A partir do momento em que fez 75 anos, Sérgio Godinho iniciou as celebrações de uma carreira de riqueza (musical e poética) sem paralelo no nosso país e, em particular, na nossa jovem democracia. Com base numa conversa apoiada no álbum “Mútuo Consentimento”, revemos como a sua carreira, a sua vida e as suas ideias se cruzam e interligam.
Quando Sérgio Godinho, o poeta, compositor, intérprete e actor português anunciou o regresso aos Coliseus em 2019 – apresentou-se ao vivo no Coliseu de Lisboa, no dia 22 de Fevereiro, e no Coliseu do Porto, dia 28 de Fevereiro – talvez tenha sido um prólogo para estes últimos anos. Afinal tem havido uma certa revisão de carreira desde aí…
Desde logo, esses concertos foram o seguimento da reedição de “Nação Valente”, o álbum editado em Janeiro de 2018 – cuja nova edição inclui um segundo CD gravado em concerto, com a participação de Márcia e David Fonseca. A produção ficou a cargo de Nuno Rafael, e a composição foi partilhada entre artistas como David Fonseca, Filipe Raposo, Hélder Gonçalves, Pedro da Silva Martins, Filipe Melo ou José Mário Branco.
Depois chegou o brilhantíssimo disco com orquestra, “Ao Vivo no São Luiz”. Registo da série de concertos que Sérgio Godinho deu entre 5 e 8 de Julho de 2018, na Sala Luís Miguel Cintra do São Luiz Teatro Municipal, em Lisboa. O disco capta a estreia de Sérgio Godinho a actuar ao lado de uma orquestra, nomeadamente a Orquestra Metropolitana de Lisboa, dirigida pelo maestro Cesário Costa. Em “Ao Vivo no São Luiz” podemos redescobrir canções emblemáticas do percurso de Sérgio Godinho, com os arranjos orquestrais de Filipe Raposo, bem como a participação dos indispensáveis “Os Assessores” dirigidos por Nuno Rafael. Aqui a obra de Sérgio Godinho ganha, com a OML, uma deslumbrante dinâmica sinfónica e as execuções de banda e orquestra são perfeitíssimas.
«Nunca, até agora, fiz um concerto com uma orquestra sinfónica, e isso, mais do que uma lacuna no currículo, era uma lacuna no prazer», referiu, na altura, Sérgio Godinho. Segundo o músico, o São Luiz foi a sala ideal para essa estreia: «Nela actuei tantas vezes, em tantos formatos, que não há dedos que as contem. É um currículo em si, que reconheço com orgulho». Para Sérgio Godinho, o Teatro São Luiz foi o seu «primeiro grande momento de comunicação em Portugal». “Ao Vivo no São Luiz” iniciou assumidamente as celebrações de 50 anos de uma das carreiras mais marcantes da história da música portuguesa.
Aproveitando o embalo, a Universal Music reeditou dois dos mais importantes trabalhos discográficos da carreira de Sérgio Godinho, que estavam há algum tempo longe dos escaparates: os álbuns “Pano Crú” e “Campolide”, editados originalmente nos anos de 1978 e 1979, respectivamente. Para além do formato CD, estes discos foram ainda disponibilizados em vinil, reproduzindo a edição inicial. Foram estes dois registos que nos trouxeram “hinos” como “O Primeiro Dia”, “2.º Andar Direito”, “O Homem-fantasma”, “Parto Sem Dor”, “Arranja-me Um Emprego”, “Mudemos de Assunto” ou “Quatro Quadras Soltas”.
Sérgio x 3
No âmbito da celebração de cinco décadas de actividade criativa e artística de Sérgio Godinho, e já no final de 2023, a publicação de “Sérgio Vezes Três” reuniu o melhor do “escritor de canções” em três discos: o primeiro, “Estúdio”, junta temas que se destacaram nos seus 18 registos oficiais em nome próprio; o segundo, “Ao Vivo”, centrado na sua actividade em palco, inclui momentos captados a partir de 1990 e até aos nossos dias; e o terceiro, intitulado “Avulsos (e outras colaborações)”, reúne gravações dispersas e colaborações que o músico foi concretizando ao longo da sua actividade.
