No EP Afterlife, Cabrita reúne um conjunto de temas colaborativos com Iguana Garcia, Mirror People, HAYDENMAKESMUSIC, Stereossauro, Scuru Fitchadu e Rita Braga.
Com mais de três décadas de actividade, João Cabrita afirma-se como um dos músicos mais versáteis do panorama nacional, com um percurso que atravessa o jazz, o rock e a electrónica. Ao longo da sua carreira, colaborou com nomes como Sérgio Godinho, Dead Combo, The Legendary Tigerman, Cais Sodré Funk Connection, Virgem Suta, Susana Félix, X-Wife, Selma Uamusse e Márcia, entre muitos outros.
Depois de assinalar os 30 anos de carreira com o álbum Cabrita (2020) e de aprofundar uma dimensão mais autoral em Umbra (2023), o músico apresenta agora Afterlife como uma continuação desse percurso — um trabalho que questiona a ideia de forma definitiva e propõe uma escuta aberta à transformação.
Partindo da ideia de que as canções não são entidades fixas, mas antes organismos em transformação, Afterlife constrói-se como uma extensão desse pensamento. «Todos sabemos que as canções têm muitas vidas. Desde a primeira ideia na cabeça do compositor, depois as maquetes, e a primeira gravação. Uma série de decisões faz com que se chegue a um resultado», refere Cabrita. «E mesmo depois disso já muitos vimos temas antigos, obscuros, saltar para fora do anonimato graças a uma versão ou um filme, anos depois».
É a partir dessa noção de continuidade e reinvenção que o EP se desenvolve. Após concluir Umbra — um disco marcado por uma reflexão sobre o fim da vida — Cabrita propõe-se explorar o que poderá existir para além desse ponto de partida. «Sendo o ‘Umbra’ um disco tão importante para mim por reflectir sobre o fim da vida, quando o terminei dei por mim a pensar sobre o que haverá depois», explica.
Afterlife surge, assim, como uma metáfora desse “pós-vida” das canções, materializada através da colaboração com diferentes artistas. A cada um foi concedida total liberdade criativa, resultando num conjunto de leituras distintas sobre o mesmo ponto de origem. «Resolvi então convidar uma série de artistas, amigos, conhecidos, que admiro muito, para metaforicamente reflectir sobre este ‘pós vida’. Todos tiveram carta branca para tornarem suas as canções, e aqui está uma amostra bem interessante e diversa», detalha Cabrita.
Fica claro que mais do que um conjunto de revisitações, Afterlife funciona como um exercício de desprendimento artístico. Ao entregar estas composições a outros criadores, Cabrita aceita que as canções deixem de lhe pertencer por completo, permitindo que sejam reinterpretadas através de sensibilidades, percursos e linguagens muito distintas.
O resultado é um EP que se move entre diferentes linguagens e abordagens estéticas, reflectindo tanto a diversidade dos colaboradores como a própria trajectória de Cabrita, marcada pelo cruzamento de géneros e contextos. Há aqui uma lógica de dispersão criativa controlada, onde cada malha funciona menos como versão e mais como reinterpretação autónoma, como se cada artista habitasse a mesma canção num universo paralelo.




O conceito de Cabrita para este EP ganha particular relevância numa época em que a música é consumida a um ritmo cada vez mais acelerado. Enquanto muitos lançamentos desaparecem rapidamente do radar mediático, Afterlife propõe precisamente o contrário: uma reflexão sobre a longevidade das obras e a capacidade que estas têm para ganhar novos significados ao longo do tempo. As canções aqui presentes recusam a ideia de uma forma definitiva, assumindo-se como organismos vivos, em permanente transformação.
O disco foi gravado, presumivelmente, em registo home studio por cada um dos músicos convidados. A masterização coube a Pedro Moreira, na Casa do Som. Editado no dia 4 de Maio de 2026, Afterlife encontra-se disponível nas plataformas digitais. A foto que ilustra o artigo e a capa do disco é de Francisco Quera Gomes.
