SWR 25

SWR 25, O Negrume Luso

Regressos, sangue novo e nomes sacrossantos. Eis os sequazes lusos do Grande Bode que subirão a palco no SWR 25.

REPULSION, UNLEASHED ou DØDHEIMSGARD por si só tinham peso mais que suficiente para exercer uma atracção gravitacional muito potente em direcção ao solo sagrado de Barroselas no final de Abril, mas a segunda vaga de confirmações para o festival trouxe ainda mais razões para que o público afecto à música mais extrema e underground se desloque em massa à pequena vila minhota. Conforme prometido, o alinhamento daquele que é o SWR 25 oferece um total de 40 bandas em cartaz.

Depois dos primeiros vinte “aperitivos” anunciados em Outubro, o SWR – BARROSELAS METALFEST, que, este ano, decorre entre os dias 23 e 26 de Abril, o cartaz completo da 25.ª edição do SWR consolidou-o mais uma vez como um dos festivais de referência para os amantes da música extrema em Portugal. Nesta edição, o festival contará ainda com os headliners AURA NOIR, lendária banda norueguesa de black/thrash, cuja abordagem crua e impiedosa ajudou a definir o género ao longo das últimas décadas.

Esse segundo anúncio incluiu ainda um fortíssimo reforço do contingente nacional. Por exemplo, os crust punks DOKUGA, conhecidos pela sua energia incendiária, regressam também a Barroselas e, para os apreciadores de sonoridades mais extremas, os lisboetas UTOPIUM voltam com o seu grindcore poderoso e os HUMANART trazem a sua abordagem fria e cortante ao black metal. Vamos olhar cada uma das bandas portuguesas em detalhe, começando pelas que vão estar presentes na final da Wacken Metal Battle, disputando um lugar num dos maiores festivais do mundo.

W:O:A Metal Battle 2025 (Final)

Depois de, nos dez anos que passaram entre 2001 e 2011, se terem afirmado como um dos mais revoltantes e interessantes híbridos death/grind saídos do underground nacional, estes lunáticos NAMEK – que foram buscar o nome à série de anime Dragonball Z – desapareceram de cena e, durante seis anos, não se punha sequer a hipótese de os voltarmos a ver em concerto. O impensável acabou mesmo por acontecer, no entanto, em Junho de 2017, com o quinteto a regressar aos palcos para celebrar o 11.º aniversário do icónico “Vaginator” e revisitar «o lascivo mundo cibernético da degradação porno robótica». Já em 2023 surgiu um novo capítulo. “Sophistication Is Obsolete” é mais um tratado dos Namek de como misturar crust, brutal death metal, grindcore e goregrind, com perfeição alquímica. Vê-los no dia de abertura do SWR 2025, lutando pela presença no W:O:A, é o antítese das Bodas de Caná: o melhor vinho é para beber sóbrio, porra!

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Os MUSIC IN LOW FREQUENCIES (M.I.L.F.) interromperam um longo intervalo editorial em 2023. Continuam o seu caminho de busca da alma e catarse emocional através de uma combinação de aspereza black metal, sombras doom e envolvência post-metal, mas talvez os M.I.L.F. tenham mergulhado ainda mais fundo na toca do coelho, na procura de notas mais escuras e lamacentas, para refinar e redimensionar o seu som. Assim nasceu o recente álbum “Catharsis”, resultado de um período de escuridão, reflexão, contemplação da alma e purgação dos espíritos dos próprios músicos dos M.I.L.F. e «um acto de pacificação com todos os espíritos pesados que temos dentro das nossas mente», para usar as palavras da banda. Os M.I.L.F. são outro dos contendentes na final da Wacken Open Air Metal Battle 2025.

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Oriundos de Santo Tirso, os HUMANART são outro nome de reputada veterania no black metal luso. Desde 1998 que seguem as veias negras mais tradicionais do género, algo patente numa discografia que inclui os EPs “Fossil” (2000) e “Hymn Obscura” (2004) e os LPs “Lightbringer” (2014) e “(Further) Into the Depths”. A dimensão melódica do trabalho mais recente é pungentemente épica, abrindo clarões de luz luciferina sobre as frequentes barragens de blast beats. O dinamismo e agressividade dos Humanart denunciam um conjunto de músicos com perfeita noção das suas forças e capaz de as exaltar em disco e, como prova a sua qualificação para a final da Wacken Open Air Metal Battle 2025, em palco.