A palavra sempre foi muito importante e sempre me deu muito gozo trabalhar com as palavras, com a frase, com as rimas, com essas dinâmicas inesperadas que muitas vezes uma canção pode ter.
Sérgio Godinho
Nas palavras de Sérgio Godinho: «Ao sugerir para título desta compilação o sucinto nome “Sérgio vezes três”, tive desde logo a noção de quanto isso seria um ínfimo pedaço da história. Estava-se apenas a arrumar em três convenientes prateleiras uma multiplicidade de universos – cada qual com o seu olhar sobre a vida, o mundo em nosso redor, ora insensato ora sagaz, ora cruel ora generoso, as emoções e as suas formas de expressão, os empolgamentos, as indignações, enfim, a matéria-prima de cada canção: melodias, palavras, rimas e acordes, a tentativa de, vez após vez, definir o que é por essência indefinível. A música paira no ar, as palavras pousam na terra. Porém também a música brota do solo, e as palavras ascendem às nuvens e às estrelas. Como fazer delas um território comum? Deve ser assim que surge e cresce uma canção, mas estou apenas a adivinhar. Cada caso foi um caso, disso lembro-me. O resto dissolveu-se num todo, como a farinha se transforma no pão. “Sérgio vezes muitas”, seria afinal o título certo para este feixe de canções. Mas, mais do que ter que as contar, melhor será ouvi-las. Foram feitas para isso, e é para isso que servem. Caso a caso, vez a vez».
Com um acervo inacreditável de temas gravados em estúdio e em palco, “Sérgio Vezes Três” mostra como as canções de Sérgio Godinho estão plenamente inscritas no código genético de Portugal. Seria redutor, por exemplo, referirmo-nos a Liberdade e à Revolução do 25 de Abril sem mencionar a canção “Liberdade”, incluída originalmente no álbum “À Queima-Roupa”, lançado no ano da revolução, e que podemos redescobrir nesta compilação. O refrão «a paz, o pão, habitação, saúde, educação» há muito que deixou de pertencer apenas a uma canção, sendo um autêntico símbolo da luta por um país justo e igualitário. Mas “Liberdade” é apenas um exemplo da acutilância com que Sérgio Godinho observa a sociedade e como esse olhar se transpõe em canções intemporais.
Cronista exímio, o amor é outra das temáticas que atravessa a sua obra. Recordemos canções como “O Primeiro Dia”, “Com um Brilhozinho nos Olhos” ou “Às Vezes o Amor”, que reforçam o talento de Sérgio Godinho enquanto contador de histórias e porta-voz das nossas emoções. Encontramos também a sua vitalidade com alguns dos seus melhores momentos em palco, sendo-nos possível percepcionar que o músico encontrou nos seus concertos um veículo para a renovação do seu repertório, sempre em constante mudança, sempre vivo.
Esta vitalidade é comprovada pela diversidade de locais e formações que os temas retirados de discos gravados no Instituto Franco-Português, em 1990, ou os captados no Teatro São Luiz, em 2014 e 2018. Mas é também neste disco que surge uma das gravações inéditas da compilação, a inclusão de “O galo é o dono dos ovos” numa versão em palco apenas acompanhado pelo piano de Filipe Raposo. Em “Avulsos (e outras colaborações)”, o terceiro disco desta compilação, a descoberta de repertório que, pelas mais variadas razões, se dispersou por álbuns em colaboração ou projectos especiais – seja pelas velhas canções populares quase esquecidas que Sérgio Godinho recuperou, ou pelas colaborações com pares de distintas gerações, dos seus contemporâneos (José Mário Branco, José Afonso, Jorge Palma ou Fausto) até às gerações que lhes sucederam (entre outros, Clã, David Fonseca, Samuel Úria, Bernardo Sassetti ou Filipe Raposo).
