. Não estava disposto a abrir-me com eles devido à minha infância e à cultura em que vivíamos. Foi muito difícil. Mas, definitivamente, eles sempre me apoiaram e compreenderam a minha situação», conclui Roddy Bottum.

Com edição no dia 4 de Novembro pela Akashic Books, “The Royal We” documenta as viagens de Roddy Bottum de Los Angeles a São Francisco, onde formou os Faith No More e partiu incansável em digressões mundiais, sobrevivendo ao vício daheroína e à doença da SIDA, para se tornar um ícone queer.
Uma obra profundamente pessoal, repleta de humor, comentários e reflexões, “The Royal We” é muito mais do que as confissões de um músico. Há histórias pessoais de ícones históricos como Kurt Cobain e Courtney Love e Guns N’ Roses, mas são os testemunhos de tragédia, vício e uma lembrança profundamente amorosa de uma cena notável que tornam esta autobiografia de Roddy Bottum tão única e intrigante.
Escrevendo sobre o seu passado angustiante com uma voz lúcida e sem auto-comiseração, as declarações ousadas e confiantes de Roddy Bottum sobre conquistas e heroísmo pouco ortodoxo seguem num fluxo imparável que é cativante e inspirador.