Fogo & Brutalidade

Fazendo jus à brevidade das suas descargas de grind anafado, os UTOPIUM também tiveram uma primeira existência curtinha. Foi ali meia dúzia de anos, entre 2007 e 2013, que ainda assim deixaram marca profunda na cena nacional. Uma banda formada por pessoal com história no nosso underground, sempre souberam, sem nunca descurar os princípios básicos de imediatismo e impacto directo do grindcore, juntar-lhe outros “pozinhos”, tipo sludge, noise rock, por aí, que tornam a sua castanhada numa espécie muito própria e muito única. É, basicamente, uma banda boa demais para não existir. Infelizmente temos muitas dessas a penar no limbo, mas em boa hora os Utopium decidiram regressar. Se ainda não temos a certeza se vão estender a sua curta discografia [um EP, “Conceptive Prescience” (2010), um split com os igualmente desaparecidos Lifedeceiver (2011) e um álbum, “Vicious Consolation / Virtuous Totality” (2013)], mas que já andam por aí a partir tudo em palco, isso já andam. É um princípio. E não há palco melhor para partir do que o do SWR, claro.

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Os PHENOCRYST foram formados no início de 2020, durante a gravação do seu EP de estreia, no qual se propuseram criar os alicerces de um acto de death metal com influências como o doom e algumas vibrações psicadélicas, para ilustrar paisagens sonoras de eventos vulcânicos e naturais desastrosos, catastróficos e aniquiladores. Não existem muitos artistas a cantar sobre este tema específico, se é que existem, e por isso, o conteúdo lírico é também algo a explorar. Já em 2024, com uma formação reconfigurada, os Phenocryst apresentaram o seu álbum de estreia. Sonicamente, “Cremation Pyre” aproxima-se do significado do seu título: sombrio, mas furioso, a propagar pavor e uma austeridade inexorável, portentoso e espaçoso em igual medida. Os riffs são enormes e pesados, com uma produção que remete para Bolt Thrower em meados dos anos 90. Resumidamente, trata-se de death metal lançado num vórtice de cinzas cósmicas, para não falar dos pedaços de melodia que reverberam subtilmente para o abismo. Impunha-se a estreia no SWR.

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Formados no Porto em 2006, os DOKUGA emergiram como uma força imparável no panorama punk (e metam raw punk nisso) português. Com uma sonoridade crua e directa, que incorpora a essência do d-beat hardcore. Kisto na voz, Miguel na guitarra, Óscar no baixo e Pedro na bateria têm-se mantido fiéis ao ethos DIY ao longo dos anos. Em 2015, editaram o seu homónimo álbum de estreia – uma bujarda de testemunho da sua dedicação e paixão pela música punk. Ao SWR 25, trazem o seu mais recente álbum, “Antes do Fim” (Novembro 2024), que mantém uma agressividade sem quaisquer compromissos e um notório desenvolvimento dos recursos musicais da banda. Mais velocidade, mais groove, mais podridão.

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Nascidos no verão de 2022, nos labirintos urbanos de Vila Nova de Gaia, os IDLE HAND erguem-se como um presságio sonoro, moldado na fricção entre a lentidão esmagadora do doom e a aspereza impiedosa do punk hardcore. Todavia, a sua abordagem não se limita ao peso absoluto, é uma tapeçaria de sombras e textura, onde os riffs arrastam a alma por terrenos áridos e a atmosfera claustrofóbica se dilui em momentos de reflexão sombria. Há uma urgência latente na sua música, um pulsar que sugere algo prestes a colapsar. Com músicos vindos das trincheiras do underground nacional, o primeiro lançamento, um EP captado numa live session, deixa antever o concerto no SWR 25: onde a energia crua promete tornar-se tão abrasiva quanto etérea.

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Emergindo das profundezas da rica tradição lusa, os DOLMEN GATE forjaram um tipo de heavy metal que ecoa as lendas ancestrais da sua terra e as delimitações estéticas impostas por Manilla Road, por exemplo, – às quais somam algo do doom metal mais primordial e, talvez, Bathory. O álbum de estreia, “Gateways of Eternity”, lançado pela No Remorse Records em 2024, é um testemunho da sua singularidade musical, onde riffs harmonizados (em algumas malhas com twin guitars tal como foram escritas no livro pelos sacrossantos Maiden/Priest) e orientados para melodias evocativas que se tornam hipnotizantes através da voz druídica de Ana Saltão. Cada canção é uma viagem plena de magia, mistério e impactantemente épicas. O seu espírito guerreiro parece encaixar perfeitamente no cartaz do Steel Warriors Rebellion 2025.