Outra das surpresas de “SÉRGIO VEZES TRÊS”, e tema de abertura deste disco, é a digitalização de “Nós por cá todos bem”, a canção do filme com o mesmo título assinado por Fernando Lopes, datada de 1977 e recuperada para esta edição. “Sérgio Vezes Três” traça o retrato de uma obra única que ao longo de mais de 50 anos não perdeu a sua actualidade e, arriscamos afirmar, a sua contemporaneidade. Ao ouvinte é proporcionada a audição de 66 canções de Sérgio Godinho – 65, para sermos mais correctos já que “O Primeiro Dia” é repetido na sua versão em italiano “Il Primo Giorno” – que traduzem o percurso, nas suas diferentes vertentes, de um criador e intérprete fundamental da história da música produzida em Portugal (*). Ou, fazendo uso do parágrafo de abertura do texto assinado por Pedro Dias de Almeida: «Lembro-me de canções de Sérgio Godinho desde que me lembro de mim». Lembramo-nos todos!
75 Canções
Em 2023 também, chegou “75 Canções”, o livro da editora Assírio & Alvim que reúne letras, partituras, cifras e fotografias de Sérgio Godinho. O projecto que começou como uma colecção de 55 canções acabou por se tornar em 75. O livro é descrito como «um livro dinâmico, como a música deve ser.» Com transcrições musicais de João Cabrita, este volume celebra também a carreira de mais de cinco décadas do emblemático Sérgio Godinho. Aprofunda não só poemas e músicas concebidos e interpretados a solo, mas também diversas obras resultantes de cumplicidades e partilhas com artistas de múltiplas gerações e vários estilos musicais. “Armadilha”, “Grão da mesma mó”, “O sopro do coração”, “O novo normal” ou “Tudo no amor” são apenas algumas das novas aquisições.
«Foi há tantos anos que ainda me lembro: adolescente, eram livros como este que me levaram a experimentar as primeiras (e rudimentares) formas de escrita; e, desde aí, nunca me têm largado. Ou seja, tenho-os à mão e eles têm-me à perna. O acesso prático aos mecanismos que outros usaram para criar (ou criaram para usar…) nunca deixou de me trazer luzes e dicas importantes, neste ofício intermitente da feitura de canções. Imitamos, transformamos, inventamos, emperramos e solucionamos, mas nunca a partir do nada — há sempre, num ponto de partida, de percurso ou de chegada, o que nos foi sugerido por outros saberes. Com livro ou sem livro, com ou sem Internet. Mas é destes manuais que falamos: sabemos como, em Portugal, são, infelizmente, aves raras. Começam agora algumas a pousar, e serão cada vez mais bem-vindas. Que prenda para todos os que praticam estas coisas, ter um dia acesso a toda a música portuguesa (enfim, não exageremos…) neste formato, ou noutros que se vão inventando. Estatisticamente, o meu contributo passaria a ser muito menor, e eu com isso no maior contentamento», partilha Sérgio Godinho.

Consentimento
Sérgio Godinho lançou em 2011 “Mútuo Consentimento”, cujo título nos exorta a consentir que as suas palavras, personalidade única e capacidade cada vez reformulada e surpreendente continuavam e continuam a fazer de si um dos expoentes máximos da música nacional. Nessa ocasião, contou-nos sobre esse disco e sobre a sua carreira, sobre como ambos se cruzam e interligam. Vivia-se sob o espartano controlo do FMI, fruto de grave crise económica, e ainda que haja nesse álbum músicas como o “Acesso Bloqueado” ou “A Invenção Da Roda” que estão mais ligadas à actualidade, Sérgio Godinho versava mais sobre o amor, sobre a mulher e sobre outras coisas.
Porque a “intervenção” é uma coisa do espírito, admite, «em todos os momentos gosto de alimentar os outros com um universo mais rico do que aquele que eles estão a viver no seu dia-a-dia, porque senão estamos a restringir o universo, e só a pensar em troikas e não sei quantas. A troika já existe e as dificuldades e a crise existem, isso é incontornável, temos é que arranjar maneiras de andarmos para a frente. Mas é preciso alimentarmos o espírito com algo mais, e isso sempre existiu nos meus discos, eu sempre tive canções de vários teores, canções do quotidiano, canções em que invento personagens em situações muitas vezes irreais, canções de amor, canções simplesmente irónicas sobre uma determinada realidade social, jogos de palavras, sempre tive isso. E não é pelo facto de neste momento estarmos numa crise mais profunda que eu vou deixar de fazer isso, antes pelo contrário, acho que isso é necessário».
Uma conversa intemporal, daquelas cheias da riqueza de quem tem tanto para dizer, que vale a pena recordar numa altura em que o Sérgio Godinho caminha para os 80 anos de uma vida plena, como referia: «Sou mais que um sobrevivente. Sobrevivente é aquilo que só sobrevive [risos]… Eu, digamos que, seria um “vivente”. Sobreviver, primeiro são as condições, geralmente sobrevive-se em condições extremas. As minhas às vezes foram extremas, outras vezes não. Mas sobretudo o que sobreviveu e continua actuante é, digamos, a minha vontade de fazer música, de criar. Primeiro de criar música, e depois de a praticar nos palcos. Portanto nesse aspecto estou completamente vivo».
Ouvindo “Mútuo Consentimento” e logo “Mão na Música”, que o abre, é fácil de perceber o que é que ainda te motiva na música. Tudo o que há para descobrir…
Sim, há sempre. Sobretudo o acto de criar, a criação, as coisas surgirem de um suposto nada e, de repente, ganharem um corpo é muito misterioso e dá muito trabalho, mas dá muito prazer.
Teres encontrado com o Nuno (Rafael) foi decisivo, a certa altura, para aquilo que acolheste de novo na tua sonoridade?
Sim, é verdade. O “Domingo no Mundo” foi o primeiro disco onde o Nuno Rafael apareceu e, embora o grupo, o núcleo duro d’ “Os Assessores” – que foi um nome que começou como brincadeira, mas pouco a pouco passou a ser o nome oficial da nossa banda – exista desde o ano 2000, com 3 deles saídos dos Despe e Siga, o Nuno Rafael, o Sérgio Nascimento, na bateria, e o João Cardoso nas teclas. E depois há outros músicos. Havia um que já vinha de trás, que é o Miguel Fevereiro. Mas de facto o som d’ “Os Assessores”, se bem que não seja um som imutável, de disco para disco vai mudando, mas o som do Nuno Rafael e dos outros, o trabalho que temos feito em conjunto tem sido muito estruturado e há realmente uma sonoridade muito específica e gostamos desse trabalho, gostamos de construir. Acho que quando termino uma canção ela existe de uma determinada forma, geralmente componho à guitarra, mas depois sei que isso vai ter outras leituras e que se vai enriquecer de outra maneira e que se vai tornar não outra canção, mas a mesma canção muito mais forte, com coisas que até a mim me surpreendem.
Há muita coisa na tua música que, não sendo imutável, é talvez demasiado característica. Quando começaste a acolher uma certa juventude foi simples incorporar as correntes que vinham de fora?
Sim. De facto, sempre toquei naturalmente com músicos de gerações diferentes e geralmente mais novos. Houve uma altura em que estive mais interessado em formas de música popular, houve uma altura em que estive mais interessado no jazz, na altura em que veio o João Paulo Esteves da Silva, enfim, de certas formas que vinham de uma certa formação de jazz. Mas sempre tive uma componente pop-rock muito forte, desde o meu primeiro disco. O meu primeiro disco, “Os Sobreviventes”, termina com o rock puro, que é o “Maré Alta” («a liberdade está a passar por aqui…»), e sempre tive essa componente. Cresci com o rock e com o pop, além das minhas outras influências, influências brasileiras, francesas, mas sobretudo no pop-rock e no folk também, altura do Dylan, ainda pré-rock e depois rock, tudo isso foi muito importante para a minha formação. No fim de contas, eu com a minha banda cruzamos essas influências muito naturalmente. Eles trazem sonoridades, muitas vezes, e trazem uma nova abordagem à canção que eu não encontraria. E eu também trago a canção propriamente dita.