Pilares do Thrash, Death & Black Metal

São já um nome lendário na cena nacional – ao falar de thrash metal português, é inevitável a menção dos PITCH BLACK. A veterana máquina de guerra celebra este ano os seus 30 anos (!) de existência, eles que começaram por se chamar Withering, mas que mesmo já nessa altura tinham todos os ingredientes que iriam causar a devastação de inúmeros palcos de norte a sul do país. Mesmo sem nunca terem sido a banda mais fértil em termos de discografia (“Thrash Killing Machine” (2005) e “Hate Division” (2009) mantêm-se como os únicos registos de longa-duração, recentemente reeditados aliás), têm-se afirmado ano após ano, ou até mesmo geração após geração, já se pode dizer assim, como uma das mais letais propostas ao vivo que temos por cá. No SWR, vão mais uma vez dar provas disso, em ano de aniversário redondo.

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Quando se fala de black metal português (e até na história do SWR), poucos nomes carregam tanto peso e respeito como CORPUS CHRISTII. Desde os anos 90 que Nocturnus Horrendus tem erguido este culto de forma inabalável, mantendo-se sempre fiel à essência mais impiedosa do género. Com uma discografia extensa e implacável, álbuns como “PaleMoon”, “Delusion” e “The Bitter End Of Old”, todos lançados na última década, reafirmam uma identidade sonora que nunca cedeu a tendências ou concessões. Com a sua música fria e cortante, movida por uma fúria inextinguível e por uma visão artística que privilegia a escuridão absoluta, ao vivo os Corpus Christii são uma entidade ameaçadora, onde cada actuação se transforma num ritual de puro fanatismo negro.

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Pioneiros do death metal em Portugal, os icónicos SACRED SIN carregam um legado de brutalidade e inovação que remonta a 1991. Influenciados pela agressividade do death metal norte-americano e pela obscuridade do metal europeu, rapidamente se destacaram com um som denso e poderoso, recheado de riffs cortantes e uma abordagem lírica que explora temas de morte, escuridão e crítica social. O álbum de estreia “Darkside”, de 1993, abriu-lhes as portas do underground europeu, afirmando-os como uma das bandas mais influentes do género em território nacional. Ao longo das décadas, lançaram uma discografia sólida, destacando-se trabalhos como “Eye M God” (1995) e “Born Suffer Die” (1999), que revelaram uma maturidade composicional sem perderem a ferocidade característica. Após um hiato, regressaram com força renovada e têm mantido uma actividade consistente, continuando a influenciar novas gerações de músicos e fãs. No SWR 25, os SACRED SIN prometem um espectáculo carregado de peso e nostalgia, celebrando a sua vasta carreira e reafirmando o seu estatuto como pioneiros do metal extremo em Portugal.

A Orquestra

O heavy metal sempre encontrou terreno fértil na grandiosidade da música erudita, e a afinidade com o formato orquestral tem produzido alguns dos momentos mais épicos do género. A edição de 2020 do SWR encerrou com chave de ouro graças à orquestra STEELHARMONICS, que elevou o peso do metal a uma nova dimensão sinfónica. A banda filarmónica minhota mergulhou no repertório imortal do género e presenteou a audiência com interpretações arrebatadoras de clássicos como “Thunderstruck”, “Raining Blood”, “Painkiller” e “For Whom the Bell Tolls”. Um medley de Black Sabbath e a antémica “Fear of the Dark” ressurgiram grandiosamente, até à apoteose com “Alma Mater”, dos Moonspell.

Só podemos esperar pelas surpresas que nos estão reservadas no SWR 25, mas há algo que temos a certeza que se repetirá: a comunhão entre os metaleiros e os jovens músicos da filarmónica, tal como a fusão entre a energia crua do metal e a solenidade dos arranjos orquestrais, será um dos momentos mais marcantes do SWR, podem apostar!

Os bilhetes para o SWR 25 estão à venda no site oficial do SWR – BARROSELAS METALFEST.

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