Diz que “Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades”, do José Mário Branco, é o “Sgt. Pepper’s…” português. E o Sérgio, com as palavras, é o Jimi Hendrix? A forma como sempre trabalhaste a palavra… Era algo próprio do tempo?
Não. Não é do tempo. Acho que é da formação da pessoa… Ou nasce-se assim, se calhar. Mas tive sempre uma influência familiar em que se lia muito, cuidava-se muito das palavras. A minha avó tinha um programa de poesia, em que dizia um poema na rádio. A palavra oral sempre foi muito importante, e sempre me deu muito gozo trabalhar com as palavras, com a frase, com as rimas, com essas dinâmicas inesperadas que muitas vezes uma canção pode ter. E é curioso porque, geralmente, começo por uma base musical, ou seja, componho a música primeiro e só depois é que as palavras vão entrar ali e vão já encontrar a sua cama dentro da música. Portanto, não começo pelas palavras secamente. Em 90% dos casos, começo por uma base musical, quando a frase existe ela tem já uma música inerente e acho que isso é um bocadinho o segredo, que não é segredo nenhum [risos], mas é a maneira como trabalho.
Se pensarmos no som clássico de Sérgio Godinho, aqueles trabalhos com o José Fortes, hoje em dia o que sentes que mudou na forma como trabalhas em estúdio?
Há muita pré-produção. Tem que ser, até porque há muitos ajustes que se fazem, até de pós-produção ou de escolha de instrumentos. Por exemplo, muitas vezes no estúdio pomos instrumentos a mais, sabendo que vamos tirar, em certas partes das canções, certas partes de instrumentos. São ajustes que podem ser feitos em “casa”, com umas máquinas. Nesse aspecto, essa agilidade que vem do digital está a milhas… Não quer dizer que não se fizesse bom som, por que se fazia! Nos tempos do Zé Fortes e de outros, do Silva, que fez o som do “Pano-Crú” e do “Campolide”, era bom som. O que acho é que se fazia com recursos diferentes e esses tipos eram um bocado heróis, nesse aspecto. De maneira que eles, muitas vezes, cortando um bocadinho de fita, faziam colagens às vezes de uma palavra que estava mal aqui e entrava na outra… Coisas assim, o que é absolutamente misterioso. Podemos pensar que um computador também é uma coisa misteriosa [risos], porque não dominamos tudo, dominamos o know-how, sabemos como fazer, mas não sabemos muitas vezes como é que eles chegaram lá.
Há algum tipo de microfone que tenhas como fétiche, que saibas que vai resultar imediatamente, até pela particularidade da tua voz?
Não. Sou muito pouco dado a essa parte da técnica, confio perfeitamente nos técnicos. No caso deste disco [“Mútuo Consentimento”], como aliás já no disco ao vivo “Nove e Meia no Maria Matos” e até o “Três Cantos”, foram o Nelson Carvalho, com quem eu tenho uma grande confiança, eu e os músicos. O Nuno Rafael, que foi o produtor deste disco, trabalha de muito perto com o Nelson. Acho que é dos melhores em Portugal e é muito músico também. Essa sensibilidade musical não pode interferir no gosto dos outros, mas pode ser uma dica muito importante para se saber o que é que está melhor, o que é que está pior, mesmo na mistura, o que é que se deve sobrevalorizar e o que se deve subvalorizar, qual é o lugar da voz no meio dos instrumentos. Tudo isso é um trabalho que também passa por uma sensibilidade musical. O que não se pode confundir com gosto pessoal, porque um técnico de som tem que saber gravar tudo. Simplesmente, no caso, sei que ele gosta mesmo.
É um “Assessor” também?
[Risos] É um “Assessor”, exactamente. Ele gosta mesmo, e faz parte desta equipa.
O Bernardo Sassetti torna o disco muito especial…
Há muito tempo que queríamos fazer uma canção juntos e, quando estava a preparar este disco pensei «nem é tarde, nem é cedo». Mostrou-me dois ou três temas ao piano e, imediatamente, este tema que acabou por ser o “Em Dias Consecutivos”, ao qual fiquei completamente agarrado. É uma valsa soturna, a imagem dele é que via pessoas a cruzarem-se nas ruas e fiz esta espécie de mortos-vivos que povoam as cidades, tive essa imagem, e foi uma letra que me deu muito trabalho, porque queria que transmitisse precisamente aquela sensação de estranheza, das vidas cruzadas, uns de nós ainda mortos, uns de nós ainda vivos. Aqui é quase como se as pessoas fossem sonâmbulas, é como se vivessem o dia-a-dia de uma maneira sonâmbula e muitas vezes vemos isso na maneira como as pessoas estão nas ruas, nos metros, como se cruzam. Muitas vezes é como um sonambulismo… Às vezes vêm com falta de sono também [risos], deitam-se tarde e acordam cedo. Então de manhã isso é muito patente. Não temos que estar sempre totalmente acordados, mas convém que de vez em quando estejamos acordados.
Não temos que estar sempre totalmente acordados, mas convém que de vez em quando estejamos acordados.
Sérgio Godinho
Associaram-se palavras como “revolução” e “intervenção” a ti e a outros compositores da tua geração. Hoje em dia, qual é a influência que tem realmente um álbum, achas que as pessoas ainda estão despertas para isso?
As minhas canções sempre foram de teor muito diferente. Há canções de teor mais social, até uma ou outra que podemos considerar mais política, mas todo eu sou um observador da vida, um observador activo. Isso é o que ressalta mais nas minhas canções, isso existe em várias alturas da vida. Portanto, acho que esse termo “intervenção” foi um termo muito mal usado, porque se pode intervir em tantas áreas da nossa cabeça, da nossa sensibilidade.
E no sentido do consumidor final, a forma de ouvir um disco mudou muito. Há uma geração que nem ouve o disco…
Às vezes nem se ouve um disco, ouvem-se umas quantas canções. Haverá um lado bom nisso, porque muitas vezes também não se ouvia um disco, ouviam-se só aquelas canções que estavam na playlist, e se não se tinha o disco desconhecia-se o resto. Tenho canções de tantos teores tão diferentes, que acho que é bom que cada canção valha tanto como a outra, embora continue a haver sempre um single que é puxado para a frente e depois, provavelmente, um segundo. São estratégias, não contesto isso. O que não me agrada é que não se oiça o resto.
Guitarras
Disseste que não davas muita importância à especificidade do material, mas surgiu a associação com Walden para a guitarra. Tem uma pinta do caraças, uma assinatura do Sérgio Godinho…
Já anteriormente tive guitarras oferecidas, inclusivamente houve uma Takamine que usei e que também tirei uma fotografia com a própria Takamine e não há um contrato sobre isso, não temos nenhum papel escrito. Neste momento, deram-me a Walden, que é uma excelente guitarra. Escrevi umas palavras sobre a guitarra, e eles podem usar isso como quiserem, como é evidente. É uma guitarra dentro de um preço acessível, embora a minha tenha sido dada, mas que é uma guitarra muito táctil, que é muito boa de tocar, tem um braço muito bom tal como o som, que é reforçado não só pelo jack mas também pelo microfone que está nas cordas, como agora também às vezes se usa. Foi o Rui Veloso, uma vez fui a casa dele e tinham acabado de lhe dar essa guitarra, que me disse «gosto muito desta guitarra, e não é inacessível para as pessoas comprarem», e acabou por me dar aquela que ele tinha, e foi assim. Não é um contrato de longa-duração, mas se um dia me quiserem dar outra é não me importo [risos]! E com todo o prazer também retribuo, porque isso são relações muito simples.

És coleccionador?
Não, tenho umas quatro ou cinco guitarras. Tenho uma Takamine, tenho uma Tumbleweed também, que me deram numa certa altura e que é muito simpática, tenho essa Walden e tenho duas Yamaha. A guitarra mais antiga que tenho é duma marca que já não existe, que se chamava Yamaki, que era também uma marca japonesa, e foi uma guitarra que comprei ainda no Canadá, portanto, antes do 25 de Abril.
Já gravaste lá o teu segundo álbum?
Não, os dois primeiros discos, o “Sobreviventes” e o “Pré-História” gravei em Paris, embora no segundo disco já não estivesse a viver em Paris, mas em Amesterdão. Depois estava a preparar o terceiro disco, com essa guitarra, aliás (Yamaki), o “À Queima-Roupa”, e há certas coisas que estão gravadas no Canadá. Entretanto foi o 25 de Abril, e trouxe para cá, por exemplo, a canção “Etelvina” ou a base para uma canção chamada “Liberdade”, que foram gravadas primeiro no Canadá. E essa guitarra continua a ter um toque muito bom, uso-a para compor em casa. Há outras guitarras que estão no nosso local de trabalho. Mas não sou coleccionador, não sou, por exemplo, como o Rui Veloso, que tem uma colecção fantástica de guitarras. Não tenho espaço físico para ser um coleccionador, preciso de lugar para outras coisas, e também não tenho muito esse drive de coleccionador.
Há pouco referias o Dylan, mas eu não tenho memória de ver o Sérgio Godinho com uma guitarra eléctrica…
Não, geralmente não toco. É verdade que o Dylan depois tocou eléctrico. Mas eu não tenho necessidade disso, até porque também não toco muito. Quando toco guitarra nos meus concertos, não toco muito. Toco geralmente duas ou três canções. Às vezes, quando fazemos uma formação mais pequena toco mais, mas toco para acompanhar ou então toco uma ou outra canção sozinho, e aí com a guitarra. De resto, gosto de estar livre no palco e solto e andar de um lado para o outro, e de preferência com um microfone sem fios [risos].
LIBERDADE25
Na estrada desde Março de 2023, passando por várias salas esgotadas, “LIBERDADE25” comemora os 50 anos do 25 de Abril de 1974 e recorre à canção publicada em 1974 no álbum “À queima roupa”, Sérgio & Os Assessores construíram um espectáculo evocativo da sua obra cuja lírica, ou não fosse Sérgio Godinho o “escritor de canções”, se confunde com o relato do quotidiano nacional das cinco décadas que nos separam daquela “madrugada”.
Com uma discografia iniciada em 1971 e que se mantém activa até ao dias de hoje, Sérgio proporciona em “LIBERDADE25” uma viagem carregada de emoção por algumas das suas canções mais representativas – de “Maré Alta” a “Grão da mesma mó”, passando por “Com um brilhozinho nos olhos” ou “Cuidado com as imitações”, Sérgio & Os Assessores transportam o público numa viagem temporal que tem a particularidade de confirmar a contemporaneidade da mensagem e da intuição musical de Sérgio Godinho. Fundamental, a presença de Os Assessores, a banda que o acompanha há um par de décadas, dirigida por Nuno Rafael.
Inevitável ainda de destacar em “LIBERDADE25”, a justa evocação aos companheiros de sempre: a Zeca Afonso, com uma assombrosa versão de “Os Vampiros”; ou a José Mário Branco, relembrando parcerias do início de carreira e que se prolongaram até “Mariana Pais, 21 Anos”, canção do álbum “Nação Valente”. Ou ainda, partilhando um dos seus fétiches musicais mais antigos, trazendo a palco “Ora Vejam Lá”, original do Conjunto de António Mafra, um divertido tema em que a reivindicação pela “semana-inglesa” se confunde com compromissos amorosos. Longa vida, Sérgio Godinho!

Parabéns pelo artigo! Ganhou mais um seguidor. Me interesso muito pelo assunto e tenho o prazer de compartilhar contigo meu último artigo também: https://davipinheiro.com/01-escravos-da-cara-inchada/